Bitcoin e BIP-110: atualização divide a comunidade

O Bitcoin enfrenta um dos debates mais relevantes sobre governança dos últimos anos. A proposta BIP-110 pode entrar em vigor apesar do baixo apoio entre mineradores. Por isso, a discussão envolve a possibilidade de alterar as regras da rede sem um acordo amplo.

O BIP-110 propõe um soft fork temporário, com duração prevista de um ano. Seu objetivo é limitar a quantidade de dados sem relação direta com pagamentos nas transações do Bitcoin.

O que o BIP-110 pretende mudar

A proposta mira principalmente usos como Ordinals, tokens BRC-20 e grandes volumes de dados inseridos por OP_RETURN. Esses recursos ocupam espaço nos blocos, embora não envolvam necessariamente transferências de BTC.

O desenvolvedor pseudônimo Dathon Ohm escreveu a proposta, com contribuições técnicas de Luke Dashjr. A iniciativa busca manter o Bitcoin concentrado em pagamentos e reduzir o crescimento de dados considerados desnecessários por seus defensores.

Entretanto, o BIP-110 poderia impedir transações que as regras atuais consideram válidas. Críticos também afirmam que a medida concederia influência excessiva a um grupo reduzido de desenvolvedores e operadores de nós.

A principal controvérsia envolve o método de ativação. Em vez de adotar o limiar de 95% associado a mecanismos anteriores, a proposta estabelece apoio de 55% dos mineradores.

Caso esse patamar não seja alcançado, os nós compatíveis começarão a rejeitar blocos de mineradores que não sinalizarem apoio. Essa fase deve começar perto do bloco 961.632, estimado entre 8 e 9 de agosto de 2026. A data pode variar conforme o ritmo de produção dos blocos.

Apoio dos mineradores permanece baixo

Até agora, a sinalização continua muito distante da meta. Durante os meses anteriores, menos de 1% dos blocos minerados indicaram apoio ao BIP-110.

Depois que o pool Ocean ativou a sinalização como padrão, o índice subiu para aproximadamente 2% a 3%. Ainda assim, o resultado permanece muito abaixo dos 55% previstos pela proposta.

O Bitcoin não possui CEO nem uma autoridade central capaz de impor atualizações. Portanto, mudanças relevantes avançam quando mineradores, operadores de nós, empresas e usuários adotam as novas regras.

Em geral, atualizações anteriores buscaram apoio expressivo antes da ativação. Esse alinhamento reduz o risco de a rede se dividir entre versões incompatíveis.

Sem consenso suficiente, alguns nós podem aplicar as novas restrições, enquanto outros mantêm as regras atuais. Nesse cenário, blocos aceitos por um grupo podem ser rejeitados pelo outro, abrindo espaço para cadeias separadas.

Críticas ao modelo de ativação

Adam Back, CEO da Blockstream, argumentou no X que o BIP-110 quase não possui apoio econômico. Ele também avalia que mineradores dificilmente sustentariam uma cadeia minoritária sem rentabilidade.

Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, também criticou a proposta. Para ele, a medida poderia enfraquecer a neutralidade do Bitcoin ao permitir que uma minoria influencie quais transações são válidas.

Por outro lado, os defensores do BIP-110 rejeitam essa interpretação. Alguns acreditam que os usuários precisam se preparar para uma eventual divisão, em vez de presumir o fracasso da proposta.

Outros participantes analisaram a mudança e decidiram não apoiá-la. Mesmo assim, continuam acompanhando o debate e possíveis alterações discutidas no ecossistema.

Riscos de uma divisão da rede

A empresa de infraestrutura Start9 alertou no X sobre o risco de divisão quando começar a etapa obrigatória prevista no BIP-110.

Os efeitos seriam diferentes para cada participante. Mineradores poderiam produzir blocos em uma cadeia com pouco apoio econômico. Como resultado, essa cadeia minoritária poderia operar lentamente ou até interromper a produção de blocos.

Operadores de nós teriam de escolher entre o software compatível com o BIP-110 e as regras atuais. Enquanto isso, exchanges e empresas poderiam suspender depósitos e saques temporariamente.

Exchanges e Lightning Network podem ser afetadas

Uma das preocupações envolve ataques de repetição. Nesse tipo de ataque, uma transação transmitida em uma cadeia também pode ser válida na outra.

Usuários da Lightning Network enfrentariam complicações adicionais. A rede depende de uma interpretação comum sobre a blockchain subjacente para abrir, manter e encerrar canais de pagamento.

O histórico oferece um exemplo relevante. Em 2017, o Bitcoin Cash se separou do Bitcoin com apoio comunitário e de mineradores superior ao observado atualmente no BIP-110.

Apesar disso, o mercado manteve o Bitcoin como a principal cadeia. O Bitcoin Cash, por sua vez, permaneceu consideravelmente menor.

Assim, o debate sobre o BIP-110 reforça o papel do consenso social na governança do Bitcoin. O código define as regras, mas participantes da rede decidem quais regras adotar.