Bitcoin precisa de trilhões para rali, diz CryptoQuant

O próximo grande rali do Bitcoin pode depender menos do entusiasmo do varejo e mais da capacidade de grandes balanços sustentarem a demanda. Para Ki Young Ju, CEO da CryptoQuant, a maior criptomoeda do mercado atingiu uma escala em que os ciclos de alta já não respondem como no passado.

Na avaliação do executivo, cada mercado de alta passou a exigir volumes muito maiores de capital para produzir ganhos percentuais menores. Assim, o Bitcoin enfrenta um novo desafio: voltar a registrar valorização parabólica enquanto negocia perto de US$ 63.000, cerca de 50% abaixo do pico superior a US$ 126.000 registrado em outubro do ano passado.

Escala do Bitcoin muda a dinâmica dos ciclos

Nos primeiros ciclos, o Bitcoin subia com mais facilidade porque partia de uma base menor. À medida que o ativo amadureceu, essa dinâmica perdeu força. Em outras palavras, o mercado passou a exigir entradas muito mais robustas para gerar altas relevantes.

Ki Young Ju comparou o avanço da capitalização realizada do Bitcoin em diferentes ciclos de alta com os retornos posteriores. Essa métrica atribui valor às moedas pelo preço em que elas se moveram pela última vez na rede. Portanto, funciona como um indicador do capital efetivamente absorvido pelo protocolo.

Na comparação de Ju, cerca de US$ 2,7 bilhões em entradas líquidas estiveram associados a uma valorização próxima de 55.000% em 2011. No ciclo atual, por outro lado, o mercado absorveu aproximadamente US$ 697 bilhões e, ainda assim, produziu alta de cerca de 689%.

Retorno do preço do Bitcoin e aumentos da capitalização realizada
Retorno do preço do Bitcoin e aumentos da capitalização realizada

Fonte: CryptoQuant

Além disso, o executivo destacou uma comparação ainda mais direta. Em 2011, bastavam cerca de US$ 5 milhões em novo capital para dobrar o preço do Bitcoin. Agora, esse número teria subido para aproximadamente US$ 101 bilhões.

Isso não invalida a tese de alta. No entanto, muda profundamente o perfil da demanda necessária. Na visão de Ju, outro rali relevante continua possível, desde que o Bitcoin passe a ser tratado como alocação macro central. Assim sendo, o mercado não pode depender apenas de uma dinâmica concentrada em ETFs e investidores de varejo.

Halving ajuda, mas não resolve sozinho

Com isso, o próximo ciclo do Bitcoin se transforma em um teste de integração mais profunda com os mercados financeiros. O halving continua reduzindo a oferta de novas moedas. Contudo, a trajetória de crescimento depende cada vez mais de gestores e alocadores tratarem o ativo como posição recorrente de portfólio, e não apenas como operação tática.

Saídas dos ETFs pressionam o curto prazo

Esse teste ocorre em um momento delicado para o principal veículo institucional de acesso ao ativo. Os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos ampliaram a entrada de consultores, fundos e investidores tradicionais após o lançamento em 2024. Entretanto, os fluxos recentes ficaram negativos e enfraqueceram a tese de que a demanda institucional já seria profunda o bastante para sustentar uma nova pernada de alta.

Dados da Santiment indicam que os ETFs de Bitcoin acumularam quase US$ 10 bilhões em saídas desde o início de maio. Além disso, os 12 produtos entraram em uma sequência de oito semanas consecutivas de retiradas.

Ao comentar esse movimento, a Ecoinometrics afirmou no X que o padrão desde maio tem sido bastante desequilibrado. Segundo a empresa, toda tentativa de reconstruir o ímpeto comprador fracassou quase de imediato, e os ETFs não conseguiram registrar mais do que um único dia seguido de entradas.

