Clarity trava no Senado por lucros cripto de Trump

Três senadores democratas dos Estados Unidos ampliaram nesta terça-feira a pressão contra o Digital Asset Market Clarity Act. O projeto, conhecido como Clarity Act, busca criar uma estrutura regulatória para o mercado de criptomoedas no país. Para eles, a proposta não deve avançar sem regras éticas explícitas. A exigência mira possíveis ganhos pessoais do presidente Donald Trump com ativos digitais enquanto o governo participa da definição das normas do setor.

Democratas exigem cláusula ética no projeto

Chris Murphy, de Connecticut, Chris Van Hollen, de Maryland, e Jeff Merkley, de Oregon, afirmaram em coletiva de imprensa que seguem contrários ao texto atual. Além disso, o grupo reforçou a resistência já demonstrada pela senadora Elizabeth Warren. Para esses parlamentares, o projeto precisa separar de forma clara os interesses privados do presidente da supervisão regulatória do setor.

Chris Van Hollen, integrante do Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos, classificou o rascunho da proposta como “uma peça de legislação corrupta que causará muito dano”. Já Chris Murphy afirmou que, sem restrições diretas sobre o envolvimento presidencial na indústria de criptomoedas, o projeto se torna “inútil”. Nesse sentido, o senador questionou como a tramitação avançou sem uma regra específica para dissociar Donald Trump e sua família de seus ativos digitais.

Murphy afirmou que, sem limites claros para impedir o envolvimento da família Trump com ativos digitais, “este projeto é inútil” e pode proteger o que chamou de “corrupção dos Trump”.

A principal controvérsia envolve a ausência de uma redação final para a regra que proibiria o enriquecimento pessoal de autoridades públicas por meio de criptomoedas. Os negociadores esperavam um novo rascunho do projeto para terça-feira. Contudo, eles confirmaram que essa chamada regra ética ainda segue sem definição. Assim, democratas que antes apoiavam o projeto agora condicionam o avanço da proposta a essa exigência.

Ganhos com memecoin elevam pressão política

As divulgações financeiras recentes de Donald Trump indicaram que seus ativos em criptomoedas elevaram seu patrimônio em cerca de US$ 1,4 bilhão em 2025. De acordo com a senadora Kirsten Gillibrand, de Nova York, US$ 636 milhões desse total vieram de uma memecoin associada ao nome de Trump. Esse fluxo teria sido a principal fonte de renda do presidente no ano passado. Por isso, Gillibrand defende uma regra que proíba presidentes em exercício de emitir ativos digitais.

Murphy elevou o tom das críticas e acusou Trump de comandar “o maior esquema de suborno da Casa Branca por meio de tokens de criptomoedas”. O senador também chamou a situação de “o mais massivo esquema de corrupção da história deste país”. Gillibrand, por sua vez, declarou que eventuais reformas no texto precisam “incluir restrições para membros do Congresso, o presidente e seu cônjuge lucrarem com os cargos que ocupam”. Ainda assim, ela indicou que pode apoiar o projeto caso essas mudanças entrem no texto.

Minidicionário: memecoin é um ativo digital inspirado em memes ou humor da internet. Em geral, esse tipo de criptomoeda depende de apelo viral e pode registrar forte oscilação de preço. O envolvimento pessoal de Trump com esse mercado aumentou as preocupações de parlamentares sobre conflitos éticos.

Prazo curto pressiona votação no Senado

Dennis Kelleher, CEO da Better Markets, organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos voltada à defesa de reformas financeiras, afirmou que senadores democratas de centro, como Kirsten Gillibrand, estariam priorizando interesses do setor de criptomoedas no processo legislativo. Segundo ele, o esforço em curso busca regular o setor com “a lei mais fraca possível”. Ademais, analistas apontam que os gastos de empresas de criptomoedas têm peso relevante no atual ciclo eleitoral.

Do lado favorável ao projeto, Brian Armstrong, CEO da Coinbase, declarou durante uma teleconferência de resultados que a aprovação do Clarity Act poderia “destravar muito capital institucional que passaria a fluir para o setor de forma ampla”. Ao mesmo tempo, o calendário legislativo se estreitou. O líder da maioria no Senado, John Thune, planeja levar o texto a voto antes do próximo recesso de verão do Senado, independentemente de as emendas serem incorporadas.

Envolvidos no Clarity ActPrincipal pontoPosição declarada
Chris Murphy, Chris Van Hollen e Jeff MerkleyConflito de interesses e regras éticasContrários ao texto atual
Kirsten GillibrandProibição de emissão de ativos por presidente em exercícioApoio condicionado a emendas
Donald TrumpGanhos financeiros pessoais com criptomoedas sob escrutínioFavorável à aprovação
Coinbase, por meio de Brian ArmstrongEntrada de capital institucionalFavorável à aprovação

Casa Branca, republicanos e democratas seguem sem acordo

Donald Trump também pediu nas redes sociais que o Congresso aprove a legislação e citou o senador Lindsey Graham em sua mensagem. Enquanto isso, Patrick Witt, assessor para criptomoedas da Casa Branca, descreveu o momento como uma “semana crucial” para o projeto. Até agora, porém, não houve acordo capaz de atender simultaneamente Casa Branca, republicanos e democratas.

Nesse contexto, o debate em torno do Clarity Act permanece concentrado na cláusula ética. Chris Murphy, Chris Van Hollen e Jeff Merkley rejeitam o texto atual, enquanto Kirsten Gillibrand condiciona seu apoio a emendas. Ao mesmo tempo, os US$ 1,4 bilhão em ganhos com criptomoedas atribuídos a Donald Trump em 2025 seguem no centro da disputa. Desse total, US$ 636 milhões teriam vindo de uma memecoin ligada ao seu nome.