Bitcoin mira US$ 70 mil com CPI e gasolina no radar

O Bitcoin superou US$ 60 mil na mesma semana em que o Bureau of Labor Statistics informou que a economia dos Estados Unidos criou apenas 57 mil vagas em junho. Além disso, a taxa de desemprego subiu para 4,2%, enquanto a participação da força de trabalho recuou para 61,5%. Dessa forma, o mercado reforçou a leitura de desaceleração no emprego.

Após os dados, o índice do dólar caiu 0,56%, para 100,83. Ao mesmo tempo, a probabilidade de alta de juros pelo Federal Reserve em setembro recuou para 54%, ante 67%. Nesse contexto, o Bitcoin tenta romper a faixa de US$ 64 mil. No entanto, o movimento agora depende menos do choque geopolítico com o Irã e mais do efeito persistente dos combustíveis sobre a inflação.

Dólar, juros e energia entram no preço do Bitcoin

Stephen Coltman, chefe de macro da 21Shares, observou que a reversão ocorreu na mesma sessão em diferentes classes de ativos, incluindo metais preciosos, dólar e Bitcoin. Segundo ele, o movimento tende a ganhar consistência apenas se o Federal Reserve admitir que a política monetária já está restritiva o suficiente para levar a inflação de volta à meta de 2%, sem nova alta de juros.

Assim, o próximo grande teste será a divulgação do índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, o CPI de junho, marcada para 14 de julho. Esse dado deve indicar se a pressão recente da gasolina foi temporária ou se marcou o início de uma rodada mais longa de repasses inflacionários.

Cadeia macroeconômica do Bitcoin até o CPI de julho
Fluxograma em seis etapas mostra a ligação entre mercado de trabalho fraco, expectativas de juros, combustíveis e a reação do Bitcoin até o CPI de julho.

Autoridades monetárias começaram a tratar o salto do petróleo causado pelo conflito envolvendo o Irã como um fator em dissipação. Ainda assim, o mercado segue avaliando quanto peso o Federal Reserve e o Banco Central Europeu ainda dão a esse episódio ao calibrar suas decisões.

A Reuters citou o economista-chefe do Banco Central Europeu, Philip Lane, ao afirmar que o acordo entre Estados Unidos e Irã ajudou a levar o petróleo de volta para perto da projeção de referência da instituição. Com isso, a queda rápida do barril reduziu a urgência por nova alta de juros na zona do euro. No entanto, integrantes do banco alertaram que o choque de energia ainda não saiu totalmente do sistema.

Petróleo cede, mas gasolina segue pressionada

O Brent era negociado perto de US$ 72,19 por barril, enquanto o WTI girava em torno de US$ 68,81. Ambos ficaram próximos dos níveis anteriores à guerra, após a retomada das exportações pelo Estreito de Ormuz, o corte de preços promovido pela Arábia Saudita e a nova elevação das metas de produção da OPEP+.

Ainda assim, o mundo compensou mais de 1 bilhão de barris de oferta perdida durante o conflito com estoques próprios. Essas reservas, porém, continuam perto de níveis esvaziados. Por isso, a queda do petróleo não se traduziu de forma equivalente na gasolina.

Em 17 de junho, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, manteve os juros entre 3,50% e 3,75% e declarou que a inflação segue bem acima da meta de 2%. Depois disso, a presidente do Federal Reserve de San Francisco, Mary Daly, descreveu a política monetária como apenas “levemente restritiva” e disse, também à Reuters, que o próximo passo ainda não está definido.

Na prática, o mercado tenta entender qual visão vai prevalecer. Se os dados fracos de emprego reduzirem de forma duradoura a chance de aperto monetário, o dólar tende a perder força. Como resultado, ativos escassos e vistos como proteção, como ouro e Bitcoin, costumam ganhar suporte.

O ouro renovou a máxima de duas semanas depois dos dados mais fracos, mas devolveu parte dos ganhos quando o dólar voltou a se firmar. O Bitcoin, por sua vez, mostrou mais resiliência. O ativo voltou a ultrapassar US$ 60 mil e sustentou esse patamar.

