SEC pode criar regras de cripto antes do CLARITY Act

A Securities and Exchange Commission, a SEC dos Estados Unidos, pode iniciar ainda em julho a formulação formal de regras para ativos digitais. Ao mesmo tempo, o Senado ainda não decidiu se levará o CLARITY Act ao plenário. Assim, a autarquia e o Congresso passam a atuar em trilhas paralelas na disputa pelo futuro regulatório do mercado de criptomoedas no país.

No início da semana, o presidente da SEC, Paul Atkins, apresentou a agenda regulatória de 2026 da agência. Segundo ele, a SEC busca trazer mais produtos de ativos digitais para o ambiente regulado dos Estados Unidos. Além disso, Atkins afirmou que a agência pretende criar regras mais claras para captação de recursos com criptoativos. A autarquia também quer esclarecer como participantes do mercado podem custodiar e viabilizar a negociação on-chain de valores mobiliários tokenizados.

“Esses esforços visam garantir que o próximo capítulo da liderança financeira seja escrito nos Estados Unidos, e que nossos mercados de capitais continuem liderando o mundo, por sua profundidade, dinamismo e capacidade incomparável de transformar engenhosidade em prosperidade.”

Os registros do sistema RegInfo indicam três metas regulatórias previstas para julho. Elas tratam de ofertas de criptoativos, regras para corretoras e custodiantes sob o regime de broker-dealer, além de mudanças na estrutura de mercado para negociação desses ativos.

Se qualquer proposta surgir neste mês, a SEC deixará a fase de sinalização política. Dessa forma, a agência iniciará um processo formal de elaboração de regras. Enquanto isso, parlamentares ainda discutem o avanço do CLARITY Act. O projeto busca criar uma estrutura federal para o setor de criptomoedas e esclarecer a divisão de supervisão entre a SEC e a Commodity Futures Trading Commission, a CFTC.

Por outro lado, o CLARITY Act perdeu tração à medida que a janela legislativa no Senado ficou mais apertada. Nesse cenário, a SEC ganha espaço para agir primeiro em temas específicos. Entre eles estão emissões de tokens, custódia, plataformas de negociação e valores mobiliários tokenizados.

Infográfico mostra os caminhos regulatórios da SEC em julho para criptoativos, regras de broker-dealer, estrutura de mercado e linha do tempo do CLARITY Act

Agenda da agência mira emissão, custódia e negociação

A primeira frente da SEC envolve a forma como ativos digitais são oferecidos e vendidos ao mercado. Segundo o RegInfo, a Divisão de Finanças Corporativas avalia novas regras para disciplinar essas ofertas. Em outras palavras, a proposta pode incluir isenções e zonas de segurança regulatória. O objetivo é dar mais clareza ao enquadramento jurídico, ampliar a previsibilidade para o mercado, facilitar a formação de capital e proteger investidores.

Na prática, emissores de tokens e projetos em busca de registro, isenção ou rotas de divulgação regulatória ficariam no centro do processo. Além disso, a medida levaria para um canal formal de rulemaking uma das disputas mais antigas do setor. Afinal, por anos, empresas de criptomoedas alegaram que a SEC se apoiou excessivamente em ações de fiscalização, em vez de estabelecer regras claras.

Esse ponto, contudo, também concentra sensibilidade jurídica. No RegInfo, a autoridade legal da proposta sobre criptoativos aparece como “ainda não determinada”. Assim, a agência ainda não identificou explicitamente qual base estatutária sustentará a iniciativa. Ainda assim, isso não impede a apresentação de uma proposta. Porém, o tema pode enfrentar contestação caso a SEC tente construir uma estrutura ampla para ofertas antes de o Congresso definir seus poderes com mais clareza.

Broker-dealers entram no centro da regulação

A segunda frente trata de custódia e conformidade para broker-dealers. Uma entrada separada de julho prevê possíveis alterações nas regras de responsabilidade financeira, proteção ao cliente, manutenção de registros e relatórios aplicáveis a criptoativos. O documento cita as Rules 15c3-1 e 15c3-3, bem como as Rules 17a-3 e 17a-4.

Essas normas podem definir até onde instituições reguladas do mercado de capitais conseguirão avançar em produtos ligados a ativos digitais. Corretoras sujeitas ao regime de valores mobiliários precisam de orientações claras sobre capital, custódia, proteção ao cliente e escrituração. Com isso, poderiam oferecer valores mobiliários tokenizados ou produtos vinculados ao mercado de criptomoedas em plataformas reguladas.

A terceira frente envolve a estrutura de mercado. A SEC avalia mudanças no Exchange Act para disciplinar a negociação de ativos digitais em sistemas alternativos de negociação e em bolsas nacionais de valores mobiliários. Da mesma forma, essa proposta aparece na agenda regulatória de julho.

Em conjunto, as três iniciativas mostram que a SEC não trata o tema como um problema isolado. Pelo contrário, a agência desenha possíveis caminhos regulatórios ao longo de toda a cadeia funcional de um mercado regulado de ativos digitais. Isso inclui emissão, custódia e negociação.

CLARITY Act perde espaço na janela do Senado

A disputa agora gira em torno do tempo. Se a SEC publicar uma dessas propostas no Federal Register antes de o Senado votar o CLARITY Act, emissores, corretoras e plataformas de negociação terão um processo concreto de consulta regulatória para responder. Isso pode ocorrer mesmo sem uma definição legislativa mais ampla sobre a estrutura do mercado.

Como resultado, o eixo do debate pode mudar. Em vez de concentrar toda a pressão no Capitólio, o foco também passaria para o rulemaking da própria SEC. Nesse ambiente, grupos da indústria poderiam defender isenções mais amplas e regras mais viáveis para custódia e negociação.

Ao mesmo tempo, uma proposta ativa da SEC pode alterar o cálculo político em Washington. Parlamentares passariam a ter uma base regulatória inicial para aceitar, restringir ou sobrepor por lei. Além disso, pode crescer a pressão sobre a liderança do Senado caso aumente a percepção de que a agência preenche lacunas que deveriam passar por estatuto.

Julho pode reorganizar o debate regulatório

A publicação de uma proposta, no entanto, não encerraria a questão. As medidas ainda dependeriam de aprovação da comissão, período de comentários públicos e possíveis revisões antes de se tornarem definitivas. Além disso, elas poderiam enfrentar contestações judiciais ou ser remodeladas por uma futura lei de estrutura de mercado aprovada pelo Congresso.

Por isso, a relevância da agenda de julho está menos no que ela pode concluir sozinha e mais no que pode colocar em marcha. O movimento não substitui o CLARITY Act nem resolve integralmente o conjunto de regras para o mercado de criptomoedas nos Estados Unidos. Ainda assim, abre para a SEC a possibilidade de começar a escrever regras do lado dos valores mobiliários antes de o Senado decidir se dará espaço à proposta legislativa mais ampla.

Os próximos sinais virão de duas frentes. Primeiro, se os líderes do Senado encontrarão tempo para o CLARITY Act antes do recesso de 7 de agosto. Depois, qual proposta da SEC sairá primeiro. Até aqui, Paul Atkins já indicou que a agenda de 2026 busca trazer mais produtos para os Estados Unidos, dar clareza à captação com criptoativos e definir padrões para custódia e negociação on-chain de valores mobiliários tokenizados.