Dados abertos podem transformar suitability de obrigação regulatória em serviço ao investidor

Painel debate uso de Open Finance, compartilhamento de informações e novas experiências digitais para criar recomendações de investimentos mais personalizadas

O avanço dos dados abertos no sistema financeiro pode mudar uma das etapas mais tradicionais, e também mais burocráticas, da relação entre investidores e instituições: o suitability.

Durante painel sobre o tema nesta quinta-feira (13), especialistas do mercado discutiram como informações compartilhadas, novas tecnologias e uma eventual criação de um perfil único do investidor poderiam tornar a recomendação de produtos financeiros mais personalizada.

Atualmente, o suitability é o processo utilizado pelas instituições para verificar se produtos, serviços e operações são adequados ao perfil de cada cliente. A Resolução CVM 30 estabelece que a análise considere aspectos como objetivos de investimento, situação financeira, conhecimento e experiência do investidor. Na prática, o processo costuma resultar na classificação do cliente em categorias como conservador, moderado ou arrojado.

O problema, segundo os participantes do painel, é que a ferramenta ainda é percebida muitas vezes como uma obrigação regulatória, e não como um serviço capaz de melhorar efetivamente a experiência de investimento.

Gustavo Tufale destacou que o processo atual acaba funcionando mais como mecanismo de proteção das próprias instituições do que como ferramenta de geração de valor para o cliente. Para ele, a transformação passa por mudar não apenas os dados utilizados, mas também a maneira como as perguntas são feitas.

“Hoje minha sensação é que o suitability protege mais a instituição do que gera valor. As perguntas precisam mudar para ser mais centradas no investidor do que na empresa.”

A percepção encontra respaldo em uma Avaliação de Resultado Regulatório publicada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em janeiro de 2025. O estudo, realizado a partir de diferentes fontes, incluindo uma pesquisa com 2.815 investidores, concluiu que a Resolução CVM 30 apresenta eficácia positiva, mas abaixo de seu potencial. A própria autarquia destacou a percepção negativa dos investidores em relação à utilidade do processo realizado pelos intermediários.

Entre as possibilidades discutidas está justamente utilizar informações que já existem no ecossistema financeiro. Com o Open Finance, por exemplo, uma instituição autorizada pelo cliente pode ter acesso a dados capazes de ajudar a compreender seu histórico e comportamento financeiro, reduzindo a dependência de questionários padronizados.

“Já traria uma coerência maior, uma vez que conheço o histórico e hábito dele no passado. A recomendação precisa ter coerência”, afirmou Tufale.

A experiência do usuário também entrou no centro da discussão. Em vez de formulários extensos, o processo poderia incorporar interfaces mais próximas da rotina do cliente, como WhatsApp, respostas por áudio ou mecanismos de gamificação. A ideia seria reduzir o atrito e, ao mesmo tempo, obter informações mais úteis para determinar o perfil e os objetivos daquele investidor.

De perfil de risco para perfil do investidor

Luiz Henrique Carvalho defendeu que a discussão precisa avançar além da simples classificação de risco. Segundo ele, o objetivo deveria ser utilizar os dados para melhorar efetivamente a recomendação.

“Ainda vivemos em um mundo em que o produto vem antes do cliente.”

Para Carvalho, um modelo de suitability único poderia criar um perfil compartilhável do investidor, permitindo que diferentes instituições partissem de uma base comum. A competição deixaria de estar centrada na coleta repetida das mesmas informações e passaria para a capacidade de cada empresa interpretar os dados e oferecer produtos mais adequados.

“O diferencial das instituições deveria ser oferecer o melhor produto para aquele perfil, entendendo mais profundamente dele do que a concorrente”, afirmou.

Nesse cenário, o suitability deixaria gradualmente de ser apenas uma etapa de compliance.

“Quando vira um serviço, agrega valor para a instituição”, acrescentou Carvalho.

A discussão sobre compartilhamento não está distante da agenda regulatória. Entre as sete recomendações apresentadas pela própria CVM em sua avaliação sobre suitability estão o compartilhamento de informações do perfil de risco no âmbito do Open Finance e o possível uso de participantes centralizadores no processo cadastral.

O assunto também entrou formalmente na Agenda Regulatória da CVM para 2026. A autarquia colocou entre os temas prioritários o aprimoramento das regras de suitability a partir das conclusões de avaliações anteriores e também mantém entre seus estudos a portabilidade de investimentos dentro do Open Finance.

Um suitability único

Claudio Maes apontou a modernização da regulamentação como um dos caminhos para essa transformação. Uma das propostas apresentadas por ele é justamente a criação de uma infraestrutura comum.

“Uma das coisas que deixei de sugestão é um suitability único. Uma base de dados em que todas as instituições estejam plugadas.”

Segundo Maes, uma estrutura desse tipo poderia reduzir atritos, aumentar o conhecimento disponível sobre os investidores e facilitar também o trabalho do regulador. O desafio, porém, está em determinar exatamente quais informações deveriam compor esse sistema.

“Uma coisa é apontar perfil, e outra coisa é apontar objetivos individuais”, afirmou.

A distinção é importante. Saber que determinado investidor aceita mais ou menos risco não significa necessariamente conhecer aquilo que ele pretende fazer com o dinheiro. Dois clientes classificados como moderados, por exemplo, podem ter horizontes, necessidades de liquidez e objetivos completamente diferentes.

É justamente essa diferença que ajuda a explicar a mudança defendida pelos participantes: sair de categorias genéricas e caminhar para recomendações individualizadas.

Hoje, a regulamentação já determina que a identificação do perfil considere fatores que vão além da tolerância ao risco, incluindo o período durante o qual o cliente pretende manter o investimento, suas finalidades, receitas, patrimônio, necessidade futura de recursos e experiência prévia com diferentes produtos.

O salto proposto pelo mercado é usar dados e tecnologia para fazer com que essas informações deixem de existir apenas dentro de um formulário regulatório e passem efetivamente a orientar a oferta de investimentos.

Com Open Finance, inteligência de dados e bases compartilhadas, o suitability pode deixar de responder apenas à pergunta “quanto risco este cliente aceita?” para tentar responder outra, mais complexa: “qual investimento realmente faz sentido para esta pessoa?”

Se essa mudança avançar, a disputa entre instituições financeiras também pode mudar. Em vez de simplesmente conhecer o perfil regulatório do cliente, bancos, corretoras e plataformas terão de competir para demonstrar quem consegue transformar os mesmos dados na recomendação mais adequada para cada investidor.

 

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*Comunicado de imprensa