Bitcoin pode atrair herança Boomer de US$ 124 tri
A próxima fase de adoção de ativos digitais pode nascer menos das mesas de negociação e mais dos escritórios de planejamento sucessório. Depois de anos de foco em ETFs, halving, juros e regulação, analistas passaram a destacar um motor mais lento, porém estrutural: a transferência geracional de patrimônio nos Estados Unidos.
A Cerulli Associates projeta que cerca de US$ 124 trilhões em riqueza das famílias americanas mudarão de mãos nas próximas duas décadas. Desse total, aproximadamente US$ 105 trilhões devem seguir para herdeiros. Além disso, outros US$ 18 trilhões devem ir para filantropia. Assim, o país caminha para o maior processo de transferência patrimonial já registrado.
Herança geracional entra no radar do Bitcoin
De acordo com a Cerulli, o movimento será liderado pelos grupos mais velhos. Baby Boomers e gerações anteriores responderão por quase US$ 100 trilhões do total, o equivalente a 81% de todas as transferências até 2048. Ao mesmo tempo, a Merrill estima que millennials devem herdar cerca de US$ 46 trilhões, a Geração X pode receber aproximadamente US$ 39 trilhões e a Geração Z algo em torno de US$ 15 trilhões.
Além disso, mais da metade desse volume, perto de US$ 62 trilhões, virá de famílias de alta e altíssima renda. Esse grupo representa apenas 2% dos lares dos Estados Unidos. Dessa forma, o quadro reforça a concentração patrimonial entre os mais velhos. Em 2023, famílias de maior idade controlavam 61% da riqueza nacional, acima dos 54% registrados três anos antes. Ademais, a valorização de ações e imóveis desde a pandemia ampliou esse montante. A própria Cerulli estimava US$ 84 trilhões em 2020, antes da revisão para o número atual.
Nem todo esse patrimônio, contudo, chegará de imediato aos filhos e netos. Cerca de US$ 54 trilhões devem passar primeiro entre cônjuges. Desse volume, quase US$ 40 trilhões irão para mulheres viúvas da geração Boomer e de grupos mais velhos. Portanto, a mudança deve ocorrer em etapas, ao longo de décadas, e não em uma única onda.
Jovens investem mais em criptomoedas
O ponto central para o mercado de criptomoedas está no perfil dos herdeiros. As gerações que receberão esse dinheiro investem de modo diferente daquelas que o acumularam. A pesquisa State of Crypto, da Gemini, mostrou que 49% dos millennials e 51% dos entrevistados da Geração Z nos EUA possuem ou já possuíram criptomoedas, contra 29% da Geração X.
Já o levantamento de investidores de 2026 da Motley Fool Money apontou posse atual de ativos digitais em 30% entre millennials, 16% na Geração X e apenas 7% entre Baby Boomers. Os números variam entre as pesquisas, mas a tendência permanece. Em resumo, a adoção cai de forma acentuada conforme a idade avança.
Um estudo da Coinbase com 4.350 adultos americanos que possuem contas de investimento concluiu que investidores da Geração Z e millennials mantêm 25% de suas carteiras em ativos não tradicionais, incluindo criptomoedas. Em contrapartida, entre integrantes da Geração X e Boomers, a fatia informada foi de 8%.
Na mesma direção, uma pesquisa do Bank of America Private Bank indicou que investidores jovens alocam 14% do portfólio em criptomoedas, contra apenas 1% entre investidores mais velhos. O estudo também mostrou que 72% das pessoas entre 21 e 43 anos acreditam que ações e títulos, sozinhos, já não conseguem entregar retornos acima da média. Entre os entrevistados com mais de 44 anos, esse percentual foi de 28%.
