Bitcoin: BIP-110 cria prazo de agosto para corretoras
A disputa em torno do BIP-110 no Bitcoin ganhou contornos operacionais para corretoras, carteiras, pools de mineração e operadores de nós. Afinal, um sistema público de alertas da Farside Investors passou a registrar automaticamente cada bloco com sinalização da proposta. Dessa forma, uma discussão antes concentrada em fóruns técnicos virou um tema prático de preparação para agosto, ainda que o apoio dos mineradores continue muito baixo.
Em 3 de julho, a Farside Investors informou no X a detecção de um novo bloco com sinalização do BIP-110. A empresa também indicou 7 blocos sinalizando no período atual. Além disso, a Farside explica que sua conta publicará automaticamente sempre que um bloco com essa sinalização surgir.
Sinalização ainda fica longe do limiar
Apesar da visibilidade maior, os números seguem muito distantes de uma ativação conduzida por mineradores. Dados diários da BGeometrics, consultados em 3 de julho e atualizados até 2 de julho, apontaram 38 blocos com sinalização do BIP-110 entre 9.066 blocos minerados desde 1º de maio. Em outras palavras, isso representa apenas 0,42% do total.
No recorte mais recente de sete dias da mesma API, entre 26 de junho e 2 de julho, apareceram 8 blocos em 1.000, ou 0,8%. Ademais, os dados diários mostram 1 bloco sinalizando entre 143 em 1º de julho, equivalente a 0,70%, e 2 de 131 em 2 de julho, ou 1,53%. A apuração também usou a base diária da BGeometrics.

Na prática, o alerta da Farside com 7 blocos no período atual serve mais como retrato momentâneo do que como sinal de tração suficiente. Ainda assim, sem o total de blocos já transcorridos naquele ciclo de retarget, esse número isolado não permite inferir proximidade do limiar. Mesmo assim, ao tomar como referência a exigência de 1.109 blocos, esses 7 sinais implicariam a necessidade de mais 1.102 blocos sinalizando antes do fechamento do período para haver lock-in por mineradores.
Pools grandes continuam fora da campanha
Essa distância mantém remota a hipótese de ativação imediata via mineração. Por outro lado, os alertas públicos ganham utilidade concreta para a infraestrutura do ecossistema. Cada novo sinal pode ser comparado tanto com o limiar de 55% quanto com o calendário obrigatório descrito na proposta.
Em nota de contexto publicada em 10 de junho, a BGeometrics indicou que seu conjunto de dados mostrava zero blocos sinalizando entre 1º de maio e cerca de 20 de maio. Depois disso, surgiu atividade baixa por volta de 21 de maio. Segundo a empresa, os volumes observados pareciam compatíveis com mineradores individuais ou operações menores, sem compromisso visível dos grandes pools. Além disso, a análise destacou que o Bitcoin Core não havia endossado o BIP-110.
A própria BGeometrics ressaltou que uma mudança de postura de pools de grande porte poderia alterar esse quadro rapidamente. Assim, decisões de nomes como Foundry USA ou Antpool teriam potencial para levar a sinalização diária de níveis muito baixos para uma faixa mais relevante em poucos dias. Até lá, porém, a rota de lock-in por mineradores segue distante, mesmo com a campanha agora exposta de forma pública e contínua.
Calendário de agosto eleva risco operacional
A especificação do BIP define a implantação como reduced_data, com uso do bit de versão 4. Conforme o documento, o lock-in por mineradores exige 1.109 dos 2.016 blocos de um período de ajuste de dificuldade, ou 55%. Além disso, a proposta define um período de sinalização obrigatória entre os blocos 961.632 e 963.647, com lock-in no máximo até a altura 963.648 e ativação um período de retarget depois, na altura 965.664.
A página operacional do BIP-110 também resume esse cronograma como uma janela de lock-in obrigatório em agosto, seguida por cerca de duas semanas até a ativação. Em seguida, começaria aproximadamente um ano de restrições ativas. De fato, o texto do BIP aponta uma duração ativa de 52.416 blocos, após a qual as regras expiram.
Corretoras, carteiras e nós precisam se preparar
Para o mercado, o peso dessas datas é mais operacional do que ideológico. Durante o período de sinalização obrigatória, o BIP afirma que nós que aplicarem as regras rejeitariam blocos sem o bit 4 como inválidos. Portanto, se a proposta se tornar ativa, esses nós passariam a impor novas restrições de consenso durante toda a janela prevista.
Isso impõe decisões práticas para corretoras, provedores de carteira, pools e operadores de nós. Corretoras precisam avaliar políticas de depósito, saque, confirmações e risco de cadeia em um cenário de ativação controversa. Ao mesmo tempo, equipes de carteiras precisam revisar compatibilidade com Taproot e Miniscript. O texto do BIP afirma que o compilador de Miniscript precisaria de ajustes caso a proposta entre em vigor. O documento também reconhece cenários considerados muito improváveis nos quais usuários poderiam, em tese, congelar ou perder fundos.
Pools de mineração, por sua vez, precisam definir uma política clara para o bit de versão. Já operadores de nós precisam saber se o software em uso aplica as regras do BIP-110 e como isso afeta a validade de blocos durante a janela obrigatória. Em resumo, mesmo com ativação incerta, a combinação entre alertas públicos e alturas de bloco definidas cria exigências de preparação antes de qualquer demonstração robusta de apoio.
Por ora, o quadro combina uma campanha pequena em números com um calendário relevante. Os dados mais recentes da BGeometrics, encerrados em 2 de julho, ainda mostram apoio muito abaixo do limiar de mineradores. Já o alerta da Farside de 3 de julho confirma que a sinalização continua surgindo em blocos individuais. O ponto de virada mais claro, segundo os próprios parâmetros observados, seria a entrada de um grande pool na sinalização ou a divulgação de posicionamentos concretos de prontidão por corretoras, carteiras e grandes operadores de infraestrutura.