Orange Juice mira sucessão de empresas com Bitcoin
Cerca de 2,9 milhões de empresas nos Estados Unidos pertencem a pessoas com 55 anos ou mais. Esses negócios sustentam 32,1 milhões de trabalhadores e geram US$ 6,5 trilhões em receita anual, segundo pesquisa do Project Equity e da Harvard Business School. Ao mesmo tempo, apenas entre 20% e 30% das empresas colocadas à venda encontram comprador, de acordo com o Exit Planning Institute.
Nesse contexto, a Orange Juice Holdings Inc. quer disputar uma fatia do mercado de sucessão empresarial. A companhia pretende comprar empresas americanas com geração de caixa entre US$ 1 milhão e US$ 10 milhões por ano. Além disso, busca mantê-las de forma permanente, pagar parte do valor aos vendedores com ações da própria holding e direcionar uma parcela dos lucros retidos para a compra de Bitcoin.

Holding mira empresas lucrativas e caixa em Bitcoin
A Orange Juice é uma holding de capital permanente lançada em Connecticut. Jeff Booth, Lyn Alden, Nico Lechuga e Andi Pitt, da ego death capital partners, fundaram a empresa ao lado de Adrian Steckel. Ruben Zweiban conduz a operação do dia a dia. Além disso, o bilionário mexicano Ricardo Salinas participou como investidor âncora.
A companhia levantou US$ 40 milhões com o objetivo de adquirir e manter definitivamente empresas americanas geradoras de caixa. Ao mesmo tempo, ela busca construir uma tesouraria em Bitcoin.
O modelo mais conhecido de tesouraria em Bitcoin ganhou notoriedade em empresas como a Strategy e costuma funcionar nos mercados públicos. Nesse formato, a empresa emite ações para captar recursos, usa o dinheiro para comprar Bitcoin e depois vê seus papéis negociarem com prêmio ou desconto em relação ao valor dos Bitcoins em caixa.
Contudo, a Orange Juice quer adaptar essa lógica ao mercado privado. Em vez de depender apenas de investidores de bolsa, a companhia pretende convencer fundadores em processo de aposentadoria a vender seus negócios. Para isso, oferece uma combinação de pagamento em dinheiro e ações da holding. Dessa forma, o fluxo de caixa operacional das empresas compradas poderia financiar novas aquisições e reforçar a posição em Bitcoin.
Ações privadas mudam o perfil do vendedor
Antes de uma eventual listagem em bolsa, a Orange Juice pretende usar ações privadas como moeda de aquisição. A abertura de capital segue como meta declarada, mas ainda não tem data definida. Assim, se o plano avançar, a ação poderá ganhar liquidez e se tornar mais útil em compras futuras.
Na prática, porém, essa estrutura altera de forma relevante o perfil patrimonial do vendedor. Um dono de empresa de encanamento ou de uma fabricante regional, por exemplo, pode deixar uma posição de controle integral em um negócio construído ao longo de décadas. Em troca, receberia uma fatia minoritária em uma holding administrada por terceiros e exposta à volatilidade do Bitcoin.
Além disso, os materiais da companhia indicam que a futura listagem pública ainda permanece em construção. Portanto, a participação recebida pelo vendedor, neste momento, é uma ação privada sem liquidez imediata de mercado.
Onde a estratégia pode ganhar força
O mecanismo desenhado pela Orange Juice segue uma sequência objetiva. Primeiro, a holding compra empresas geradoras de caixa. Em seguida, paga parte do valor com ações. Depois, retém parte do caixa operacional para financiar novas aquisições e compras de Bitcoin. Por fim, busca uma listagem pública e tenta repetir o ciclo com ações mais líquidas.
Ainda assim, o sistema depende de pontos sensíveis. Se o preço do Bitcoin cair, se as empresas adquiridas entregarem desempenho abaixo do esperado ou se os mercados públicos não atribuírem um prêmio relevante à holding após a listagem, a atratividade das ações oferecidas aos vendedores pode recuar de forma importante.
A Galaxy descreve a lógica padrão das empresas de tesouraria em Bitcoin como um ciclo de prêmio sobre o valor patrimonial líquido. Nesse arranjo, companhias negociadas acima do valor dos Bitcoins que possuem conseguem emitir novas ações com vantagem, comprar mais Bitcoin e sustentar a narrativa que mantém esse prêmio. Ainda assim, a própria Galaxy alertou que o processo se torna perigoso quando esse prêmio desaparece. Nesse caso, emitir ações perto do valor patrimonial deixa de agregar valor e passa a gerar diluição.
A Reuters informou que várias empresas de tesouraria de ativos digitais já enfrentaram esse problema e passaram a negociar abaixo do valor patrimonial líquido conforme os preços dos tokens recuaram. Além disso, a própria Strategy vendeu cerca de US$ 218 milhões em Bitcoin neste ano para financiar dividendos e recompor reservas em dólar.
Dois cenários para a Orange Juice
No caso da Orange Juice, existe um diferencial importante. Ao contrário de muitas companhias focadas apenas em tesouraria, ela pretende contar com empresas operacionais gerando caixa de forma recorrente. Ainda assim, a parte do plano que transforma ações em moeda de aquisição continua dependente do mesmo tipo de valorização de mercado que hoje enfrenta pressão em outras empresas do setor.
Se as empresas compradas pela Orange Juice apresentarem bom desempenho e os mercados públicos atribuírem à holding um prêmio em sua futura listagem, os vendedores poderão aceitar uma parcela maior de pagamento em ações e uma parte menor em dinheiro. Nesse cenário, o ciclo funcionaria como planejado. As ações comprariam empresas, as empresas financiariam novas aquisições e compras de Bitcoin, e a expansão da tesouraria ajudaria a sustentar o valor das ações.
Por outro lado, se o Bitcoin enfraquecer ou se a eventual listagem encontrar um mercado mais cético, os vendedores tenderão a exigir mais dinheiro e menos ações. Como resultado, a engrenagem baseada em ações como moeda de troca perderá força.

Mesmo nesse cenário mais difícil, a Orange Juice ainda poderia continuar comprando empresas, mas a um custo mais alto e com operações integralmente em dinheiro. Em outras palavras, a holding voltaria à dependência que seu modelo tenta evitar desde o início.
No centro da tese está um teste direto de mercado. A estratégia depende de saber se fundadores em fase de aposentadoria aceitarão trocar parte do valor de suas empresas por uma participação privada ligada ao Bitcoin. Os dados apontam um universo de 2,9 milhões de empresas controladas por donos com 55 anos ou mais. Nesse meio tempo, a Orange Juice começa com US$ 40 milhões para buscar negócios que gerem entre US$ 1 milhão e US$ 10 milhões anuais e usar esse fluxo de caixa como base para novas aquisições e compras de Bitcoin.