Wall Street se ajusta ao novo perfil dos herdeiros
Pesquisadores já começaram a medir o impacto potencial desse processo nos fluxos para o setor. Zach Pandl, chefe de pesquisa da Grayscale, calculou que americanos com 60 anos ou mais concentram quase US$ 110 trilhões em patrimônio líquido. Segundo ele, apenas 2% dos ativos transferidos já fariam diferença. Se essa fatia migrasse para ativos digitais, poderia gerar US$ 2,2 trilhões em demanda adicional para o mercado. Pandl afirmou que, à medida que os ativos mudarem de mãos, as carteiras poderão incorporar uma participação maior de criptomoedas.
A Galaxy Research chegou à conclusão semelhante em relatório de dezembro de 2023. A empresa estimou que uma transferência imediata poderia levar entre US$ 160 bilhões e US$ 225 bilhões adicionais aos mercados de criptomoedas, com base nas diferenças de aceitação entre as gerações. Na época, toda a classe de ativos valia cerca de US$ 1,5 trilhão. Desde então, o mercado cresceu e o avanço dos ETFs ampliou os canais de acesso.
Enquanto isso, instituições tradicionais agem como se essa tese demográfica já estivesse em curso. A Morgan Stanley iniciou em maio de 2026 um piloto de negociação à vista de ativos digitais na E*Trade, cobrando 50 pontos-base por transação. A taxa ficou abaixo de plataformas como Coinbase, Robinhood e Charles Schwab. A previsão é que os 8,6 milhões de clientes da E*Trade tenham acesso ao serviço ainda neste ano.
A Charles Schwab também lançou sua própria negociação à vista, com taxa de 75 pontos-base. Já a Vanguard, apesar de anos de ceticismo institucional, passou a permitir em dezembro de 2025 que clientes negociem ETFs e fundos mútuos de criptomoedas de terceiros em sua plataforma de corretagem. Além disso, em material para clientes divulgado em fevereiro de 2026, o JPMorgan Private Bank citou a transferência de riqueza como um dos motores potenciais para a futura adoção do Bitcoin. O banco também mencionou os US$ 62 bilhões em entradas líquidas que os ETFs spot de Bitcoin nos EUA haviam atraído até aquele momento.
Fatores podem limitar o fluxo para cripto
Apesar do cenário favorável, há fatores que podem limitar a velocidade e a intensidade desse movimento. Como US$ 62 trilhões da transferência estão concentrados nos 2% mais ricos dos lares americanos, a herança média da maior parte das famílias tende a ser bem menor que os números agregados sugerem. Portanto, uma leitura automática de entradas maciças no mercado pode exagerar o impacto real.
A própria Galaxy destacou que o aumento da expectativa de vida, a elevação dos gastos médicos e o consumo dos aposentados podem reduzir os valores que chegarão efetivamente às gerações mais jovens. O relatório citou uma estimativa da Fidelity segundo a qual os custos de saúde em 2021 para um casal que se aposenta somavam US$ 300 mil, alta de 88% em relação a 2002.
Outro ponto importante envolve a ordem da sucessão. Como US$ 54 trilhões devem passar primeiro para cônjuges sobreviventes, grande parte da riqueza continuará sob controle da mesma geração por anos antes de chegar aos herdeiros. Assim, eventuais mudanças mais relevantes de alocação podem demorar.
Também existe cautela quanto ao comportamento dos beneficiários. Dados de uma pesquisa da RBC Wealth Management sugerem postura mais voltada à preservação do que a uma reformulação brusca das carteiras. O levantamento mostrou que 99% dos beneficiários pretendem respeitar os desejos dos pais em relação ao patrimônio recebido. Além disso, sua principal preocupação é agir com responsabilidade financeira.
Ainda assim, o pano de fundo demográfico continua relevante para o Bitcoin e para o mercado de criptomoedas. A Cerulli projeta US$ 124 trilhões em transferência patrimonial até 2048. Zach Pandl estima que um redirecionamento de 2% desses recursos poderia adicionar US$ 2,2 trilhões em demanda por ativos digitais. Nesse sentido, Morgan Stanley, Charles Schwab, Vanguard e JPMorgan Private Bank já ajustaram produtos e estratégias para disputar esse novo ciclo de alocação.