Citigroup reduz projeção e CPI vira teste decisivo

O Citigroup reduziu sua projeção de preço para 12 meses do Bitcoin para US$ 82 mil, abaixo dos US$ 112 mil anteriores. Além disso, o banco zerou sua expectativa de entradas líquidas em ETFs, antes estimadas em US$ 10 bilhões. A instituição citou saídas acumuladas de US$ 3,3 bilhões dos ETFs no ano. Em um cenário pessimista, o ativo poderia cair para US$ 53 mil caso a economia esfrie e as retiradas continuem.

Os dados mais recentes da Energy Information Administration mostram refinarias operando a 96,6% da capacidade e produzindo 10 milhões de barris de gasolina por dia. Mesmo assim, os estoques totais de gasolina caíram 2,3 milhões de barris e permanecem 7% abaixo da média sazonal dos últimos cinco anos.

Esse descompasso aparece com clareza na comparação entre os futuros de gasolina RBOB e os futuros do petróleo WTI em um gráfico normalizado de um ano. Enquanto o petróleo devolveu boa parte da alta observada na primavera do hemisfério norte e estava perto de 102,66 na escala normalizada, a gasolina seguia em 139,39, quase 40% acima no acumulado do ano.

Linhas de gasolina e petróleo
Gráfico normalizado da Bloomberg mostra os futuros de gasolina RBOB, em branco, muito acima dos futuros de WTI, em azul, com leituras de 139,39 contra 102,66.

Três cenários para o preço do Bitcoin

O relatório de CPI de maio do Bureau of Labor Statistics reforça esse quadro. Os preços da gasolina subiram 7% no mês e ficaram 40,5% acima do nível de um ano antes. Em outras palavras, o barril caiu nas telas, mas o consumidor ainda paga mais caro nas bombas. Esse fator afeta diretamente a percepção das famílias sobre inflação e, por consequência, a leitura do Federal Reserve.

Outro indicador citado pela Reuters, o Global Supply Chain Pressure Index do Federal Reserve de Nova York, caiu para 1,25 em junho, ante 1,81 em maio. A queda refletiu a redução das disrupções no Oriente Médio. Ainda assim, o índice permaneceu acima do nível observado antes do início da guerra com o Irã.

A divulgação do CPI de junho, às 8h30 no horário do leste dos Estados Unidos em 14 de julho, será o teste mais limpo para saber se a disparada da gasolina em maio marcou um pico. No cenário positivo, a gasolina perde força, a inflação desacelera, o dólar recua mais e dirigentes do Federal Reserve sinalizam que a política já é restritiva o suficiente. Nesse caso, o Bitcoin pode testar US$ 70 mil e até mirar a referência de US$ 82 mil apontada pelo Citigroup.

No cenário base, o CPI viria misto, com petróleo calmo, mas gasolina ainda elevada. Assim, o Federal Reserve manteria discurso cauteloso, enquanto o Bitcoin seguiria acima de US$ 60 mil, porém sem confirmação clara de tendência.

Por outro lado, no cenário negativo, a persistência dos combustíveis manteria o CPI pressionado, elevaria novamente as chances de alta de juros e fortaleceria o dólar e os rendimentos reais. Se isso vier acompanhado de novas saídas dos ETFs, o Bitcoin corre o risco de perder a região de US$ 60 mil e se aproximar do cenário de baixa de US$ 53 mil estimado pelo Citigroup.

Nesse meio tempo, o mercado ainda não resolveu a disputa de interpretação dentro do próprio Federal Reserve. De um lado, há autoridades que tratam a meta de 2% como inegociável. De outro, membros indicam que o aperto monetário já pode estar suficientemente avançado. Portanto, com Brent perto de US$ 72,19, WTI em US$ 68,81, gasolina 40,5% acima em relação ao ano anterior e ETFs acumulando saída de US$ 3,3 bilhões, a inflação de 14 de julho deve seguir no centro da reação do mercado.