Bitcoin cai com GENIUS Act, BIP-110 e ações cripto
Regulação e governança pressionam o mercado
Meados de julho de 2026 marcaram um dos períodos mais difíceis para o mercado de criptomoedas. Afinal, o setor enfrentou, ao mesmo tempo, atraso regulatório nos Estados Unidos, fiscalização mais dura na Europa, disputa técnica no Bitcoin e forte queda nas ações ligadas à indústria.
Nos Estados Unidos, os reguladores não cumpriram o prazo legal para concluir as regras de stablecoins previstas no GENIUS Act. Assim, a legislação apresentada no início do ano perdeu força imediata como possível catalisador de confiança para emissores, corretoras e instituições financeiras.
As stablecoins funcionam como trilhos de liquidação para grande parte da atividade do mercado cripto. Portanto, a ausência de normas finais prolonga a incerteza. Além disso, bancos, empresas de pagamento e gestoras tendem a adiar planos de integração desses ativos em operações mais amplas.
De fato, o atraso também reforça críticas antigas. Segundo esse argumento, os reguladores financeiros dos Estados Unidos ainda não têm estrutura suficiente para acompanhar a velocidade da inovação em ativos digitais, mesmo com respaldo legislativo.
Na Europa, a França ampliou a pressão sobre o setor. As autoridades determinaram o bloqueio do acesso à Polymarket, plataforma descentralizada de mercados de previsões. Dessa forma, o caso reforça uma abordagem regulatória mais rígida sobre serviços que transitam entre derivativos financeiros e apostas descentralizadas.
A decisão francesa ganhou peso porque a Polymarket havia crescido em eventos políticos e esportivos. Ainda assim, o bloqueio mostra que plataformas descentralizadas seguem no radar de diferentes jurisdições, sobretudo quando o regulador atua junto aos provedores de internet.
Michael Saylor entra no debate sobre o BIP-110
Ao mesmo tempo, Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, antiga MicroStrategy, criticou publicamente o BIP-110. A proposta defende um fork temporário da rede Bitcoin e, por isso, dividiu a comunidade entre defensores de um ajuste técnico e críticos que veem risco direto à segurança do protocolo.
A fala de Saylor pesa no mercado porque a Strategy mantém uma das maiores tesourarias corporativas de Bitcoin do mundo. Além disso, o executivo se consolidou como um dos defensores públicos mais influentes do ativo como reserva de valor de longo prazo.
Para Saylor, o BIP-110 ameaça a integridade da rede. Em outras palavras, a proposta poderia abalar a confiança na previsibilidade das regras e na política monetária fixa do Bitcoin, dois pilares centrais de sua tese de valor.
Esse debate surgiu em um momento crítico para o preço. O Bitcoin caiu abaixo de US$ 60.000 em meados de julho e acumulou recuo superior a 54% em relação ao pico de outubro. Como resultado, centenas de bilhões de dólares em valor de mercado desapareceram.
O Ether sofreu ainda mais e recuou para cerca de US$ 1.500. Isso representa queda de aproximadamente 69% frente à máxima do ano anterior. Consequentemente, participantes de finanças descentralizadas e do ecossistema Ethereum sentiram forte pressão.
A combinação entre disputa de governança e correção acentuada dos preços deteriora o sentimento do mercado. Por um lado, se o BIP-110 avançar, o setor passará a precificar um novo risco de governança. Por outro, caso os desenvolvedores arquivem a proposta, as divisões internas ainda continuarão expostas.
Ações cripto despencam enquanto FTX libera US$ 900 milhões
A fraqueza no mercado à vista veio acompanhada por perdas ainda maiores nas ações do setor. A Coinbase, negociada sob o ticker COIN, caiu 69% em relação à sua máxima histórica. Já a Circle, listada sob o ticker CRCL, recuou 72% desde o topo.
Esse descolamento chama atenção porque as grandes empresas de tecnologia seguiram sustentadas pelo avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem. Em contrapartida, companhias ligadas ao mercado cripto sofreram com incerteza regulatória, menor volume de negociações e desvalorização dos tokens.
No caso da Coinbase, a sensibilidade é direta, pois a empresa depende de forma relevante das taxas sobre transações. Já a Circle enfrenta pressão dupla, uma vez que sua exposição envolve tanto a regulamentação de stablecoins quanto o enfraquecimento geral da atividade no setor.
Além disso, a correção mostra uma revisão mais ampla das expectativas de crescimento. No ciclo anterior, muitos investidores projetaram adoção institucional acelerada, maior clareza regulatória e integração rápida da infraestrutura de ativos digitais ao sistema financeiro tradicional.
No meio da turbulência, a massa falida da FTX anunciou a quinta rodada de pagamentos a credores, com distribuição de US$ 900 milhões. Embora a liberação represente recuperação relevante para os afetados, ela também reabre a memória de uma das maiores fraudes financeiras da história recente.
Esses recursos ainda podem produzir efeitos indiretos. Parte dos credores pode reinvestir em Bitcoin e outros ativos digitais. No entanto, muitos também podem preferir deixar o segmento e buscar classes menos voláteis.
Instituições europeias seguem avançando
Apesar da deterioração do mercado, algumas instituições europeias mantiveram seus planos. O Commerzbank tornou-se o primeiro banco universal da Alemanha a receber licença de custódia de criptomoedas. Assim, o banco poderá oferecer esse serviço a clientes institucionais e corporativos.
O movimento do Commerzbank sugere que parte da infraestrutura segue em expansão. Ademais, ele indica que reguladores europeus, especialmente sob o arcabouço do Markets in Crypto-Assets, continuam dispostos a licenciar bancos estabelecidos, mesmo enquanto endurecem a fiscalização sobre plataformas menos convencionais.
Ao mesmo tempo, a gestora suíça Pando Asset entrou na disputa pelos ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos. Ainda que o preço do ativo tenha desabado, a decisão pode refletir uma aposta contrária em recuperação futura ou um posicionamento antecipado para o próximo ciclo.
No segmento corporativo, a Securitize informou esperar captar US$ 400 milhões em uma futura abertura de capital. Nesse sentido, a tokenização volta a se destacar como uma das áreas mais resilientes da indústria, pois oferece ganhos de eficiência sem depender diretamente da valorização de tokens especulativos.
Julho de 2026, portanto, reuniu sinais claros de estresse e seleção dentro do setor. O período teve atraso nas regras do GENIUS Act, bloqueio da Polymarket na França, crítica de Michael Saylor ao BIP-110, Bitcoin abaixo de US$ 60.000, Ether perto de US$ 1.500, queda de 69% em Coinbase, recuo de 72% em Circle e nova distribuição de US$ 900 milhões pela FTX.