ETF de Bitcoin: custos de BlackRock e Grayscale

Os fluxos dos ETFs de Bitcoin movimentam centenas de milhões de dólares e atraem grandes instituições. Contudo, para quem mantém as cotas, a principal questão está no custo efetivo do produto.

A taxa de administração representa apenas o ponto de partida. O custo total também envolve o efeito composto das cobranças, a precisão do acompanhamento, a tributação e os spreads. Além disso, o investidor precisa comparar esses fatores com os riscos da autocustódia.

Taxas dos principais fundos de Bitcoin

Em agosto de 2026, 11 ETFs spot de Bitcoin eram negociados nas bolsas dos Estados Unidos. As taxas anuais variavam de 0,15% a 1,50%. Essa diferença se torna mais relevante após vários anos de exposição.

O Grayscale Bitcoin Mini Trust, negociado sob o ticker BTC, cobrava 0,15% ao ano. Embora tivesse a menor taxa declarada, o produto reunia menos recursos que os fundos IBIT e FBTC. Já o Franklin Bitcoin ETF, EZBC, cobrava 0,19% e mantinha menos de US$ 500 milhões sob gestão.

Por causa do menor volume, o EZBC apresentava spreads maiores e liquidez inferior à dos principais concorrentes. O Bitwise Bitcoin ETF, BITB, e o VanEck Bitcoin ETF, HODL, cobravam 0,20% ao ano. O BITB acumulava mais de US$ 3,8 bilhões, enquanto a VanEck havia reduzido sua taxa inicial de 0,25%.

O ARK 21Shares Bitcoin ETF, ARKB, cobrava 0,21%. Por sua vez, o iShares Bitcoin Trust, IBIT, da BlackRock, e o Fidelity Wise Origin Bitcoin Fund, FBTC, cobravam 0,25% ao ano.

O IBIT administrava mais de US$ 23 bilhões, e sua isenção promocional havia terminado em janeiro de 2025. A Fidelity utilizava a Fidelity Digital Assets como custodiante. A Coinbase, por outro lado, prestava custódia para a maior parte dos demais fundos.

O Grayscale Bitcoin Trust, GBTC, cobrava 1,50% ao ano, seis vezes a taxa de fundos com cobrança de 0,25%. O produto surgiu como trust em 2013 e se converteu em ETF em janeiro de 2024. Mesmo após saídas persistentes, ainda administrava mais de US$ 14 bilhões.

Efeito composto das taxas

As gestoras descontam as taxas do patrimônio dos fundos. Portanto, as cobranças reduzem a quantidade de capital exposta ao desempenho futuro do Bitcoin.

Em uma aplicação hipotética de US$ 100 mil, com o preço do Bitcoin estável, o BTC Mini deixaria cerca de US$ 99.253 após cinco anos. Nesse período, o custo acumulado seria próximo de US$ 747.

Nas mesmas condições, o EZBC deixaria US$ 99.054, enquanto o BITB terminaria com US$ 99.004. O ARKB ficaria em US$ 98.954. Enquanto isso, o IBIT manteria US$ 98.756, e o GBTC cairia para US$ 92.686.

Após dez anos, o BTC Mini deixaria aproximadamente US$ 98.511. O EZBC manteria US$ 98.117, o BITB teria US$ 98.018 e o ARKB chegaria a US$ 97.920. Já o IBIT ficaria em US$ 97.528, contra US$ 85.907 no GBTC.

Assim, a diferença acumulada entre IBIT e GBTC alcançaria US$ 11.621 em uma posição inicial idêntica. Caso o Bitcoin avançasse 15% ao ano, o capital bruto chegaria a cerca de US$ 404,6 mil em dez anos. Com taxas constantes, o saldo aproximado seria de US$ 395,8 mil no IBIT e US$ 354,8 mil no GBTC.

Precisão do acompanhamento altera o resultado

O tracking error mede a dispersão entre os retornos do ETF e os do índice ou preço de referência. Já a tracking difference representa a diferença efetiva de desempenho acumulado. Embora relacionados, os dois indicadores não são equivalentes.

Na prática, criações e resgates de cotas, recursos mantidos em caixa, custos de custódia e spreads podem afetar o acompanhamento. Entre os 11 ETFs spot dos Estados Unidos, o tracking error anualizado citado variava de cerca de 0,03% a 0,42%.

IBIT e FBTC apareciam entre os produtos mais precisos, com aproximadamente 0,03%. Fundos menores e menos líquidos registravam valores próximos de 0,42%. Portanto, o investidor não deve avaliar apenas a taxa nominal.

Um tracking error elevado indica maior instabilidade em relação à referência, mas não constitui automaticamente um custo adicional. Caso exista uma defasagem anual persistente de 0,42%, porém, uma taxa de 0,20% pode produzir uma perda efetiva próxima de 0,62% ao ano.

