Tether levará XAUT a crédito com ouro de US$ 20 bi

A Tether, maior emissora de stablecoins do mundo, ampliou sua presença no sistema financeiro global com uma estratégia que une dólar, ouro físico e crédito colateralizado. Dados citados pela Reuters indicam que a empresa acumula cerca de 154 toneladas métricas de ouro. O volume está distribuído entre as reservas do USDT e o token Tether Gold (XAUT). Aos preços atuais, essa posição vale aproximadamente US$ 20 bilhões.

Além disso, a Tether mantém forte exposição a títulos do Tesouro dos Estados Unidos, estimada em cerca de US$ 141 bilhões de forma direta e indireta. Ainda assim, o avanço do ouro na composição das reservas mostra uma tentativa de diversificação. Se operasse como banco central, a companhia ficaria logo abaixo do grupo das 20 maiores reservas de ouro do mundo.

Esse estoque surgiu inicialmente como proteção contra excesso de exposição ao dólar. Agora, porém, começa a ganhar uso prático. Em 18 de junho, a Ledn informou que passará a aceitar XAUT como garantia elegível em sua plataforma. Os empréstimos lastreados em ouro serão denominados em USDT e também no novo token USAT, com início previsto ainda em 2026.

Ouro ganha peso nas reservas do USDT

Do total de 154 toneladas, cerca de 132 toneladas estavam alocadas nas reservas do USDT até o fim de março de 2026. Dessa forma, o ouro já representava aproximadamente 10% da composição total das reservas da stablecoin. Os Treasuries seguiam como principal ativo, com US$ 117 bilhões. O Bitcoin respondia por outros US$ 7 bilhões.

As cerca de 22 toneladas restantes servem de lastro direto para o XAUT. Cada token representa uma onça troy fina de ouro London Good Delivery, armazenada em cofres na Suíça. Ao mesmo tempo, no fim do primeiro trimestre de 2026, o XAUT respondia por 54% de todo o mercado mais amplo de ouro tokenizado.

Embora o volume seja expressivo, ele ainda fica distante do mercado de ETFs de ouro. O SPDR Gold Shares (GLD) detinha cerca de US$ 133 bilhões em ativos em 11 de julho de 2026. Além disso, o World Gold Council estima que os ETFs de ouro no mundo somem aproximadamente 4.137 toneladas.

XAUT entra na infraestrutura de crédito cripto

A estratégia da Tether não busca competir diretamente com veículos tradicionais como o GLD. Em vez disso, a empresa tenta levar o ouro para a infraestrutura do mercado cripto. A meta é transformar o ativo em base para operações de crédito. Nesse sentido, a parceria com a Ledn marca o primeiro passo concreto dessa tese.

Na prática, o modelo replica uma estrutura clássica de empréstimo com garantia. O usuário deposita XAUT como colateral e recebe um empréstimo denominado em stablecoin. Assim, obtém liquidez sem vender o ativo subjacente. Também mantém exposição ao preço do ouro e recupera o colateral após quitar a dívida.

Segundo a política da Ledn, a garantia dos clientes fica mantida na proporção de 1 para 1. A plataforma afirma que não empresta esses ativos a terceiros nem usa rehypothecation para gerar rendimento adicional. Ademais, em fevereiro de 2026, a S&P Global Ratings atribuiu nota BBB-, grau de investimento, às notas seniores emitidas na primeira securitização lastreada em empréstimos com garantia em Bitcoin da Ledn, no valor de US$ 188 milhões, como a própria Ledn anunciou. A classificação vale para essas notas, e não para a Ledn, a plataforma ou os empréstimos individuais.

O novo produto terá alcance geográfico limitado. Empréstimos com garantia em XAUT não estarão disponíveis para residentes do Canadá nem da União Europeia. Além disso, a Tether não pretende buscar licença sob a MiCA neste momento. O prazo final de transição do regime europeu expirou em 1º de julho de 2026.

XAUT e ETF de ouro têm usos diferentes

ETFs de ouro são produtos líquidos, consolidados e altamente regulados. No entanto, seu uso como garantia segue a lógica tradicional do mercado financeiro. A cota fica em uma conta de corretora e pode entrar em operações de margem por meio de intermediários, dentro do horário bancário.

O XAUT funciona de outra forma. Por estar em blockchain, o ativo pode ser liquidado 24 horas por dia, sete dias por semana. Também pode ser depositado diretamente em uma plataforma de empréstimos de criptomoedas em uma única transação. Dessa maneira, a operação reduz etapas e permanece dentro da mesma infraestrutura digital.

