Apple pressiona Trump por chips chineses da CXMT e YMTC

A Apple intensificou a pressão sobre o governo dos Estados Unidos para usar chips de memória fabricados na China em aparelhos vendidos fora do mercado americano. Assim, a companhia entrou em choque com a Micron Technology, hoje a única grande fabricante norte-americana de memória, e levou a disputa à agenda política do presidente Donald Trump.

Tim Cook, CEO da Apple, reuniu-se com integrantes graduados da administração Trump. Entre eles estavam o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. O objetivo foi defender a liberação do uso de componentes da ChangXin Memory Technologies, conhecida como CXMT, e da Yangtze Memory Technologies, ou YMTC.

Fonte: Wall St Engine no X

Escassez global amplia disputa por memória

A Apple sustenta que a autorização ajudaria a reduzir a escassez global de memória. Além disso, a empresa afirma que a medida poderia conter a alta de preços para consumidores americanos. A companhia argumenta que usaria os chips chineses apenas em dispositivos destinados a outros mercados. Dessa forma, o impacto direto nos Estados Unidos seria limitado.

Contudo, a Micron faz forte pressão em Washington para barrar a medida. Sanjay Mehrotra, CEO da companhia, alertou autoridades de que compras de memória chinesa por empresas americanas podem enfraquecer a indústria nacional de semicondutores. O argumento vale mesmo para produtos destinados ao exterior.

Além disso, a Micron compara esse risco ao que ocorreu nos setores de aço e manufatura nos Estados Unidos. Segundo a empresa, a concorrência chinesa contribuiu, ao longo do tempo, para a perda de capacidade produtiva interna.

O embate ganhou mais peso porque o mercado de memória enfrenta forte pressão de oferta. De acordo com a TechInsights, os preços desses chips quadruplicaram no último ano. Como resultado, a disputa deixou de ser apenas corporativa e passou a envolver indústria, comércio exterior e segurança nacional.

Demanda por inteligência artificial elevou preços

O principal motor da disparada foi a demanda de centros de dados voltados para inteligência artificial. Essas empresas compram grandes volumes de memória avançada e, ainda mais, aceitam pagar valores mais altos. Assim, a oferta disponível encolheu para segmentos como smartphones, dispositivos médicos e automóveis.

Nesse contexto, a Apple perdeu parte do poder de barganha que tradicionalmente mantinha nas negociações com fornecedores. A fabricante do iPhone acusa a Micron de se beneficiar da escassez. Como argumento, a Apple afirma que as margens brutas da companhia superariam 80%, o que, em sua avaliação, indicaria prática de preços excessivos.

A Apple também sustenta que a Micron direciona a expansão de capacidade para clientes ligados à inteligência artificial, em vez de priorizar eletrônicos de consumo. Por outro lado, a Micron rejeita essa interpretação. A empresa afirma que a alta de preços não decorre apenas do custo da memória. Além disso, diz que mantém o compromisso de investir US$ 250 bilhões em manufatura nos Estados Unidos para ampliar a capacidade doméstica.

Segurança nacional complica decisão da Casa Branca

Além da disputa comercial, o caso envolve um componente sensível de segurança nacional. O Pentágono classificou as duas empresas chinesas no centro do impasse como companhias militares chinesas. No caso da YMTC, os Estados Unidos também incluíram a empresa na Entity List, lista de restrições comerciais.

Nesta semana, o assessor de tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, disse a parlamentares que empresas americanas não deveriam fazer negócios com companhias que estejam na Entity List. Nesse sentido, a pressão da Apple ficou politicamente mais delicada, ainda que a proposta limite o uso dos chips ao mercado internacional.

O histórico recente também pesa. Em 2022, a Apple tentou trabalhar com a YMTC, mas recuou após pressão política. Na ocasião, o então senador Marco Rubio advertiu que a empresa estava “brincando com fogo”. Agora, como secretário de Estado, Rubio continua envolvido nas discussões atuais.

Trump ainda não define posição pública

Donald Trump elogiou tanto a Apple quanto a Micron por investirem nos Estados Unidos. No entanto, ele ainda não assumiu posição pública sobre o impasse. A decisão ficou mais complexa porque o governo também conduz negociações comerciais com a China. Portanto, o caso passou a ter uma dimensão diplomática.

A Apple defende que o uso de chips da CXMT e da YMTC em aparelhos vendidos fora dos EUA ajudaria a reduzir a escassez global e aliviar a pressão de preços. Em contrapartida, a Micron afirma que essa abertura pode prejudicar a produção doméstica de semicondutores justamente em um momento de mercado apertado.

A Casa Branca terá de equilibrar interesses industriais, custos para grandes fabricantes e preocupações de segurança nacional. Afinal, os preços da memória subiram quatro vezes em um ano, enquanto as fornecedoras chinesas envolvidas enfrentam restrições e alertas relevantes em Washington.