Trump reúne senadores por impasse ético do Clarity

O presidente Donald Trump deve se reunir na tarde de quinta-feira, na Casa Branca, com um grupo de senadores. A conversa tenta destravar o principal impasse que ainda atrasa o avanço do Clarity nos Estados Unidos. Fontes ouvidas nas negociações indicam que o encontro deve se concentrar no caminho para aprovar o Digital Asset Market Clarity Act.

O ponto mais sensível do projeto está na seção de ética. Esse trecho do Clarity impõe restrições para que altos funcionários do governo mantenham interesses empresariais pessoais no setor de criptomoedas. Os democratas, por sua vez, transformaram essa exigência em condição para apoiar o texto, sobretudo por causa das ligações do próprio Trump com a indústria.

Até agora, os negociadores não fecharam um compromisso. Além disso, o calendário do Senado deixa pouco espaço para prolongar as conversas. A pressão aumentou porque a janela legislativa antes do recesso de verão é curta. Ao mesmo tempo, o debate pode perder força quando os parlamentares voltarem sua atenção para as eleições de meio de mandato de novembro.

Ética domina a reta final do projeto

O senador Bernie Moreno, republicano de Ohio e integrante das negociações, afirmou que a reunião servirá para atualizar o presidente sobre o projeto e sobre o que chamou de seu “caminho para o sucesso”. Segundo o parlamentar, a conversa com Trump não deve ficar restrita ao capítulo de ética. Ela deve abranger o texto como um todo.

“Vamos falar sobre a totalidade do projeto. Obviamente, o presidente tem estado muito envolvido nesse projeto”, disse Moreno. “Foi ele quem realmente impulsionou a inovação que, acredito, vai render frutos.”

O destino do Clarity pode depender diretamente do que Trump está disposto a aceitar. Além disso, pode depender do nível de apoio que dará a um projeto que, na prática, pode limitar seus próprios negócios. O presidente já pressionou o Senado para aprovar a legislação. No entanto, ainda não detalhou quais termos de conflito de interesses aceitaria sancionar.

A discussão ganhou novo peso depois que Trump revelou ter obtido mais de US$ 1 bilhão com seu envolvimento com criptomoedas em 2025. Dessa forma, a informação reforçou críticas de opositores, que defendem regras mais duras para evitar conflitos entre o exercício do cargo público e interesses privados ligados ao setor.

Nesse cenário, o debate alcança não apenas o desenho regulatório do mercado cripto, mas também a credibilidade política do texto. Afinal, os democratas insistem que qualquer estrutura de mercado precisa incluir limites claros para autoridades com exposição financeira ao setor. Em contrapartida, os republicanos tentam preservar o impulso político da proposta sem ampliar demais as restrições.

Senadores avaliam nova versão do Clarity

A Comissão de Bancos do Senado já aprovou o projeto por 15 votos a 9. Na ocasião, os democratas Ruben Gallego e Angela Alsobrooks se juntaram aos republicanos para levar a proposta adiante. Ainda assim, ambos haviam declarado em maio que não apoiariam a aprovação final sem a inclusão de uma cláusula de ética.

Durante a análise na comissão, uma emenda apresentada pelo senador Chris Van Hollen buscou proibir o presidente, o vice-presidente e membros do Congresso de manter vínculos empresariais com o setor de criptomoedas. Contudo, os senadores rejeitaram a proposta por 13 votos a 11.

Na terça-feira, um grupo de senadores democratas realizou uma coletiva para defender oposição ao Clarity caso o texto não rompa o que classificaram como laços “corruptos” de Trump com o setor. A cobertura também indicou que Ruben Gallego, que lidera há meses a negociação sobre ética, não participou desse grupo.

Senado corre contra o recesso

O cronograma para divulgar uma nova versão do projeto segue em aberto. A senadora Cynthia Lummis, republicana de Wyoming e uma das principais arquitetas da proposta, disse que um rascunho revisado poderia circular já na quarta-feira. Entretanto, os senadores ainda avaliavam se a linguagem sobre ética entraria diretamente no texto ou ficaria entre colchetes para definição posterior.

O líder da maioria no Senado, John Thune, afirmou que espera levar o projeto ao plenário antes do fim do período de trabalho, em 7 de agosto. Questionado sobre a possibilidade de colocar a proposta em votação mesmo sem um acordo com os democratas, respondeu que, “em algum momento”, o Senado votará o texto.

Com isso, o Clarity entra em sua fase mais decisiva. A Casa Branca passa a ter papel central no desfecho do projeto justamente quando o prazo político se estreita. Segundo a Galaxy Research, as chances de aprovação estão em 50% a 50% à medida que o tempo avança. Esse cálculo reflete o equilíbrio entre o apoio já conquistado e a resistência concentrada nas exigências éticas.

Trump pressiona, mas limites seguem indefinidos

Na prática, o impasse continua no mesmo eixo que marcou as negociações desde o início. Os democratas querem limites objetivos para interesses pessoais de autoridades no setor de criptomoedas. Por outro lado, o Senado corre para definir uma nova versão do Clarity antes do recesso após a primeira semana de agosto. Enquanto isso, Trump pressiona pela aprovação sem indicar claramente quais restrições aceitaria sancionar.

A reunião na Casa Branca pode definir se o projeto seguirá para votação com uma solução negociada ou se avançará com divisões ainda abertas. Seja como for, o encontro tende a influenciar diretamente o futuro da regulação de ativos digitais nos Estados Unidos nas próximas semanas.