BIS desafia eficácia de restrições às stablecoins em estudo que contrasta com regras do Banco Central
Um novo estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) reacendeu o debate sobre a eficácia das políticas cambiais aplicadas ao mercado de ativos digitais. Publicada em 21 de julho de 2026, a pesquisa conclui que restrições tradicionais pouco influenciam a entrada de stablecoins em economias emergentes, mesmo quando reduzem significativamente a dolarização por meio de depósitos bancários.
O resultado ganha relevância justamente em um momento em que o Banco Central do Brasil amplia o controle sobre operações com ativos virtuais. Enquanto a autoridade monetária reforça a supervisão sobre intermediários locais, o estudo indica que mecanismos regulatórios desenhados para o sistema financeiro tradicional não conseguem limitar, na mesma intensidade, os fluxos de dólares digitais que circulam por redes descentralizadas.
Estudo aponta limite das restrições sobre stablecoins
O working paper nº 1370 analisou dados de depósitos em moeda estrangeira de mais de 130 economias entre 1990 e 2019. Além disso, os pesquisadores cruzaram essas informações com estimativas de fluxos internacionais de USDT e USDC em 184 países, utilizando dados da Chainalysis referentes ao período de 2017 a 2024.
Os economistas Boris Hofmann, Aaron Mehrotra e Jan Paulick observaram que controles cambiais continuam eficientes para reduzir a dolarização por meio de depósitos bancários. Nos países que exigem autorização para abertura de contas em moeda estrangeira, a participação mediana desses depósitos permanece próxima de 5%. Já nas economias sem esse tipo de restrição, o indicador supera 30%.
Entretanto, o comportamento das stablecoins mostrou uma dinâmica completamente diferente.
Segundo o estudo, as entradas de USDT e USDC permaneceram entre 1% e 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), independentemente da existência de restrições cambiais. Os modelos econométricos utilizados pelos pesquisadores não identificaram qualquer efeito estatisticamente significativo capaz de demonstrar que as proibições reduziram esses fluxos.
Na prática, isso significa que as medidas tradicionais conseguem controlar operações realizadas dentro do sistema bancário, mas apresentam alcance limitado quando os ativos circulam em blockchains públicas, plataformas internacionais ou carteiras autocustodiadas.
Banco Central amplia regras para ativos digitais
Enquanto o BIS apresenta evidências sobre as limitações dos controles tradicionais, o Banco Central brasileiro avança na regulamentação do setor.
A Resolução BCB nº 561 , publicada em abril de 2026, atualizou as regras para operações de câmbio envolvendo ativos virtuais. Entre as mudanças, a norma proibiu o uso de criptomoedas no serviço de pagamento internacional conhecido como eFX. Restringiu sua oferta a instituições autorizadas e ampliou as exigências relacionadas à segregação de recursos dos clientes. E ao envio de informações regulatórias.
As novas regras entram em vigor em 1º de outubro de 2026 e fazem parte da estratégia da autoridade monetária para fortalecer a supervisão do mercado nacional.
No entanto, os resultados apresentados pelo BIS sugerem que medidas voltadas exclusivamente aos intermediários regulados podem produzir efeitos limitados. Quando parte relevante das operações acontece fora desse ambiente supervisionado.
Essa diferença decorre da própria arquitetura das stablecoins. Ao contrário dos depósitos bancários, esses ativos podem circular diretamente entre usuários por meio de redes públicas, sem depender necessariamente de instituições financeiras tradicionais.
Ampliação de fiscalização do mercado brasileiro
Como consequência, as autoridades ampliam a capacidade de fiscalização sobre empresas autorizadas, mas enfrentam dificuldades para acompanhar operações realizadas em plataformas estrangeiras ou carteiras controladas pelos próprios usuários.
Além disso, o estudo destaca que crises econômicas e episódios de instabilidade financeira continuam sendo importantes fatores para estimular a procura por dólares digitais.
