B3 acelera plano do B3RL e prepara ativos tokenizados em 2027

B3 prepara lançamento da B3RL e acelera planos para tokenizar ativos em 2027

A B3 confirmou que lançará sua stablecoin atrelada ao real entre agosto e setembro deste ano. Batizado de B3RL, o ativo digital fará parte da estratégia da bolsa para aproximar o mercado financeiro tradicional da tecnologia blockchain e abrir espaço para novos produtos.

Além disso, a instituição pretende iniciar a tokenização de ativos financeiros no começo de 2027. A proposta inclui criar uma infraestrutura capaz de oferecer liquidação mais eficiente, ampliar os horários de negociação e integrar bancos, corretoras e investidores em um ambiente regulado.

No mês passado duante o Dia da Tokenização,Rodrigo Nardoni, Vice-Presidente de Tecnologia da B3, destacou que o objetivo era representar todas as ações em um ecossistema blockchain. 

“O que teremos é uma réplica fiel do banco de dados depositário tradicional em uma blockchain, representada na forma de tokens. Não estamos falando, nesta fase inicial, de negociar esses tokens no mercado”, declarou Nardoni.

O projeto também inclui a possível utilização de stablecoins como parte do processo de liquidação integrado ao sistema financeiro tradicional, o que significa que os ativos poderiam ser liquidados na blockchain com pagamentos baseados em stablecoins.

“A ascensão das stablecoins pode abrir espaço para a liquidação de ações usando moedas digitais em modelos mais diretos e atômicos. Não estou dizendo que isso necessariamente acontecerá, mas precisamos estar preparados para essa possibilidade”, destacou Nardoni.

Isso também está relacionado à intenção da exchange de lançar a B3RL, uma stablecoin própria, ainda este ano, lastreada principalmente em dinheiro e títulos do governo, em linha com outras stablecoins semelhantes.

No futuro, essa stablecoin permitiria a liquidação direta de produtos usando a rede blockchain, embora isso ainda seja apenas uma prova de conceito.

Por fim, Nardoni reconheceu a relevância da blockchain e da tokenização como um catalisador inovador para a transformação das estruturas de mercado tradicionais. 

“A tokenização está se consolidando como um dos principais motores da transformação no mercado financeiro”, concluiu.

A possibilidade de usar blockchain para reconciliações entre corretoras também foi considerada para simplificar os processos de verificação de registros e validação de posições.

Aposta na stablecoin para modernizar a liquidação financeira

O cronograma foi confirmado por Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes, Educação e Pessoa Física da B3, durante o painel “O futuro já tem preço: o mercado trilionário de ativos digitais”, realizado na Expert XP 2026.

Segundo o executivo, a B3RL funcionará como uma infraestrutura para liquidação de operações e desenvolvimento de novos serviços financeiros. Em vez de atender apenas um segmento específico, a stablecoin poderá ser utilizada por bancos e corretoras em diferentes aplicações.

“A B3 lança, já agora nos próximos meses, o B3RL para que a gente consiga derivar essas experiências para diferentes tipos de funcionalidades e produtos do mercado financeiro”, afirmou Paiva.

A stablecoin será lastreada em títulos públicos do Tesouro Nacional, modelo já adotado por outras moedas digitais brasileiras. Dessa forma, a B3 pretende oferecer um ativo digital alinhado à infraestrutura regulada do mercado financeiro.

Além disso, a instituição acredita que a nova plataforma facilitará processos que atualmente dependem de diversos intermediários. Entre as possibilidades estão liquidação de operações, oferta de garantias em negociações e automação de procedimentos financeiros.

Paiva destacou ainda que a iniciativa busca oferecer governança e confiança para um mercado que cresce rapidamente. Segundo ele, a participação da B3 ajuda a garantir que os ativos negociados possuam lastro adequado e infraestrutura compatível com as exigências do sistema financeiro.

O executivo também afirmou que a combinação entre stablecoins e blockchain permitirá criar novas experiências para investidores e instituições financeiras, ampliando a eficiência operacional sem abrir mão da segurança regulatória.

Mercado de stablecoins em reais acelera expansão

O lançamento da B3RL ocorre em um momento de forte crescimento das stablecoins vinculadas ao real. Atualmente, o Brasil possui 13 ativos desse tipo, que juntos somam aproximadamente R$ 700 milhões em valor de mercado.

Parte dessas moedas circula em blockchains públicas e atende investidores de varejo. Outras, porém, operam em redes permissionadas e são direcionadas ao mercado institucional.

