USDT retorna ao Bitcoin com RGB e Lightning
A Tether, emissora da stablecoin USDT, prepara a emissão nativa do ativo no Bitcoin por meio do protocolo RGB, na versão v0.11.1. A implementação avança sob liderança do laboratório de software UTEXO. Assim, o projeto marca o retorno do USDT à rede em que estreou em 2014, quando foi lançado pela camada Omni-Mastercoin.
Emissão nativa no Bitcoin ganha forma
A UTEXO lidera a expansão comercial da solução e atua como emissora e distribuidora desse USDT nativo do Bitcoin em parceria com a Tether. Em entrevista, o cofundador da UTEXO, Viktor Ihnatiuk, afirmou que a empresa está finalmente lançando o USDT sobre o Bitcoin com forte apoio da Tether, após mais de oito anos de desenvolvimento.
Além disso, o protocolo RGB combina um modelo de validação no lado do cliente com a Lightning Network para liquidações instantâneas e privadas. Dessa forma, a arquitetura mantém a segurança ancorada no modelo UTXO do Bitcoin. Na prática, usuários poderão movimentar USDT em endereços nativos de Bitcoin e também enviar ou receber o ativo pela Lightning Network em carteiras compatíveis.
Segundo a tese da UTEXO, o uso do RGB no Bitcoin oferece vantagens relevantes de privacidade para usuários de USDT. Isso ocorre porque o modelo UTXO favorece a criação de novos endereços a cada transação. Em contraste, redes baseadas em contas, como Tron, Ethereum e a Solana, tendem a estimular maior reutilização de endereços. Ao mesmo tempo, a integração com a Lightning reduz rastros na blockchain pública, já que parte das movimentações ocorre fora da rede principal.
“Construímos a Utexo para que o USDT pudesse se mover no Bitcoin da forma como o dinheiro deveria circular: instantaneamente, com privacidade e sem surpresas nos custos. Nossos parceiros integram nossa API uma vez e podem rotear USDT na rede aberta mais resiliente já construída, com controle total sobre a estrutura de custos”, disse Viktor Ihnatiuk.
Privacidade, custos e menos intermediários
Ademais, a conexão direta com a Tether tende a reduzir a presença de intermediários que cobram taxas adicionais ou coletam dados dos usuários. Nesse sentido, a proposta tenta unir liquidação rápida, previsibilidade de custos e maior discrição operacional em uma mesma infraestrutura.
A UTEXO nasceu de uma joint venture entre a Boosty Venture Studio, de Viktor Ihnatiuk, a Fulgur Ventures e a Tether Investments. O objetivo era direto: levar o RGB à rede principal após anos de atrasos sob equipes anteriores. O protocolo estava em desenvolvimento ativo desde pelo menos 2016. No entanto, ele não ficou pronto a tempo do ciclo de alta de 2017. Como resultado, a blockchain Tron ganhou espaço e passou a dominar o volume e o uso de USDT em várias regiões do mundo em desenvolvimento, posição que ainda mantém.
A UTEXO concentra esforços na chamada última milha do software necessário para adoção ampla do USDT no ecossistema do Bitcoin. Isso inclui kit de desenvolvimento, APIs, protocolos intermediários, trabalho de interface e até uma ponte de mint já ativa na UTEXO Mint. Essa ponte permite mover USDT entre blockchains populares com taxas descritas como deterministicamente baixas e sem intermediários, graças à integração direta com a Tether como emissora principal.
Além disso, a camada do protocolo RGB foi desenvolvida por Federico Tenga, estrategista de pesquisa e desenvolvimento da Bitfinex. Esse detalhe reforça o envolvimento de nomes conhecidos da infraestrutura ligada ao mercado cripto.
UTEXO quer disputar espaço com a Tron
Viktor Ihnatiuk argumentou que hoje a troca entre USDT e Bitcoin costuma envolver custos elevados. Segundo ele, o usuário pode pagar cerca de 1% de taxa de carteira, mais 1% ou mais para o provedor de swap, além de aproximadamente 1% de slippage. Assim, o custo total pode se aproximar de 3%, além de impor demora na execução.
Na visão do executivo, a combinação de USDT e Bitcoin na Lightning permite, pela primeira vez, que os dois principais ativos coexistam na mesma rede. Portanto, essa estrutura viabilizaria swaps instantâneos e sem slippage relevante. Ele acrescentou que seria possível trocar USDT por Bitcoin de forma descentralizada e fazer o caminho inverso onchain, com preço próximo ao dos mercados à vista da Binance.
Por outro lado, redes como a Tron, amplamente usadas para transferir USDT, criam etapas extras na experiência do usuário. Elas exigem outro tipo de endereço e o pagamento de taxas em um ativo separado, como TRX. Em muitos casos, esse token é comprado apenas para movimentar a stablecoin. Em um mercado de criptomoedas no qual grande parte do volume monetário está concentrada em Bitcoin e Tether, essa exigência tende a representar fricção operacional.
Outro ponto levantado envolve segurança. Embora o USDT permaneça como um ativo centralizado na Tether, a infraestrutura usada para sua movimentação altera o nível de risco operacional. Em caso de hard forks controversos ou falhas relevantes em blockchains mais novas, a rede utilizada entra diretamente na equação. Nesse contexto, o Bitcoin aparece como a base mais conservadora e antiga do setor, oferecendo um padrão de robustez que outras redes não igualam com facilidade.
Origem do RGB e expectativa de lançamento
As origens do RGB remontam ao conceito de single-use seals, proposto por Peter Todd em 2014. Posteriormente, o protocolo foi formalizado em 2016 por Giacomo Zucco e Riccardo Casatta. A sigla RGB, inicialmente derivada de Riccardo Giacomo Bitcoin, depois passou a significar Really Good Bitcoin. A Tether já havia explorado o protocolo anteriormente. Ainda assim, enfrentou atrasos com a equipe anterior de desenvolvimento.
Se o RGB tivesse sido lançado no prazo esperado, por volta de 2019, o mercado de stablecoins e até parte da indústria de finanças descentralizadas poderia ter seguido uma trajetória mais ligada ao modelo UTXO do Bitcoin, em vez do sistema baseado em contas popularizado pelo Ethereum.
Por isso, trazer o USDT de volta ao Bitcoin virou uma motivação central para a UTEXO. Viktor Ihnatiuk resumiu essa visão ao afirmar que, pela primeira vez em oito ou nove anos, o USDT está voltando para casa. Segundo a previsão apresentada, o lançamento do USDT no Bitcoin via RGB deve ocorrer nas próximas semanas, possivelmente ainda em julho, com carteiras como a Tether Wallet e outras anunciando suporte, além de integrações por exchanges ao redor do mundo.
Em suma, a proposta reúne os pontos apresentados pela UTEXO e pela Tether: emissão nativa de USDT no Bitcoin via RGB v0.11.1, uso da Lightning para liquidações privadas e instantâneas, ponte ativa para movimentação entre redes e expectativa de suporte inicial por carteiras e exchanges nas próximas semanas.