Bitcoin segura US$ 65 mil antes do Fed e opções
BTC resiste à pressão das ações de tecnologia
O Bitcoin operou perto de US$ 65.000 na segunda-feira, 27 de julho de 2026. O movimento ocorreu mesmo após a queda de 4,8% da Nvidia pressionar ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial. Ainda assim, a resistência do ativo chamou atenção, já que o mercado vinha observando forte correlação entre criptomoedas e ativos de risco nos últimos meses.
Dados acompanhados pela CoinDesk indicavam alta de cerca de 4% do BTC desde a sexta-feira. Além disso, o Ether atingiu seu preço mais forte em quase dois meses. Em contrapartida, o Nasdaq fechou praticamente estável. Os ganhos de Apple, Microsoft e Google compensaram a fraqueza em semicondutores e em empresas mais expostas ao tema de inteligência artificial.
Esse movimento reacendeu uma discussão central no mercado cripto. Afinal, o Bitcoin ainda segue apenas o humor do setor de tecnologia ou já mostra uma dinâmica própria de oferta e demanda? A princípio, a sessão de segunda-feira reforçou a tese de desacoplamento. No entanto, um único pregão ainda não define tendência.
Joel Kruger, estrategista de mercado da LMAX Group, avaliou o quadro de forma construtiva. Para ele, a recente resiliência das criptomoedas durante períodos de volatilidade nos mercados tradicionais representa um sinal encorajador. Além disso, esse comportamento sugere um desacoplamento marginal em relação aos ativos convencionais de risco.
Agenda macro coloca níveis técnicos em foco
Esse teste de força, porém, enfrentará uma prova imediata. Na quarta-feira, o Federal Reserve divulgará sua decisão de política monetária. Em seguida, na quinta-feira, sairão o núcleo do PCE, principal indicador de inflação observado pelo Fed, os dados do Produto Interno Bruto do segundo trimestre e os resultados de Microsoft, Meta, Apple e Amazon.
Por fim, a sexta-feira terá o vencimento de opções de Bitcoin e Ether, estimado entre US$ 13 bilhões e US$ 14 bilhões. Dessa forma, a combinação entre juros, inflação, atividade econômica, balanços corporativos e derivativos pode encerrar rapidamente a calmaria do início da semana.
Na análise gráfica, Joel Kruger apontou US$ 67.300 como a faixa que o Bitcoin precisa superar para romper a consolidação observada desde junho. Segundo o estrategista, um avanço sustentado acima desse nível poderia sinalizar a próxima etapa de alta. Ainda assim, o mercado segue preso em um intervalo há várias semanas.
Ao mesmo tempo, o Ether enfrenta sua própria barreira em US$ 2.000. Mesmo assim, a segunda maior criptomoeda do mercado vem superando o desempenho do Bitcoin nas sessões mais recentes. Para parte dos analistas, esse comportamento funciona como indicador antecedente positivo para o restante do mercado de criptomoedas. A relação ETH-BTC, que mede o preço do Ether em Bitcoin, avançou ao maior nível em três meses na segunda-feira.
Tom Lee, presidente da BitMine e cofundador da Fundstrat, destacou essa força relativa do Ether como um sinal otimista. Em outras palavras, quando o capital começa a migrar do Bitcoin para ativos de beta mais alto, como o Ether, o movimento tende a refletir maior apetite por risco entre participantes nativos do setor.
Nansen vê recuperação sem convicção compradora
Nem todos, porém, compartilham dessa leitura. Nicolai Sondergaard, analista sênior de pesquisa da Nansen, adotou um tom mais cauteloso. Para ele, a recuperação recente não mostra a convicção compradora normalmente presente antes de ralis sustentáveis.
“O mercado está segurando a faixa sem compradores fortes, não construindo um movimento rumo a um rompimento”, afirmou Nicolai Sondergaard.
O cenário-base da Nansen continua sendo uma correção para a faixa entre US$ 52.000 e US$ 58.000, caso as condições de mercado não melhorem. Se isso ocorrer, o Bitcoin voltará para perto das mínimas de junho. Parte dos traders tratou essa região como possível fundo de ciclo.
Os dados observados pela Nansen ajudam a explicar essa cautela. Embora quase 9.000 BTC tenham saído das corretoras na última semana, o interesse em aberto nos futuros de Bitcoin recuou mesmo com a leve alta dos preços. Assim, essa combinação sugere redução de exposição, e não abertura de novas posições otimistas.
Além disso, dados de livro de ofertas reforçam a leitura defensiva. Sondergaard observou pressão líquida de venda persistente. Isso indica vantagem dos vendedores no equilíbrio entre ordens de compra e venda. Em um cenário claramente altista, compradores deveriam absorver oferta em vários níveis e empurrar os preços com mais convicção.
Fluxo de stablecoins e ETFs pode mudar o viés
Para adotar uma visão mais positiva, a Nansen monitora três fatores. Em primeiro lugar, um aumento mais forte na entrada de stablecoins nas corretoras, o que indicaria capital novo chegando ao ecossistema. No segundo lugar, a continuidade de compras de ETFs spot de Bitcoin, sinalizando demanda estrutural de investidores institucionais e de varejo. Em terceiro lugar, a interrupção das vendas com prejuízo por parte de detentores de longo prazo.
Até que esses sinais apareçam, Sondergaard trata o movimento como um repique de posicionamento. Portanto, ele não vê, por ora, o início de uma tendência de alta mais ampla. Nesse sentido, a recente recuperação pode estar recebendo apoio mais da ausência de pressão vendedora do que de compras agressivas.
A semana deve validar uma das duas leituras. De um lado, Joel Kruger vê espaço para rompimento acima de US$ 67.300, enquanto Tom Lee destaca a força do Ether como sinal positivo. De outro, Nicolai Sondergaard chama atenção para a queda do interesse em aberto, a falta de convicção compradora e a pressão líquida vendedora. Como resultado, a decisão do Fed, o núcleo do PCE, o PIB, os balanços das Big Techs e o vencimento bilionário de opções devem testar diretamente o suporte do Bitcoin em US$ 65 mil.