Evergrande: Hui Ka Yan recebe prisão perpétua

O fundador da Evergrande, Hui Ka Yan, recebeu uma sentença de prisão perpétua nesta quinta-feira por fraude financeira em larga escala. A decisão consolida a queda do antigo magnata, que esteve entre as pessoas mais ricas da China durante o auge do setor imobiliário.

O tribunal de Shenzhen anunciou a sentença depois que Hui se declarou culpado. Durante a audiência, o empresário admitiu acusações relacionadas a fraude financeira e recebimento de propinas. Com isso, a Justiça chinesa encerrou uma etapa importante do processo contra o fundador da incorporadora.

As autoridades detiveram Hui há quase três anos, ainda nas primeiras fases da investigação. Desde então, o processo analisou práticas adotadas no império imobiliário comandado pelo empresário. Nesse intervalo, os investigadores examinaram documentos contábeis, empréstimos e repasses financeiros.

Investigação aponta irregularidades financeiras

As investigações identificaram irregularidades cometidas entre 2016 e 2021. Segundo as autoridades, a empresa falsificou demonstrações financeiras para inflar o valor de seus ativos. Dessa forma, o grupo apresentou aos reguladores uma situação financeira diferente da realidade.

Hui também ocultou passivos bilionários vinculados ao conglomerado imobiliário. Para sustentar suas operações, o esquema teria envolvido propinas a instituições financeiras para obter empréstimos considerados essenciais. Esses recursos ajudaram a manter a expansão da companhia durante parte do período investigado.

O veredicto determinou o confisco integral dos bens pessoais do fundador da Evergrande. Da mesma forma, o tribunal retirou permanentemente os direitos políticos do empresário. Agora, o Estado pretende localizar e recuperar os recursos obtidos de maneira ilícita.

As autoridades esperam usar os ativos recuperados para compensar parte das perdas dos credores. Ao mesmo tempo, a decisão estabelece um precedente severo para o setor corporativo chinês. O caso também amplia a pressão sobre grandes companhias altamente endividadas.

Evergrande recebe multa bilionária

Enquanto isso, o grupo Evergrande terá de pagar uma multa corporativa equivalente a US$ 1,31 bilhão. A subsidiária imobiliária da companhia também recebeu uma penalidade financeira independente. As autoridades, porém, não limitaram as acusações às demonstrações contábeis.

De acordo com a investigação, a companhia distribuiu dividendos que beneficiaram pessoalmente determinados executivos. Essas práticas contribuíram para a deterioração financeira de uma empresa que acumulou uma dívida considerada insustentável. Por essa razão, os investigadores analisaram tanto a gestão corporativa quanto o uso dos recursos obtidos.

As autoridades acusaram a subsidiária de inflar suas receitas em mais de 560 bilhões de yuans. Pela dimensão do valor, o episódio figura entre as maiores fraudes contábeis já registradas. A firma de auditoria envolvida no caso também recebeu sanções financeiras milionárias na China e em Hong Kong.

Colapso agravou a crise imobiliária chinesa

Hui Ka Yan iniciou sua trajetória empresarial com a aquisição de terrenos durante a rápida urbanização da China. Na fase de maior crescimento, seu modelo priorizou a construção de moradias para uma classe média em expansão. Contudo, o avanço acelerado dependeu de um volume crescente de dívidas.

No auge das operações, a Evergrande administrou mais de 1.300 projetos residenciais. O acúmulo de obrigações financeiras, entretanto, transformou-se em um dos principais problemas do mercado imobiliário chinês. A empresa perdeu capacidade de financiamento conforme as autoridades endureceram as regras para as incorporadoras.

Os primeiros sinais do colapso apareceram em 2021, após o não pagamento de títulos internacionais. Naquele momento, a falta de liquidez impediu a companhia de cumprir compromissos assumidos com investidores estrangeiros. Como consequência, a crise atingiu fornecedores, compradores de imóveis e outras empresas do setor.

Desde então, os problemas da Evergrande aprofundaram a desaceleração da construção na China. Embora o governo tenha adotado medidas de apoio, o mercado imobiliário ainda não recuperou plenamente seu dinamismo. Ao mesmo tempo, a queda nas vendas de moradias reflete a fragilidade do consumo e da confiança interna.

Diante desse quadro, as autoridades mantêm controles mais rígidos sobre o endividamento das grandes incorporadoras. Por isso, a reestruturação do setor continuará influenciando as metas de crescimento econômico do país. Nos próximos anos, a recuperação dependerá da confiança dos compradores, da conclusão de projetos e da redução dos riscos financeiros.