XAUT (Tether Gold)Gold ETF (GLD)
Lastro1 onça troy de ouro alocado por tokenConjunto de barras de ouro alocadas
Liquidação24/7, on-chainT+1, horário de bolsa
Valor de mercado / ativos sob gestãocerca de US$ 2,5 bilhões em julho de 2026cerca de US$ 133 bilhões apenas no GLD
Uso como garantiaPlataformas de empréstimo de criptomoedas como Ledn e AntalphaEmpréstimos com margem em corretoras
RehypothecationNão, segundo a política da LednVaria conforme a corretora
RegulaçãoRegistrado em El Salvador, sem MiCARegistrado na SEC, com supervisão da CFTC
Resgate físicoSim, para clientes verificados, sujeito a tamanho mínimo, taxas e condições de entrega na SuíçaParticipantes autorizados podem resgatar grandes lotes em ouro; investidores de varejo não resgatam diretamente
Concorrente mais próximoPAXG, com cerca de US$ 2,2 bilhõesiShares Gold Trust (IAU), com mais de US$ 50 bilhões

Esse desenho permite que o ouro tokenizado circule no mesmo ecossistema do USDT. Assim, um investidor pode oferecer XAUT como garantia, tomar USDT emprestado e usar essa liquidez em outras operações do mercado cripto. O processo ocorre sem depender de banco ou corretora tradicional.

Riscos de custódia, liquidação e concentração

Apesar do apelo da proposta, a estrutura traz riscos relevantes. Em primeiro lugar, o ouro do XAUT fica sob custódia da TG Commodities, afiliada da Tether. As barras ficam em cofres suíços que seguem o padrão LBMA Good Delivery. A empresa publica atestações trimestrais da BDO Italia para confirmar o saldo das reservas. Ainda assim, essas atestações não equivalem a uma auditoria forense completa.

Em março de 2026, a Tether anunciou a contratação de uma auditoria de uma Big Four. Contudo, o processo ainda não havia sido concluído. A expectativa indicada é de conclusão até abril de 2027.

Outro ponto crítico envolve o resgate. Na prática, o acesso ao metal físico é restrito. O resgate de XAUT em barras de ouro exige verificação pela Tether e leva de um a cinco dias úteis. Em condições normais, a maioria dos investidores tende a vender no mercado secundário. No entanto, em cenários de estresse, a discussão central passa a ser quem tem prioridade real sobre o metal subjacente.

Além disso, o produto ainda carece de detalhes operacionais importantes. A Ledn não divulgou a razão de empréstimo sobre valor do colateral, os LTVs, nem os gatilhos de liquidação. Embora o ouro seja menos volátil que o Bitcoin, seu preço também pode cair de forma relevante. Se o XAUT recuar além do limite estabelecido, a plataforma precisará emitir chamada de margem e, se necessário, liquidar a posição.

Há também risco de concentração no emissor. A Tether controla o trilho de liquidez em dólar, via USDT, e o token lastreado em ouro, o XAUT. Por consequência, eventuais problemas de credibilidade podem afetar os dois lados da operação ao mesmo tempo.

A S&P já criticou a estratégia de reservas da empresa por entender que ouro e Bitcoin oferecem liquidez inferior à dos títulos do Tesouro em cenários de pressão por resgates. Em resposta, o CEO Paolo Ardoino citou reservas excedentes de US$ 8,23 bilhões e lucro de cerca de US$ 15 bilhões em 2025 como colchão contra a volatilidade. Segundo Paolo Ardoino, a meta de manter entre 10% e 15% das reservas em ouro surgiu como proteção com ativos duros, que não podem ser congelados ou sancionados da mesma maneira que posições em dólar sob custódia.

Ao mesmo tempo, a companhia montou e depois encerrou, no início de 2026, uma mesa de negociação física de ouro com ex-traders do HSBC. Esse movimento gerou novas dúvidas sobre a direção da empresa no mercado de metais. Ainda assim, as iniciativas recentes reforçam a centralidade do XAUT na estratégia da Tether. Entre elas estão o investimento na Gold.com, a parceria com a Antalpha para empréstimos e resgates físicos com XAUT, o encerramento do sintético aUSDT e, agora, a integração com a Ledn.

Caso a demanda por empréstimos garantidos por XAUT ganhe escala, a Tether passará a operar no cruzamento de três mercados raramente reunidos na mesma instituição: stablecoins, ouro físico e crédito colateralizado. Hoje, a empresa reúne USDT, XAUT, cerca de 154 toneladas de ouro, US$ 117 bilhões em Treasuries nas reservas do USDT, US$ 7 bilhões em Bitcoin e reservas excedentes de US$ 8,23 bilhões, enquanto prepara o lançamento do novo produto da Ledn ainda em 2026.