Bitcoin atrai US$ 15 mi para defesa quântica

BlackRock, Coinbase e Strategy apoiam uma iniciativa de US$ 15 milhões para preparar o Bitcoin contra futuros ataques ligados à computação quântica. O Bitcoin Security Consortium, apresentado em 23 de julho, conduzirá o esforço. Assim, o grupo pretende financiar desenvolvedores e pesquisadores focados na segurança de longo prazo da rede.

Além das três empresas, o bloco fundador reúne Anchorage Digital, ARK Invest, Block, Blockstream, Fidelity Digital Assets e Galaxy. Dessa forma, o consórcio combina gestoras de ativos, custodiante, exchanges, provedoras de infraestrutura e companhias com operações diretamente ligadas ao Bitcoin.

Risco quântico ganha espaço entre grandes empresas

A primeira prioridade do consórcio será a computação quântica. Afinal, os avanços nessa tecnologia ampliam a atenção sobre sistemas de cripto que, no futuro, podem se tornar vulneráveis. Phong Le, CEO da Strategy, afirmou que a empresa tem incentivo direto para ver o Bitcoin permanecer seguro por gerações.

“Como holders de longo prazo, temos todo o incentivo para ver o Bitcoin permanecer seguro por gerações. Financiar as pessoas que fazem esse trabalho e ajudar a informar a conversa em torno dele é uma forma natural de contribuirmos.”

O movimento ocorre enquanto governos e pesquisadores aceleram preparativos para métodos de cripto resistentes a máquinas mais avançadas. Além disso, estudos recentes, incluindo trabalhos com participação de equipes do Google Quantum AI, reduziram estimativas sobre os recursos que poderiam quebrar, no futuro, o tipo de cripto usado pelo Bitcoin.

Hoje, o Bitcoin usa cripto de curva elíptica para criar assinaturas digitais. Em outras palavras, essas assinaturas provam que o usuário controla a chave privada necessária para gastar moedas. Em computadores convencionais, reverter essa relação segue inviável na prática. No entanto, um computador quântico suficientemente poderoso, executando o algoritmo de Shor, poderia teoricamente derivar uma chave privada a partir da chave pública correspondente.

Por isso, surge uma vulnerabilidade potencial em endereços cujas chaves públicas já apareceram no blockchain. Segundo um painel da Dune Analytics, mais de 7 milhões de BTC aparecem em saídas com chaves públicas expostas. Esse volume equivale a cerca de 34,9% da oferta analisada.

Bitcoin exposto a ameaças da computação quântica
Bitcoin exposto a ameaças da computação quântica

Fonte: Dune Analytics

Esses saldos valiam aproximadamente US$ 460,8 bilhões com base em preços recentes. Ao mesmo tempo, a quantia classificada como exposta aumentou em cerca de 77.275 BTC no mês completo mais recente.

Apesar de a ameaça não ser imediata, ela exige preparação. Afinal, não existe hoje um computador quântico criptograficamente relevante capaz de quebrar as assinaturas do Bitcoin. Ainda assim, o tempo necessário para projetar, revisar e testar uma defesa ajuda a explicar a mobilização antecipada.

Exposição de chaves amplia urgência técnica

Charles Edwards, fundador da Capriole Investments, destacou essa incerteza em publicação no X. Segundo ele, seu “fator de desconto quântico” proprietário para o Bitcoin chegou a 30%. Além disso, Edwards classifica a computação quântica como a maior ameaça técnica de longo prazo para a rede.

A combinação entre alta da oferta exposta e queda nas estimativas de recursos necessários para um eventual ataque explica o novo financiamento. Além disso, qualquer transição para assinaturas resistentes à computação quântica exigirá coordenação entre carteiras, exchanges, mineradores, operadores de nós e usuários.

Consórcio financia pesquisa, mas evita controlar o protocolo

A estrutura do Bitcoin Security Consortium tenta limitar a influência corporativa sobre o desenvolvimento do protocolo. Ao mesmo tempo, essas salvaguardas deixam claro que os membros não decidirão sozinhos a defesa final da rede.

Mike Schmidt, diretor executivo da Brink, organização sem fins lucrativos voltada ao financiamento de desenvolvedores do Bitcoin, coordenará voluntariamente as atividades diárias do grupo. Segundo Schmidt, ele conversou individualmente com cada membro antes de aceitar o papel. Assim, buscou garantir compatibilidade com o modelo descentralizado de desenvolvimento do Bitcoin.

O consórcio adotou duas medidas centrais. Em primeiro lugar, não haverá pooling dos recursos nem seleção coletiva de beneficiários. Cada empresa decidirá separadamente quais desenvolvedores, pesquisadores e organizações receberão financiamento. Em segundo lugar, o grupo não assumirá posição oficial sobre mudanças no protocolo do Bitcoin.

Na prática, isso permite que BlackRock, Coinbase, Strategy e as demais participantes ampliem os recursos para pesquisa quântica sem determinar qual solução técnica a rede deverá seguir. Nesse sentido, a distinção ganha peso à medida que o debate avança da identificação do risco para a escolha de como enfrentá-lo.

Nenhum governo, empresa ou grupo de desenvolvedores pode impor sozinho um novo sistema de assinatura ao Bitcoin. Portanto, qualquer alteração criptográfica relevante precisará conquistar adesão entre desenvolvedores, provedores de carteira, exchanges, mineradores, operadores de nós e usuários.

BIP-361 expõe dilemas sobre migração de assinaturas

A Galaxy já afirmou que o número de desenvolvedores trabalhando especificamente na resiliência quântica do Bitcoin ainda é pequeno diante da escala do problema. Assim, mais dinheiro pode ampliar esse grupo, mas não elimina os dilemas técnicos e de governança envolvidos.

Uma das discussões mais delicadas envolve o destino dos BTC protegidos por assinaturas antigas depois que alternativas resistentes a ataques quânticos estiverem disponíveis. A proposta preliminar BIP-361, coassinada por Jameson Lopp, cofundador da Casa, e outros desenvolvedores, descreve uma migração em fases para longe das assinaturas ECDSA e Schnorr.

De acordo com a proposta, o primeiro passo impediria o envio de novos BTC para saídas consideradas vulneráveis. Em seguida, etapas posteriores endureceriam as regras para o gasto de moedas legadas. Ao mesmo tempo, introduziriam mecanismos de resgate destinados a diferenciar proprietários legítimos de atacantes que derivassem chaves privadas com ajuda de computadores quânticos.

Entre as alternativas debatidas estão provas de conhecimento de informações derivadas da seed original, além de métodos baseados em provas de conhecimento zero e commit-reveal. Contudo, essas abordagens podem não cobrir todos os tipos de saídas de Bitcoin. Os autores da BIP-361 afirmam que formatos mais antigos, como certos pay-to-public-key, não oferecem a mesma vantagem aparente aos proprietários legítimos.

Por fim, o resultado é um trade-off difícil. Manter assinaturas legadas utilizáveis por tempo indeterminado pode expor parte das moedas a roubo no futuro. Por outro lado, restringi-las com agressividade excessiva pode impedir que detentores legítimos movimentem BTC que não tenham migrado a tempo. A BIP-361 segue em estágio de rascunho. Ainda assim, os mais de 7 milhões de BTC com chaves públicas expostas, avaliados em cerca de US$ 460,8 bilhões, ajudam a explicar por que o setor decidiu agir agora.