Cardano apoia royalties por dados privados na Europa

A Cardano Foundation anunciou, em 28 de julho, uma parceria com a cooperativa Reef Data eG, com apoio de Hamburger Volksbank, ARIC, VALIO e Disruptive Elements. A proposta busca reunir dados pessoais fornecidos com consentimento, licenciá-los a empresas e devolver parte da receita aos participantes. Para isso, o projeto usará royalties registrados com apoio da infraestrutura da Cardano.

Na prática, a Reef pretende agrupar informações de seus membros e comercializar esse conjunto para compradores corporativos. Assim, o sistema Reeve atua como camada contábil para registrar fluxos de pagamento, distribuição de royalties e carimbos de tempo. Os dados pessoais, porém, não entram na blockchain.

Projeto mira mercado regulado na União Europeia

O projeto se encaixa em um mercado que já avança sob regras claras na União Europeia. O Joint Research Centre da Comissão Europeia identifica seis modelos de intermediários de dados, incluindo cooperativas, data trusts, data unions, marketplaces e pools de compartilhamento.

Além disso, o Data Governance Act reforçou a base regulatória do setor. A norma exige que provedores reconhecidos se registrem junto às autoridades nacionais e apareçam em uma lista pública. Essa relação recebeu atualização em 28 de julho e mostra 36 fornecedores em 10 países. Na Alemanha, o único nome presente é a Law & Innovation Technology GmbH, que atua como Consenter.

Até o momento, a Reef não esclareceu publicamente se pretende buscar seu próprio registro. Ainda assim, o desenho do projeto mistura estruturas já conhecidas. Ele se aproxima das cooperativas de dados por operar com governança de membros. Ao mesmo tempo, adiciona uma camada comercial mais explícita, com royalties auditáveis registrados via Cardano.

Modelo combina cooperativa, marketplace e data union

O arranjo também lembra as chamadas data unions, que remuneram usuários pelo compartilhamento autorizado de dados. No entanto, a Reef descreve esses pagamentos como royalties cooperativos. Essa distinção importa porque afeta a forma como o mercado pode interpretar o papel da plataforma.

A novidade, porém, não surge isolada. Na Suíça, a MIDATA Cooperative permite que membros armazenem prontuários de saúde e concedam acesso a pesquisadores sob governança coletiva, como seu estatuto descreve. Nesse caso, o foco recai mais sobre pesquisa e participação do que sobre remuneração individual.

Além disso, a Swash paga usuários por atividade de navegação autorizada quando empresas compram dados, análises ou publicidade derivados, segundo sua política de privacidade. Já o projeto DataVaults, financiado pela União Europeia e formado por 17 parceiros em nove países, criou hubs de dados pessoais que permitem aos contribuidores controlar o compartilhamento e receber compensação direta, segundo registro no CORDIS.

Na Espanha, a SalusCoop propõe que cidadãos doem dados de saúde para pesquisa sob condições específicas, priorizando benefício coletivo, como a iniciativa da Ideas for Change detalha. A Reef, por outro lado, leva esse conceito mais profundamente ao campo comercial, com venda de datasets e repartição de receitas sob regras publicadas e auditáveis.

Dados pessoais ficam fora da blockchain

Segundo o fluxo de trabalho divulgado pela Reef, os membros solicitariam seus próprios dados a empresas com base em direitos previstos na legislação europeia. O Data Act, aplicável desde setembro de 2025, trata principalmente de dados gerados por produtos conectados, como carros, dispositivos inteligentes e máquinas industriais. Já o Artigo 15 do GDPR garante acesso aos dados mantidos por empresas, enquanto o Artigo 20 trata da portabilidade em formato legível por máquina.

Essa diferença é central. Afinal, ela define se a Reef usa um direito novo introduzido pelo Data Act ou apenas reorganiza um direito que o GDPR já assegurava aos consumidores havia anos.

De acordo com a arquitetura apresentada, o aplicativo da Reef mantém os dados pessoais fora da Cardano desde a origem. A revisão e a anonimização ocorreriam no próprio celular do usuário. Somente após a decisão do membro, algo seguiria para o pool cooperativo. Em seguida, o Reeve registraria a venda do dataset, o pagamento dos royalties e a prova criptográfica de que a distribuição seguiu as regras publicadas.

