Stablecoins: Koywe expõe limite do dólar no Chile
Guillermo Acuña, cofundador e diretor de tecnologia da Koywe, mostrou como as stablecoins podem acelerar transferências internacionais. A demonstração ocorreu durante sua palestra no Blockchain Summit Latam Chile 2026.
Diante do público, ele pediu a um agente de inteligência artificial que transferisse 5.000 pesos chilenos. O dinheiro saiu de seu saldo e seguiu para uma conta própria em um banco mexicano.
O agente identificou a conta, calculou a conversão para pesos mexicanos e solicitou apenas a aprovação por impressão digital. Minutos depois, o banco no México notificou Acuña sobre o recebimento. “Foi como mágica”, resumiu o executivo.
Operação ainda depende do mercado de dólar
Contudo, a transferência envolve várias etapas nos bastidores. Primeiro, uma corretora local converte o peso chileno em dólares. Depois, o sistema transforma os dólares em USDC.
No México, a operação converte o USDC novamente em dólares e, na sequência, em pesos mexicanos. Portanto, toda a transferência depende do dólar e de intermediários locais.
Segundo Acuña, a corretora de dólar usada no Chile encerra as atividades às duas da tarde. Essa restrição se torna mais evidente fora do horário comercial.
Uma transferência feita às sete da noite de um sábado ainda pode ocorrer. Porém, o cliente poderá enfrentar um custo muito elevado.
Nesse cenário, o mercado de dólar está fechado desde a sexta-feira e não oferece uma cotação disponível. Acuña afirmou que já observou diferenças cambiais de até 10% nessas condições.
Assim, uma infraestrutura apresentada como disponível 24 horas por dia ainda depende de rotinas do sistema financeiro tradicional. Apesar desse obstáculo, a adoção continua ampla.
Acuña apresentou dados que apontam uma movimentação de cerca de US$ 324 bilhões em stablecoins na América Latina. Globalmente, esses instrumentos já liquidam mais valor do que as grandes redes de cartões.
Dinheiro programável pode ampliar o acesso
Para Acuña, a principal vantagem das stablecoins não se limita à velocidade. Ele considera esses instrumentos uma forma de dinheiro programável e auditável.
Como exemplo, o executivo citou uma exigência feita por um banco chileno. A instituição exigia um depósito superior a US$ 5 milhões para oferecer rendimento anual de 5%.
Com dinheiro programável, uma empresa poderia obter retorno semelhante ou maior sobre saldos em pesos, conforme Acuña. Ao mesmo tempo, o sistema liquidaria os rendimentos a cada minuto.
Além disso, o serviço permaneceria disponível durante 24 horas e poderia funcionar por meio de agentes sem intervenção humana. O principal benefício, na avaliação do executivo, seria ampliar o acesso.
Instrumentos de tesouraria hoje restritos a grandes companhias poderiam alcançar pequenas empresas. Muitas delas pagam fornecedores na China ou recebem de clientes na Colômbia.
Durante essas operações, as empresas perdem dias e margem financeira. Por isso, Acuña considera o câmbio on-chain apenas o primeiro produto dessa nova estrutura.
Depois do câmbio, ele prevê serviços de crédito, rendimento e agentes conectados por API. Ainda assim, a estrutura não funcionará plenamente enquanto depender dos antigos trilhos do dólar.
Moedas locais formam o elo ausente
Acuña defende a emissão de representações digitais das moedas locais em redes blockchain. Hoje, ninguém consegue movimentar um peso chileno de forma totalmente on-chain e sem intermediários.
Antes de entrar nesse ambiente, o usuário precisa comprar um instrumento digital e realizar uma troca. USDT e USDC movimentam volumes expressivos, mas o peso chileno não participa desse mercado.
Na visão do executivo, um mercado de câmbio on-chain efetivo exige pesos chilenos, colombianos e mexicanos emitidos na rede. Essas representações precisariam de regulação, paridade de 1 para 1 e auditoria em tempo real.
Dessa forma, cada unidade registrada na rede manteria equivalência com uma unidade resgatável fora dela. Acuña rejeita modelos algorítmicos e reservas sem lastro integral.
Em vez disso, ele prefere mecanismos que qualquer interessado possa verificar a qualquer momento. Esse formato substituiria auditorias disponíveis apenas “na segunda-feira de manhã”.
O modelo atual também apresenta custos elevados e pouca transparência. Uma transferência via SWIFT do Chile ao Peru pode custar centenas de dólares, mesmo entre agências do mesmo banco.
Além do custo, o cliente não sabe exatamente quanto chegará ao destino. Também não consegue identificar com clareza todos os bancos correspondentes envolvidos no trajeto.
A Koywe movimenta milhões de dólares por dia e enfrenta essa limitação diretamente. Para obter os USDT necessários, a empresa ainda precisa enviar dólares pelo SWIFT.
“O SWIFT precisa morrer, mas eu o uso todos os dias”, afirmou Acuña.
Enquanto isso, o euro já possui stablecoins, e o Brasil conta com diversas opções reguladas e operacionais. O Chile, por sua vez, ainda não regula emissores de stablecoins em sua Lei Fintech.
A Koywe discute o tema com o Banco Central do Chile.
Bancos e redes blockchain podem atuar juntos
Acuña não prevê que a blockchain substitua os bancos, nem que as instituições financeiras eliminem as redes on-chain. Em contrapartida, ele defende uma combinação entre as duas infraestruturas.
Esse modelo incluiria licenças, supervisão, proteção ao consumidor e diálogo com o Banco Central do Chile e a CMF. Paralelamente, as operações utilizariam a infraestrutura blockchain.
Na avaliação do executivo, bancos e representações digitais podem atuar como parceiros. Com isso, a transferência instantânea deixa de representar o objetivo final.
O avanço decisivo seria colocar moedas locais na rede. Esse processo permitiria que o câmbio deixasse de depender de uma corretora de dólar que fecha às duas da tarde.