Bitcoin pode cair com juros dos títulos do Japão
O mercado de títulos do Japão passa pela maior transformação em décadas. Nesse contexto, a alta dos rendimentos pode ampliar a pressão sobre o Bitcoin. O movimento também reacende preocupações com a desmontagem do carry trade do iene.
Em julho, investidores estrangeiros venderam 1,28 trilhão de ienes em títulos japoneses com vencimentos de dois e cinco anos. Esse foi o maior volume de vendas desde 2006. Embora tenham reduzido essas posições, eles compraram 889,8 bilhões de ienes em papéis com prazo superior a dez anos.
Rendimentos japoneses ameaçam o carry trade
Os rendimentos alcançaram máximas de várias décadas ao longo da curva. O título de dois anos chegou ao maior nível em 31 anos. Ao mesmo tempo, o papel de cinco anos atingiu o pico de 30 anos.
Já o rendimento do título japonês de dez anos aproxima-se de 3%. O mercado não registrava esse patamar desde 1996. Com isso, aplicações domésticas voltam a oferecer retornos mais atraentes aos investidores japoneses.
O efeito sobre o Bitcoin ocorre de forma indireta, mas pode ser relevante. Durante anos, as taxas próximas de zero incentivaram investidores a captar ienes baratos. Em seguida, eles aplicavam os recursos em mercados estrangeiros com maior potencial de retorno, incluindo o Bitcoin.
Essa estratégia recebe o nome de carry trade do iene. Porém, quando os rendimentos japoneses sobem e o iene se valoriza, a operação perde rentabilidade. Alguns investidores podem, então, vender posições no exterior para quitar empréstimos denominados na divisa japonesa.
Na prática, uma valorização rápida do iene pode provocar chamadas de margem e vendas forçadas. Esse processo tende a afetar mercados de risco e criptomoedas. Ainda assim, outros fatores macroeconômicos também influenciam a cotação do Bitcoin.
Queda de agosto de 2024 serve de precedente
O risco ganhou força em agosto de 2024, após o Banco do Japão elevar os juros em 31 de julho. A decisão impulsionou o iene e coincidiu com uma queda semanal de cerca de 20% do Bitcoin. A cotação recuou de aproximadamente US$ 62.000 para US$ 49.000.
Naquele período, investidores desmontaram operações alavancadas financiadas em ienes. Mais recentemente, uma intervenção cambial coordenada entre Estados Unidos e Japão, em agosto de 2026, reavivou receios semelhantes. Entretanto, a relação entre o câmbio japonês e o Bitcoin não permaneceu constante.
Os dados indicaram que a correlação móvel entre Bitcoin e USD/JPY havia se tornado negativa. Assim, a força do dólar, e não apenas o carry trade, parecia pressionar a cotação. Em outras palavras, os movimentos do iene precisam ser avaliados em conjunto com as condições financeiras globais.
Japão reduz posições em títulos dos Estados Unidos
No primeiro trimestre de 2026, investidores japoneses venderam US$ 29,6 bilhões em títulos dos Estados Unidos. O movimento ocorreu enquanto parte do capital retornava ao mercado doméstico. Rendimentos mais altos no Japão podem reforçar essa transferência.
O Japão mantém a posição de maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, com aproximadamente US$ 1,2 trilhão. Caso as taxas japonesas continuem subindo, instituições locais terão menos incentivo para investir no exterior. Dessa maneira, um comprador recorrente da dívida americana pode reduzir sua presença nos leilões.
Uma demanda menor pode elevar os rendimentos dos Treasuries e apertar as condições financeiras globais. Esse aperto também alcançaria mercados de risco, incluindo o Bitcoin. Um leilão recente de títulos americanos de 30 anos registrou rendimento de 5,216%, o maior desde 2001.
Indicadores que exigem atenção
O mercado passou a precificar a possibilidade de outra alta dos juros do Banco do Japão em setembro. Uma nova elevação pode aumentar a pressão sobre operações financiadas em ienes. Por isso, o par USD/JPY permanece entre os principais indicadores para acompanhar essa dinâmica.
Em julho, investidores estrangeiros venderam títulos japoneses de curto e médio prazo, segundo publicação da Bull Theory no X. Agora, uma valorização repentina do iene pode provocar novas chamadas de margem. Esse cenário elevaria o risco de liquidação de posições mantidas no exterior.
Também importa observar a demanda japonesa por títulos americanos. Uma redução prolongada das compras pode elevar os rendimentos dos Treasuries e limitar a liquidez global. Enquanto isso, juros em aberto de futuros, taxas de financiamento e fluxos de ETFs ajudam a medir a alavancagem no mercado de criptomoedas.
A normalização do mercado de títulos japonês não representa um fenômeno exclusivo do setor de criptomoedas. Mesmo assim, ela modifica os fluxos internacionais de capital e acrescenta pressão ao cenário macroeconômico. O impacto final sobre o Bitcoin dependerá da velocidade dos ajustes no iene, nos juros e na liquidez global.