Mineração de Bitcoin fica mais limpa, diz Cambridge
A mineração de Bitcoin consumiu mais eletricidade em 2025, mas sua pegada de carbono cresceu em ritmo menor, segundo dados preliminares do Cambridge Centre for Alternative Finance. O principal motivo foi a mudança na matriz energética do setor, com avanço das fontes de baixo carbono para 59,4% do total e a energia hidrelétrica assumindo a liderança, à frente do gás natural. Ainda assim, o aumento da atividade da rede continuou pressionando as emissões absolutas para cima.
Os números foram apresentados por Alexander Neumueller durante a primeira edição do Energy Investors Forum, em Dallas, antes da divulgação do segundo Digital Mining Industry Report, do centro de pesquisa de Cambridge. O estudo também avaliou se empresas de mineração já estão migrando parte de sua estrutura para inteligência artificial e computação de alto desempenho, um movimento que, por enquanto, segue em estágio inicial.
Consumo de energia sobe, mas emissões avançam menos
De acordo com a pesquisa preliminar, o consumo anual de eletricidade do Bitcoin chegou a cerca de 190 terawatt-hora em dezembro de 2025. Antes, em junho de 2024, Cambridge havia estimado 138 terawatt-hora. Portanto, houve uma alta expressiva no intervalo analisado.
As emissões de dióxido de carbono equivalente também subiram, mas em velocidade menor. A estimativa passou de aproximadamente 40 milhões de toneladas métricas para 48 milhões de toneladas no mesmo período. Em termos proporcionais, as emissões cresceram perto de 20%, enquanto a demanda por eletricidade avançou cerca de 38%.
Segundo Cambridge, boa parte dessa diferença veio da composição da energia usada na mineração. As fontes de baixo carbono responderam por 59,4% do consumo total reportado, acima dos 52,4% observados anteriormente. Além disso, a hidrelétrica se tornou a maior fonte individual de energia do setor, superando o gás natural.
Esse resultado traz uma leitura mais equilibrada sobre o impacto ambiental do Bitcoin. Por um lado, o aumento da demanda elétrica continua sendo um ponto de atenção. Por outro, cada unidade de eletricidade consumida hoje carrega menor intensidade de carbono do que antes, o que ajuda a desacelerar o avanço das emissões.
Mudança na matriz energética ajuda a explicar o resultado
Cambridge baseou suas conclusões principalmente em respostas de mineradoras que representam pouco mais da metade do hashrate global do Bitcoin. Neumueller afirmou que a participação melhorou em relação ao relatório anterior. Mesmo assim, dados de pesquisa podem favorecer empresas e regiões mais dispostas a compartilhar detalhes operacionais.
No estudo anterior, Cambridge estimou consumo anual de 138 terawatt-hora e emissões de 39,8 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono equivalente. Naquele levantamento, fontes sustentáveis, incluindo renováveis e energia nuclear, forneciam 52,4% da eletricidade.
Entre os fatores destacados no novo recorte, estão o aumento da demanda elétrica para cerca de 190 terawatt-hora com a entrada de mais máquinas na rede, a elevação da fatia de energia de baixo carbono para 59,4% e a troca de posição entre hidrelétrica e gás natural como principal fonte de energia da mineração. Além disso, a Etiópia ganhou destaque como polo de mineração após ampliar sua geração hidrelétrica.
Segundo o levantamento, a expansão da atividade na rede Bitcoin parece ter superado os ganhos de eficiência do hardware de mineração. Máquinas mais modernas conseguem realizar mais cálculos com menos eletricidade. Ainda assim, a concorrência crescente entre mineradores elevou o consumo total de energia.
A geografia também influenciou a nova composição energética reportada. A cobertura mais ampla da pesquisa passou a incluir mais operações em países com forte presença hidrelétrica, como a Etiópia. Nesse contexto, a nova capacidade elétrica ligada à Grand Ethiopian Renaissance Dam ajudou a atrair empresas em busca de energia mais barata. Dessa forma, mudanças na participação das empresas pesquisadas podem alterar as estimativas sobre as fontes globais de energia usadas pelo Bitcoin.
Interesse em IA cresce, mas adoção ainda é limitada
Cambridge também investigou se mineradoras estão redirecionando operações para inteligência artificial e computação de alto desempenho. Apenas cerca de uma em cada dez empresas ouvidas já havia destinado parte de sua capacidade elétrica para IA ou serviços de computação acelerada. Entretanto, o interesse declarado pelo segmento é bem maior do que a adoção atual.
Mais de 40% das mineradoras que ainda não entraram nesse mercado disseram avaliar ativamente atuar com IA ou computação de alto desempenho. Em contrapartida, cerca de 10% informaram que não têm planos de seguir nenhum desses caminhos. Neumueller ponderou que interesse, por si só, não deve ser tratado como compromisso firme.
Muitos investidores passaram a avaliar empresas de mineração não apenas por sua produção de Bitcoin, mas também pelo acesso a terrenos e eletricidade. Algumas companhias listadas em bolsa já anunciaram acordos de hospedagem para IA ou planos de conversão de estrutura. Ainda assim, a pesquisa de Cambridge indica que esses projetos seguem limitados no conjunto mais amplo da indústria.
As mineradoras citaram maior estabilidade financeira e expansão das fontes de receita como razões centrais para considerar diversificação. Por outro lado, o alto custo de capital apareceu como a principal barreira. Muitas operadoras também afirmaram preferir manter o foco principal na mineração de Bitcoin.
Converter uma instalação de mineração em um centro de dados de IA exige investimentos relevantes.
Essas estruturas precisam de sistemas avançados de resfriamento, redes mais robustas, infraestrutura confiável e padrões de engenharia mais elevados. Assim, ter acesso a terreno e eletricidade nem sempre basta.
Apesar dos obstáculos, quase nove em cada dez participantes da pesquisa esperam que a IA e a computação de alto desempenho se tornem mais comuns no setor de mineração nos próximos anos. Além disso, muitos também enxergam oportunidades em geração de energia e serviços para a rede elétrica, refletindo o valor crescente do acesso confiável à eletricidade.
Em resumo, os dados preliminares de Cambridge indicam que a mineração de Bitcoin ficou relativamente mais limpa em sua matriz energética, com liderança da hidrelétrica e maior participação de fontes de baixo carbono. Ao mesmo tempo, o avanço da atividade da rede mantém o consumo total de energia e as emissões em trajetória de alta, enquanto a diversificação para IA ainda aparece mais como intenção do que como realidade disseminada.