PF mira criptoativos em esquema de bets ilegais
A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira, 6 de julho, a Operação Véu de Maia. A ação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligado à exploração ilegal de apostas de quota fixa no Brasil.
A corporação afirma que a apuração mira 87 empresas suspeitas de atuar como interpostas pessoas, os chamados laranjas. Segundo a investigação, essas companhias teriam movimentado recursos de operadores irregulares de bets. Além disso, os investigadores apuram possível remessa irregular de valores ao exterior com uso de criptoativos.
A investigação começou após informações repassadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, órgão do Ministério da Fazenda responsável pela regulação do setor. Nesse sentido, a operação também reforça a ofensiva federal contra plataformas de apostas sem licença no país.
Empresas de fachada entram no radar da operação
Ao todo, a Operação Véu de Maia cumpre nove mandados de busca e apreensão, além de buscas pessoais. As diligências ocorrem em Aparecida de Goiânia e Goiânia, em Goiás; São Paulo e Ribeirão Preto, em São Paulo; e Porto Alegre e Canoas, no Rio Grande do Sul.
Com isso, a ofensiva alcança três estados e diferentes núcleos da suposta estrutura financeira. Os alvos são pessoas ligadas à constituição das empresas apontadas como fachadas pelos investigadores.
Durante o cumprimento de um dos mandados em Canoas, os policiais localizaram quatro armas sem registro. Como resultado, o morador do endereço acabou preso em flagrante.
Os investigados poderão responder por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e outros crimes que ainda possam surgir ao longo da apuração. Portanto, a linha investigativa busca esclarecer como os recursos circularam entre empresas, operadores de apostas e eventuais destinatários no exterior.
Fiscalização sobre bets sem licença ganha força
A operação ocorre em meio ao endurecimento da fiscalização sobre sites de apostas que atuam sem autorização no Brasil. As regras em vigor classificam como clandestinas as plataformas que não passaram pelo licenciamento do Ministério da Fazenda.
Essas empresas também não pagaram a taxa de outorga de R$ 30 milhões, não recolhem tributos regularmente e tampouco seguem as exigências impostas às bets autorizadas. Entre essas exigências estão normas de publicidade, controles contra fraudes e mecanismos de proteção ao apostador.
Além disso, o sistema de autoexclusão impede o acesso de pessoas cadastradas às plataformas reguladas. Dessa forma, a diferença entre o mercado legal e os operadores clandestinos se torna mais evidente.
A Folha de S. Paulo informou que o Ministério da Fazenda estima cerca de 300 operadores por trás de quase 50 mil sites ilegais já derrubados. Ainda segundo o governo, esses operadores teriam usado 37 instituições financeiras para processar pagamentos.
A concorrência das bets clandestinas se tornou um dos principais pontos de atrito entre o setor regulado e o governo. Empresas autorizadas argumentam que operadores ilegais oferecem serviços sem arcar com custos e obrigações previstos na legislação brasileira. Assim, a assimetria competitiva cresce e o combate a fraudes fica mais difícil.
Mercado clandestino de apostas movimenta cifras bilionárias
As estimativas sobre o tamanho desse mercado variam, mas apontam para valores expressivos. Segundo cálculos da H2 Gambling Capital, com base em dados de remessas ao exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego na internet, o mercado clandestino de apostas movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025.
Já um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, estima que as bets clandestinas representaram entre 41% e 51% de todo o mercado. Nesse cenário, o segmento ilegal teria movimentado entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.
PF apura uso de criptoativos em remessas internacionais
Para a Polícia Federal, a Operação Véu de Maia busca esclarecer o papel das 87 empresas investigadas na estrutura financeira desses operadores. Ao mesmo tempo, a corporação quer verificar se houve uso de criptoativos para enviar recursos ao exterior de forma irregular.
Em outras palavras, a apuração tenta mapear a conexão entre apostas sem licença, empresas de fachada e mecanismos de ocultação de patrimônio. No estágio atual, o caso envolve nove mandados de busca e apreensão em três estados, a apreensão de quatro armas sem registro em Canoas e a hipótese de remessas internacionais irregulares com criptoativos.
Por fim, a operação avança em um contexto no qual o governo afirma já ter derrubado quase 50 mil sites ilegais ligados a cerca de 300 operadores. A investigação, portanto, coloca o uso de estruturas societárias e ativos digitais no centro da apuração sobre lavagem de dinheiro em bets ilegais.