Os pesquisadores identificaram que crises bancárias apresentam uma relação particularmente forte com o aumento dos fluxos de stablecoins. Um crescimento de um desvio padrão na frequência desses eventos esteve associado a entradas adicionais equivalentes a aproximadamente 0,8% do PIB, enquanto a média observada na amostra analisada ficou próxima de 1,7%.
Esses dados reforçam a percepção de que a demanda por ativos lastreados em dólar responde menos às restrições regulatórias e mais à busca por proteção financeira em momentos de incerteza.
Três camadas de dolarização desafiam reguladores
O estudo também repercutiu entre especialistas do setor. João Paulo Mayall, cofundador da QR Capital, destacou que os resultados reforçam uma mudança importante na forma como a dolarização acontece atualmente.
Segundo ele, o BIS documenta três camadas desse movimento: governo, empresas e população. Na prática, diferentes agentes passaram a buscar ativos atrelados ao dólar por caminhos distintos.
Mayall ressaltou que o debate não envolve o mérito das medidas adotadas pelos reguladores. Para ele, a principal questão está no alcance dessas ferramentas.
“O que o BIS documentou é que instrumentos desenhados para o sistema bancário têm efeito limitado sobre fluxos que nascem fora dele”, afirmou.
O executivo também destacou que o Banco Central brasileiro está entre os reguladores mais avançados do mundo. Como exemplo, citou o sucesso do Pix. Ainda assim, avaliou que o crescimento das stablecoins cria um novo desafio para qualquer autoridade monetária.
Segundo Mayall, o objetivo deve ser ampliar a supervisão sem incentivar a migração das operações para ambientes que escapem do monitoramento regulatório.
Stablecoins respondem de forma diferente às crises
Outro ponto analisado pelo BIS envolve os fatores que estimulam a procura por dólares digitais.
Os pesquisadores observaram que crises econômicas, instabilidade financeira e perda de confiança no sistema bancário aumentam tanto a dolarização tradicional quanto o uso de stablecoins.
Entretanto, a intensidade desse movimento varia conforme o tipo de ativo.
No caso das stablecoins, as crises bancárias apresentaram uma relação particularmente forte. Um aumento de um desvio padrão na frequência desses eventos esteve associado a entradas adicionais equivalentes a cerca de 0,8% do PIB.
A média observada durante o período analisado ficou próxima de 1,7% do PIB.
Além disso, o estudo concluiu que tanto os depósitos em moeda estrangeira quanto as stablecoins tendem a permanecer elevados mesmo após a melhora das condições econômicas.
Para os autores, esse comportamento dificulta o trabalho dos reguladores. Afinal, controlar a origem da demanda torna-se tão importante quanto supervisionar os intermediários financeiros.
Estudo reforça debate sobre o futuro da regulação
Os resultados apresentados pelo BIS não invalidam a estratégia adotada pelo Banco Central brasileiro. No entanto, indicam que medidas voltadas apenas para instituições reguladas podem não ser suficientes para conter a circulação de stablecoins em redes abertas.
Nesse cenário, a Resolução BCB nº 561 amplia a fiscalização sobre empresas autorizadas e fortalece a rastreabilidade das operações realizadas no mercado formal.
Por outro lado, o estudo mostra que parte relevante dos fluxos continua acontecendo por meio de blockchains públicas, plataformas internacionais e carteiras autocustodiadas.
Assim, o desafio das autoridades deixa de ser apenas restringir operações. Também passa a envolver a criação de mecanismos capazes de integrar esses ativos ao ambiente regulado sem comprometer a inovação.
À medida que o mercado de stablecoins cresce, o debate tende a ganhar ainda mais espaço entre reguladores, empresas e investidores. O estudo do BIS reforça que a evolução desse segmento exigirá soluções compatíveis com uma infraestrutura financeira cada vez mais descentralizada.
*Este artigo é para fins informativos. Não visa aconselhamento de investimento, financeiro, jurídico, tributário ou outro qualquer.
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