Nesse cenário, um fundo barato poderia entregar um resultado inferior ao de um concorrente com taxa ligeiramente maior. Por exemplo, o IBIT poderia superar o BITB se mantivesse uma diferença de acompanhamento menor. A comparação exige dados observados durante períodos equivalentes.

Tributação pode superar a diferença de taxas

Nos Estados Unidos, a venda de cotas em contas tributáveis pode gerar imposto sobre ganhos de capital. As alíquotas federais são de 0%, 15% ou 20%, conforme a renda e o prazo da aplicação.

Contribuintes de alta renda também podem pagar um adicional de 3,8% sobre a renda líquida de investimentos. Em determinadas situações, impostos estaduais elevam ainda mais a cobrança. Na Califórnia, por exemplo, a alíquota combinada pode superar 37%.

Os participantes autorizados conseguem administrar parte dos ganhos do fundo por meio de criações e resgates. Além do mais, ETFs mantidos em contas IRA e planos 401(k) podem oferecer diferimento ou isenção tributária.

O Bitcoin direto exige uma estrutura de IRA autodirigida para obter vantagens semelhantes. Essa alternativa adiciona custos, exigências operacionais e complexidade. Por isso, o benefício tributário pode valer mais que vários anos de taxas do ETF.

Autocustódia elimina tarifas, mas cria riscos

A autocustódia elimina taxas de administração, tracking error e dependência direta de uma gestora. Entretanto, o investidor passa a responder pela proteção das chaves privadas e pela recuperação dos recursos.

Uma carteira física da Ledger ou da Trezor custa entre US$ 79 e US$ 219. A substituição de um aparelho perdido ou danificado pode exigir um valor semelhante. Backups metálicos, cofres e redundância em diferentes locais também aumentam o custo.

Uma estimativa atribuída à Chainalysis aponta que cerca de 3,7 milhões de Bitcoins podem estar perdidos. Esse volume equivaleria a aproximadamente 17,5% da oferta total. Ainda assim, longos períodos sem movimentação não comprovam, isoladamente, a perda das chaves.

Desse modo, a comparação envolve um custo administrado e mensurável contra um risco operacional potencialmente permanente. Para instituições sujeitas a regras fiduciárias, a custódia regulada e auditada costuma ser a alternativa viável. O JPMorgan, por exemplo, aceita Bitcoin como garantia dentro de estruturas institucionais.

Perfil adequado para cada modelo

Os ETFs tendem a atender investidores que usam contas de aposentadoria e instituições com exigências de conformidade. Também favorecem pessoas que não desejam administrar chaves privadas. Traders de curto e médio prazo podem se beneficiar da liquidez e dos spreads estreitos.

A autocustódia, em contraste, tende a favorecer detentores de longo prazo com capacidade técnica. Ela também atende quem busca reduzir a dependência do sistema financeiro tradicional. No entanto, qualquer falha no armazenamento pode causar uma perda definitiva.

A Strategy, antiga MicroStrategy, ocupa uma posição intermediária ao manter Bitcoin diretamente em seu balanço. A empresa evita taxas de ETF, mas assume custos de custódia, financiamento, relatórios regulatórios e gestão corporativa.

Concorrência pressiona taxas dos ETFs

BlackRock, Fidelity e outras gestoras enfrentam uma tendência de compressão das taxas. Em segmentos consolidados, como ações, títulos e commodities, vários ETFs já cobram perto ou abaixo de 0,10%.

Os custos de custódia do Bitcoin representam apenas parte da taxa cobrada pelos fundos. A Coinbase recebe uma fração dessa cobrança por seus serviços. Dessa maneira, uma parcela relevante permanece com os patrocinadores dos produtos.

Se a taxa do IBIT cair para 0,10%, o custo sobre US$ 100 mil estáveis seria de aproximadamente US$ 995 em dez anos. Com a taxa de 0,25%, a cobrança acumulada chega a cerca de US$ 2.472. Investidores atuais, contudo, pagam a tarifa vigente em cada período, sem ajuste retroativo.

O mercado acompanha uma possível redução perto do terceiro aniversário do IBIT, em janeiro de 2027. Também observa as saídas do GBTC, que já perdeu mais de US$ 20 bilhões desde a conversão, e a evolução do acompanhamento entre os fundos.

Apesar dos custos, o capital institucional continuava escolhendo os ETFs. O Morgan Stanley elevou sua posição no IBIT em 23%, para 16,5 milhões de cotas, no segundo trimestre. Harvard manteve US$ 101 milhões, enquanto a Jane Street declarou mais de US$ 1 bilhão em ETFs de Bitcoin.