O que vai para a blockchain e o que fica fora dela
O fluxo mostra os dados pessoais permanecendo fora da blockchain, enquanto a Cardano registra vendas de datasets, carimbos de tempo, cálculos de royalties e verificação.

Orientação europeia favorece modelo off-chain

Essa estrutura dialoga diretamente com a orientação final adotada em 7 de julho pelo European Data Protection Board sobre tecnologias de blockchain. A diretriz alerta que livros contábeis imutáveis entram em tensão com direitos previstos no GDPR, como correção e apagamento. Por isso, recomenda que empresas mantenham dados pessoais off-chain sempre que possível.

A própria política de privacidade do Reeve descreve a ferramenta como um sistema voltado à integridade de dados financeiros e relatórios de registros transacionais. Contudo, permanece uma ressalva relevante. Autoridades europeias diferenciam anonimização verdadeira, que retira o dado do escopo do GDPR, de pseudonimização, que ainda mantém a informação como dado pessoal se houver possibilidade de reidentificação.

A Reef publicou poucos detalhes técnicos sobre esse processo no dispositivo do usuário. Portanto, ainda não está claro se o mecanismo realmente alcança o padrão de anonimização exigido ou se gera dados que continuam enquadrados como pessoais pelas regras europeias.

Royalties podem variar de US$ 1,25 a US$ 30 ao ano

As estimativas para o mercado global de monetização de dados variam conforme a fonte. Um estudo de caso da própria Reef cita US$ 3,95 bilhões em 2025, com projeção de chegar a US$ 19,32 bilhões em 2032. Já previsões independentes da Grand View Research, da Research and Markets e da Stratistics MRC colocam o mercado atual entre US$ 3,9 bilhões e US$ 5,29 bilhões. Além disso, projetam expansão para algo entre US$ 16,3 bilhões e US$ 29,46 bilhões em sete a oito anos.

Mas a Reef mira um nicho mais específico. Em outras palavras, ela busca o segmento de plataformas organizadas de marketplace de dados, avaliado em US$ 1,5 bilhão em 2024. A Grand View Research projeta que essa categoria alcance US$ 5,7 bilhões até 2030, com taxa composta anual de crescimento de 25,2%.

O ponto central, no entanto, é o retorno ao usuário. No cenário pessimista apresentado, 25 compradores fechariam dois contratos cada um no valor de US$ 5.000. Desse total, 50% da receita iria para royalties, com divisão entre 100 mil membros ativos. O resultado seria de cerca de US$ 1,25 por membro ao ano.

No cenário otimista, 500 compradores assinariam quatro contratos cada um de US$ 50.000. Nesse caso, 60% da receita seria distribuída entre 2 milhões de membros ativos. Assim, o ganho subiria para aproximadamente US$ 30 por pessoa ao ano. É um valor real, mas ainda pequeno.

Royalties de dados: renda simbólica ou retorno relevante
O gráfico compara royalties anuais estimados de US$ 1,25 em um cenário pessimista e US$ 30 em um cenário otimista.

Auditoria na Cardano não elimina desafios legais

Esse cenário mais favorável depende da hipótese de que empresas pagarão um prêmio por dados consentidos e auditáveis. Um estudo com dezenas de milhões de impressões publicitárias indicou que os preços caíram entre 18% e 23% quando anunciantes perderam acesso ao rastreamento em nível de usuário. Isso sugere valor econômico mensurável para dados identificáveis e autorizados, embora ainda não prove que esse prêmio será sustentável em larga escala.

No fim, a trilha de auditoria na Cardano pode comprovar que uma venda ocorreu e que a divisão do dinheiro seguiu as regras prometidas. Ainda assim, a origem lícita dos dados, a efetividade da anonimização no aparelho e a capacidade de obter preços justos dos compradores continuam dependendo da governança da Reef. Dessa forma, a proposta reúne apoio institucional, mantém os dados pessoais fora da blockchain e trabalha com cenários de retorno que hoje variam de cerca de US$ 1,25 a US$ 30 por membro ao ano.