Bitcoin sobe após Tesouro dos Estados Unidos dobrar recompras
O Bitcoin superou US$ 69.500 na quarta-feira, enquanto o Ethereum avançou acima de US$ 2.000. O movimento ocorreu após o Tesouro dos Estados Unidos dobrar o limite planejado para recompras de dívida pública de longo prazo.
Em 19 de agosto, o Departamento do Tesouro informou que elevará o limite das operações de US$ 2 bilhões para, no mínimo, US$ 4 bilhões. A medida abrangerá títulos com vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos. As operações começarão em 9 de setembro e seguirão até 4 de novembro.
Queda dos rendimentos favorece a recuperação do Bitcoin
O anúncio trouxe alívio ao mercado de títulos, que enfrentava o aumento dos custos de financiamento. Com isso, o rendimento dos Treasuries de 30 anos caiu para cerca de 5,19%. Na terça-feira, a taxa havia alcançado 5,34%, maior nível desde 2007.
Ao mesmo tempo, o rendimento dos títulos de dez anos recuou para 4,647%. A diferença entre as taxas dos papéis de dois e 30 anos também diminuiu de forma acentuada.
Nesse contexto, o Bitcoin se recuperou de uma mínima intradiária próxima de US$ 64.100. Depois, ultrapassou US$ 69.000 antes de recuar para aproximadamente US$ 68.000. O Ethereum, por sua vez, alcançou US$ 2.100 e rompeu US$ 2.000 pela primeira vez desde junho.
A recuperação atingiu operadores que apostavam em novas quedas. Em uma hora, as liquidações no mercado de criptomoedas ultrapassaram US$ 1,2 bilhão. Bitcoin e Ethereum concentraram a maior parte das perdas.
Os operadores vendidos perderam cerca de US$ 1,29 bilhão no período destacado pelos dados. Nas últimas 24 horas, mais de 110 mil traders enfrentaram liquidações superiores a US$ 1,45 bilhão.

A maior liquidação individual atingiu uma posição ETH-USD de US$ 32 milhões na Bitget. Portanto, a rápida reversão do mercado afetou principalmente quem mantinha posições contrárias à alta.
Tesouro amplia suporte à liquidez dos títulos
O Tesouro afirmou que as operações maiores pretendem reforçar a liquidez dos títulos com vencimentos mais longos. Nesses segmentos, participantes ofereceram repetidamente volumes de dívida muito superiores aos limites aceitos pelo departamento.
“Esse aumento no tamanho das operações de recompra reflete o objetivo do Tesouro de fornecer maior suporte de liquidez aos segmentos nominais de prazo mais longo, nos quais existe forte e consistente interesse dos participantes do mercado.”
A decisão ocorreu após uma forte reprecificação na parte longa da curva dos Treasuries. Investidores passaram a exigir maior compensação pela inflação, pelo endividamento público elevado e pelos riscos de manter dívida durante décadas.
Em paralelo, emissões corporativas maiores ampliaram a oferta de papéis que disputam o capital dos investidores. Parte desses empréstimos está relacionada a investimentos em inteligência artificial. Essas pressões também afetaram o Bitcoin e outros investimentos de maior risco.
Rendimentos de longo prazo mais altos, sobretudo em termos reais, elevam o custo de capital. Eles também tornam a dívida pública mais competitiva na busca por recursos. Dessa forma, podem pressionar ações de tecnologia e o Bitcoin.
A reversão de quarta-feira reduziu parte dessa pressão enquanto o Bitcoin retomava US$ 66.000 e ampliava os ganhos. Andre Dragosch, chefe de pesquisa da Bitwise Europe, classificou a ação do Tesouro como um dos “primeiros sinais de rachadura” no sistema.
“O Bitcoin é o canário na mina de carvão macroeconômica que antecipa mudanças nas condições financeiras, tanto para baixo quanto para cima. A alta dos rendimentos já força o Tesouro a intervir, e o BTC percebe isso.”
Dragosch publicou a avaliação no X. Para o analista, o comportamento do Bitcoin pode antecipar alterações nas condições financeiras globais.
Recompras não equivalem à flexibilização quantitativa
As operações do Tesouro não representam flexibilização quantitativa. As compras de ativos pelo Federal Reserve criam reservas e expandem o balanço do banco central. Já as recompras do Tesouro buscam melhorar a liquidez dos títulos existentes.
As operações também não reduzem a dívida total do governo. Ainda assim, a reação dos mercados demonstrou a sensibilidade do Bitcoin e de outros investimentos às mudanças nos custos de financiamento de longo prazo.
Matt Cole, presidente da empresa de tesouraria de Bitcoin Strive, afirmou que essas pressões podem fortalecer uma tese de longo prazo para o ativo. Na avaliação dele, o crescimento da dívida pode levar autoridades a favorecer taxas reais menores, maior liquidez e depreciação monetária.
Cole declarou que a dívida federal e os déficits persistentes impõem escolhas difíceis aos formuladores de políticas. Eles podem tolerar taxas reais maiores e condições financeiras restritivas. Em contrapartida, podem administrar a pressão com medidas que apoiem a liquidez e o crescimento nominal.
“Não há caminho sem dor. A questão é simplesmente onde o ajuste será absorvido.”
Cole apresentou o argumento no X. Há mais de uma década, ele defende que o dólar atravessa um declínio estrutural.
Para o executivo, a decisão do Tesouro reforçou essa visão porque mostra a resposta das autoridades à pressão sobre a dívida de longo prazo. Ele também afirmou que grandes altas anteriores do Bitcoin coincidiram com períodos de fraqueza do dólar. Caso a tese se confirme, os próximos cinco a sete anos poderão oferecer um impulso macroeconômico superior ao observado nos ciclos anteriores.