“O padrão desde maio tem sido notavelmente unilateral. Toda tentativa de reconstruir o momentum de compra estagnou quase imediatamente. Os ETFs de Bitcoin não conseguiram registrar mais do que um dia consecutivo de entradas, enquanto as sequências de saídas se estenderam repetidamente por vários dias, culminando na mais longa série de retiradas desde o lançamento dos ETFs.”

Saídas dos ETFs de Bitcoin
Saídas dos ETFs de Bitcoin

Fonte: Ecoinometrics, com dados publicados no X

Essas saídas dificultam a tese de uma recuperação rápida até as máximas. Afinal, o recorde de outubro surgiu em um período no qual investidores ainda premiavam o acesso via ETFs e enxergavam o Bitcoin como beneficiário de políticas mais favoráveis, maior participação institucional e integração mais ampla com os mercados globais.

Acesso regulado já não basta sozinho

Agora, a fraqueza dos ETFs sugere que acesso regulado, sozinho, não basta. Por isso, a próxima etapa de adoção exigiria alocações mais constantes em plataformas de patrimônio, carteiras modelo, balanços corporativos e outros grandes reservatórios de capital.

Instituições seguem no radar, mas com mais filtros

Apesar das saídas, o interesse institucional não desapareceu. Em janeiro de 2026, Coinbase e EY-Parthenon divulgaram uma pesquisa com 351 tomadores de decisão institucionais. O levantamento mostrou que quase três quartos dos entrevistados planejavam aumentar a alocação em criptomoedas, enquanto 74% esperavam alta dos preços do setor nos 12 meses seguintes.

A mesma pesquisa apontou que 49% passaram a dar mais ênfase à gestão de risco, à liquidez e ao dimensionamento de posições. Ou seja, as instituições não estão entrando no mercado de criptomoedas com o mesmo comportamento especulativo que marcou ciclos anteriores.

Em vez disso, esse público exige produtos regulados, governança clara, resiliência operacional e limites bem definidos de exposição. Ademais, o levantamento mostrou que 66% dos respondentes já tinham exposição por meio de ETFs spot de criptomoedas ou produtos negociados em bolsa, enquanto 81% preferiam exposição spot por meio de um veículo registrado.

Esses números reforçam a importância das estruturas reguladas para a próxima fase de adoção. Ainda assim, também ajudam a explicar por que as saídas recentes dos ETFs se tornaram um ponto de pressão. Se os ETFs são a principal porta de entrada institucional, uma fraqueza persistente nesses produtos pode retardar o processo mais amplo de alocação.

Mais balanços podem definir a próxima fase

Na prática, isso significa que o próximo ciclo do Bitcoin dependerá de uma base mais ampla de investidores do que a formada por varejo e fundos nativos do setor. Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, defende que a próxima década será menos definida pela emissão dos mineradores e mais pelos fluxos de capital que atravessam os mercados financeiros.

“Na próxima década, a trajetória do Bitcoin será menos impulsionada pela emissão dos mineradores e mais pelos fluxos de capital. Fluxos de ETFs. Fluxos de tesourarias corporativas. Fluxos de reservas soberanas. Fluxos de crédito bancário. Fluxos de derivativos. Fluxos de seguros. Fluxos de colateral. Fluxos de crédito estruturado. Fluxos de poupança global. O halving aperta a oferta. Os fluxos de capital definem a trajetória de crescimento. Esta é a próxima fase da adoção do Bitcoin: não apenas mais compradores, mas mais balanços.”

Como o ativo já opera em escala superior a US$ 1 trilhão, qualquer reprecificação relevante exigirá canais de demanda capazes de absorver esse tamanho de mercado. Portanto, consultores, empresas, bancos, seguradoras, gestoras e, eventualmente, reservas soberanas podem ter papel decisivo. Ao mesmo tempo, essa transição tende a ser mais lenta e deixa o Bitcoin mais exposto a juros, liquidez, regulação e à disputa com outras teses, como a inteligência artificial.