Os números mostram que esse segmento evolui rapidamente. Um levantamento da Visa em parceria com a plataforma Dune aponta que o volume mensal movimentado pelas stablecoins de real saltou de cerca de US$ 180 milhões no início de 2023 para aproximadamente US$ 1 bilhão em fevereiro deste ano.

Como resultado, os tokens lastreados na moeda brasileira passaram a representar cerca de 10% do mercado global de stablecoins não vinculadas ao dólar.

Para Marcos Viriato, cofundador e CEO da Parfin, a chegada de uma stablecoin integrada à infraestrutura da B3 poderá impulsionar uma nova etapa desse mercado. Segundo ele, esses ativos permitem que dinheiro tokenizado e ativos digitais sejam liquidados simultaneamente por meio do modelo conhecido como Delivery versus Payment (DvP).

Nesse sistema, a transferência do pagamento e do ativo ocorre ao mesmo tempo. Assim, o risco de uma das partes concluir a operação sem receber a contrapartida diminui significativamente.

Além de aumentar a eficiência, esse modelo cria as bases para uma integração mais ampla entre blockchain e mercado financeiro tradicional, preparando o terreno para a próxima etapa da estratégia da B3: a tokenização de ativos financeiros.

Stablecoin pode impulsionar a tokenização no Brasil

A B3 acredita que o B3RL será a base para uma nova geração de produtos financeiros digitais. Além disso, a stablecoin deve simplificar a liquidação de operações com ativos tokenizados dentro de uma infraestrutura regulada.

Segundo Felipe Paiva, a bolsa decidiu acelerar esse projeto porque o mercado precisa unir inovação, segurança e governança. Assim, bancos, corretoras e investidores poderão operar em um ambiente mais integrado.

“A gente se viu quase que na obrigação de participar desse movimento e oferecer a infraestrutura tanto de stablecoin como de tokenização”, afirmou.

Especialistas também enxergam esse lançamento como um marco para o setor. Marcos Viriato, cofundador e CEO da Parfin, explicou que a falta de uma stablecoin em reais ainda limita parte das operações com ativos tokenizados.

Segundo ele, o B3RL permitirá liquidações no modelo Delivery versus Payment (DvP). Nesse formato, o pagamento e a transferência do ativo acontecem ao mesmo tempo. Como resultado, compradores e vendedores reduzem riscos durante a negociação.

Além disso, Viriato acredita que stablecoins e blockchain acelerarão a expansão desse mercado nos próximos anos.

“Com o surgimento das stablecoins, esse mercado de ativos tokenizados vai crescer muito”, destacou.

Mercado financeiro avança para negociações contínuas

A tokenização também poderá ampliar o horário de negociação dos ativos financeiros. Atualmente, a bolsa funciona apenas durante o pregão. No entanto, a nova infraestrutura abre caminho para operações em horários mais flexíveis.

Paiva afirmou que os investidores demonstram interesse crescente por produtos disponíveis além do expediente tradicional. Como exemplo, ele citou o Tesouro Reserva, desenvolvido em parceria com o Tesouro Nacional.

Segundo o executivo, o produto captou aproximadamente R$ 5 bilhões nos primeiros meses. Além disso, cerca de 30% das operações ocorreram fora do horário comercial. Portanto, esse comportamento reforça a demanda por soluções mais flexíveis.

A expectativa é ampliar esse modelo para outros produtos financeiros conforme a tokenização avance.

Viriato explicou que praticamente qualquer ativo poderá migrar para blockchain. Entre eles estão ações, debêntures, CRIs, CRAs, LCIs, LCAs, fundos de investimento e ETFs.

Além disso, a tokenização permitirá fracionar aplicações que hoje exigem aportes elevados. Dessa forma, mais investidores poderão acessar esses produtos.

O executivo também lembrou que projetos desenvolvidos durante o piloto do Drex comprovaram a maturidade dessa tecnologia no Brasil.

“A tecnologia já existe, já está validada e já tem escala para ser usada”, afirmou.

Por fim, a B3 avalia que a tokenização deixará de representar uma categoria separada nos próximos anos. Em vez disso, bancos e corretoras deverão incorporar essa infraestrutura naturalmente às suas plataformas. Assim, investidores utilizarão ativos digitais da mesma forma que acessam outros produtos financeiros, enquanto o mercado avança para um ambiente mais eficiente, integrado e disponível praticamente a qualquer momento.