Mercados sofrem pressão de Fed, guerra e IA

Os mercados financeiros globais seguem pressionados em 2026. Grandes investidores mantêm cautela e mostram pouca disposição para ampliar a exposição ao risco. Nesse cenário, três fatores concentram as atenções: a decisão de política monetária da Reserva Federal dos Estados Unidos, a guerra no Oriente Médio e as dúvidas sobre valorização e endividamento ligados à inteligência artificial.

Nesta terça-feira e quarta-feira, o Comitê Federal de Mercado Aberto da Reserva Federal, o FOMC, se reúne para definir o próximo passo dos juros. A expectativa predominante indica manutenção da faixa entre 3,50% e 3,75%. Ainda assim, o mercado considera a possibilidade de uma nova alta. Portanto, o ambiente segue pouco favorável para ativos de risco, já que a falta de uma postura monetária mais flexível mantém parte dos investidores à margem.

Esse quadro também afeta o mercado de criptomoedas. Dados da CoinMarketCap indicam queda de 1,8% na capitalização total do setor nas últimas 24 horas, para US$ 2,17 trilhões. Além disso, a retração veio após o Bitcoin perder o nível de US$ 64.000 por moeda, movimento que ampliou a pressão sobre os principais ativos digitais.

Fed e conflito no Oriente Médio ampliam cautela

Além do componente macroeconômico, o cenário geopolítico ganhou mais peso. A guerra no Oriente Médio adiciona instabilidade aos mercados, com possíveis efeitos sobre rotas comerciais estratégicas e sobre a inflação global. Nesse sentido, o confronto militar entre Estados Unidos e Irã afeta diretamente a percepção de risco em regiões essenciais para energia e mercadorias.

Entre os pontos mais sensíveis estão o Estreito de Ormuz, corredor vital para o transporte de petróleo, e o Canal de Suez. A rota também pode sofrer impactos caso aumentem os riscos de navegação no estreito de Bab el-Mandeb. Ademais, se o Iêmen passar a atuar de forma direta no conflito, cresce o temor de uma interrupção relevante no comércio marítimo, em escala comparável à observada durante a pandemia.

Como consequência, uma reação imediata seria uma disparada no preço do petróleo, com potencial para levar a inflação a níveis alarmantes. Como o petróleo ainda ocupa papel central na economia mundial, um choque prolongado de oferta ou de logística poderia afetar crescimento, custos e apetite por risco. Dessa forma, a guerra na região se consolida como um dos principais vetores de pressão sobre os mercados financeiros.

Nos Estados Unidos, o conflito também ganhou contornos políticos. A guerra contra o Irã aparece como amplamente impopular no país, sobretudo entre setores que veem os Estados Unidos como agressor em um confronto evitável. Além disso, a aliança com Israel não melhora a percepção sobre a atual administração entre muitos eleitores.

Risco político nos Estados Unidos entra no radar

Esse desgaste político pode afetar o governo de Donald Trump nas eleições de meio de mandato, marcadas para os próximos meses. Eventualmente, uma perda da maioria republicana teria potencial para prejudicar projetos de lei e outras iniciativas que concentram expectativas relevantes do mercado. No momento, norte-americanos e iranianos mantêm apenas uma interrupção temporária e frágil das hostilidades.

Ao mesmo tempo, investidores acompanham esse quadro com forte sensibilidade. Afinal, qualquer agravamento militar ou institucional pode elevar a volatilidade em ações, commodities, moedas e criptoativos. Por isso, o humor global permanece defensivo, enquanto gestores reduzem apostas mais agressivas.

IA e tecnologia reforçam aversão ao risco

O terceiro fator que pesa sobre os mercados vem da preocupação com os gastos das grandes empresas de tecnologia em inteligência artificial. Em princípio, o foco do mercado está menos na capacidade dessas companhias de honrar compromissos financeiros. A dúvida principal envolve o retorno das apostas bilionárias feitas no setor.

O custo para proteger essa dívida continua subindo, o que sinaliza desconfiança sobre a capacidade dessas aplicações gerarem retorno em prazo razoável. Em outras palavras, investidores e credores ainda reconhecem a força financeira das gigantes de tecnologia. Contudo, demonstram menos convicção sobre a eficiência econômica do atual ciclo de investimentos em IA.

Esse sentimento já aparece na correção do setor. O Financial Times registrou que Venu Krishna, do Barclays, afirmou que as preocupações com incerteza de financiamento, aumento do capex, ou gasto de capital, e pressão sobre o fluxo de caixa livre das grandes empresas de tecnologia passaram ao centro das atenções. Como resultado, o mercado registrou uma rodada de vendas em ações de fabricantes de chips, memórias e outras companhias ligadas à cadeia da inteligência artificial.

O Nasdaq 100 segue em trajetória de baixa e, por consequência, esse movimento contamina outros mercados globais. Na Coreia do Sul, o índice Kospi caiu 10% nesta terça-feira, refletindo liquidações expressivas de ações de Samsung Electronics e SK Hynix. Assim, o enfraquecimento do setor tecnológico reforça o tom defensivo dos investidores e amplia a pressão já exercida pelos fatores monetários e geopolíticos.

Bitcoin perde força em ambiente de menor liquidez

Em suma, os mercados reagem a uma combinação de juros elevados nos Estados Unidos, risco geopolítico no Oriente Médio e venda de ações de tecnologia ligadas à IA. Nesse meio tempo, a capitalização do mercado de criptomoedas recuou 1,8%, para US$ 2,17 trilhões, enquanto o Bitcoin perdeu o patamar de US$ 64.000. O cenário atual, portanto, reflete menor liquidez, maior aversão ao risco e uma postura mais conservadora dos investidores globais.