Games Web3 ampliam quem pode agir dentro dos mundos

Axie Infinity, MapleStory, Booty Wars e EVE Frontier mostram novas formas de participação

Os games Web3 começam a testar uma mudança que vai além da propriedade de tokens e NFTs. Nesta semana, quatro movimentações do setor colocaram em evidência uma questão diferente: quem pode criar, transformar e agir dentro de um mundo digital?

De um lado, Axie Infinity resgata uma mecânica ligada aos primeiros anos do projeto. Do outro, a comunidade de Pirate Nation tenta construir algo novo após o fim do estúdio original. Além disso, MapleStory Universe usa IA para ajudar criadores a desenvolver jogos, enquanto EVE Frontier discute como agentes inteligentes podem existir dentro das mesmas regras que limitam os jogadores.

Assim, a propriedade digital continua relevante. Porém, a discussão começa a ganhar novas camadas. Ter um ativo é apenas parte da história quando comunidades, desenvolvedores externos e até sistemas de IA passam a participar diretamente da evolução desses universos.

Da propriedade digital à comunidade que continua construindo

O primeiro movimento vem de Axie Infinity, que prepara o retorno de uma mecânica criada ainda nos primeiros anos do ecossistema. A Sky Mavis reativará 1.375 Atia Original Crystals, conhecidos como AOC, permitindo que seus detentores criem novos Origin Axies.

Cada cinco cristais podem gerar um novo Origin. Além disso, cada uma das seis partes do Axie terá 7% de chance de se tornar Mystic, uma das categorias mais raras do jogo. Como esses atributos não podem ser obtidos pela reprodução tradicional, o retorno da mecânica reforça o valor histórico e a escassez desse grupo de colecionáveis.

O caso mostra uma característica particular dos jogos baseados em blockchain. Um item criado ou distribuído anos atrás pode continuar tendo uma função dentro de um ecossistema que permanece ativo. Nesse caso, os AOC passaram por diferentes fases, mudaram de rede e ficaram sem utilidade por um período. Agora, voltam a participar da economia do jogo.

Entretanto, propriedade digital não precisa significar apenas preservar ativos antigos. A notícia sobre Booty Wars apresenta uma possibilidade diferente: usar recursos liberados por um projeto encerrado para iniciar outra experiência.

Experiência menor e capaz de reter jogadores

Depois do fechamento da Proof of Play, parte dos ativos de Pirate Nation foi disponibilizada sob licença CC0. Com isso, um membro veterano da comunidade, conhecido como Murdoch, anúncio  o Booty Wars, projeto independente que pretende aproveitar esse material para criar um novo jogo de PvP.

A proposta, porém, não busca simplesmente lançar uma continuação oficial. O projeto não usará o token PIRATE nem herdará a antiga economia do jogo. Em vez disso, a equipe quer testar uma experiência menor e encontrar mecânicas capazes de reter jogadores antes de ampliar o projeto.

Dessa forma, as duas histórias mostram caminhos distintos para um mesmo debate. Axie Infinity mantém viva uma ligação entre ativos antigos e seu universo oficial. Já Booty Wars tenta provar que uma comunidade pode dar novos usos a elementos que sobreviveram ao encerramento de um estúdio.

MapleStory usa IA para testar o que faz um jogador voltar

A inteligência artificial também aparece nesta nova fase de participação, mas com uma mudança importante de foco. Depois de mostrar que ferramentas assistidas por IA podem ajudar mais pessoas a criar jogos, o MapleStory Universe agora quer descobrir se esses criadores conseguem produzir experiências que realmente mantenham os jogadores envolvidos.

A segunda temporada do Vibe Camp começou em 18 de agosto e seguirá até 15 de setembro. Desta vez, o desafio pede jogos “curtos, simples e tensos”, com partidas de um ou dois minutos, mecânicas fáceis de entender e ciclos de repetição que incentivem uma nova tentativa.

A mudança não é por acaso. A primeira edição recebeu 693 projetos e utilizou mais de 340 mil ativos oficiais de MapleStory. Além disso, as experiências criadas geraram mais de 88 mil sessões de jogo. O teste inicial, portanto, mostrou que a IA consegue reduzir barreiras técnicas e ajudar mais pessoas a transformar ideias em algo jogável.

Agora vem uma etapa mais difícil: criar algo que valha a pena jogar novamente.

Para isso, o MSU Space inclui uma AI Brainstorming Persona, desenvolvida para funcionar mais como uma parceira de design. Em vez de apenas gerar código ou recursos a partir de comandos, a ferramenta pode ajudar participantes a discutir mecânicas, testar ideias e refletir sobre estrutura, ritmo e funcionamento da experiência.

Essa diferença é importante porque criar um jogo funcional não significa, automaticamente, criar um jogo divertido. Uma pessoa pode produzir uma fase, um personagem ou um sistema básico com ajuda da IA. No entanto, fatores como dificuldade, feedback, ritmo e vontade de tentar novamente continuam exigindo decisões de design.

Portanto, o Vibe Camp 2 amplia a discussão sobre IA nos games. A pergunta deixa de ser apenas se a tecnologia consegue criar conteúdo. Agora, o desafio é entender se essas ferramentas também podem ajudar uma nova geração de criadores a compreender o que torna uma experiência realmente envolvente.

EVE Frontier quer colocar a IA dentro das regras do jogo

Entre as quatro notícias, talvez EVE Frontier apresente a virada mais curiosa. Enquanto muitos estúdios discutem IA principalmente como ferramenta para aumentar produtividade ou gerar conteúdo, o projeto IA, Automação e Agência na Fronteira” propõe pensar na tecnologia como algo que poderá agir dentro do próprio universo.

A ideia parte de um princípio simples: inteligência não deveria existir acima das regras do mundo. Em EVE Frontier, qualquer ação exige recursos, energia e acesso a informações. Assim, essa lógica também deveria valer para sistemas automatizados e agentes de IA.

Em vez de tentar combater toda forma de automação por meio de detecção e punição, a equipe discute a possibilidade de projetar o jogo considerando que essas ferramentas existirão. O objetivo seria impor os mesmos riscos e limites a humanos e máquinas. Combustível teria custo para todos, por exemplo. Da mesma forma, agentes precisariam explorar, escanear e lidar com informações imperfeitas antes de tomar decisões.

Essa visão pode mudar a forma como a indústria enxerga bots e automação. Naturalmente, EVE Frontier ainda está em desenvolvimento, e parte dessas ideias funciona mais como uma direção de design do que como um sistema finalizado. Mesmo assim, o conceito é claro: se a IA vai participar desses mundos, talvez o desafio não seja fingir que ela não existe.

Capacidade de criação e partipaçãoes de ações

A tecnologia também pode ajudar jogadores a criar modificações para o universo. EVE Frontier já permite que estruturas conhecidas como Smart Assemblies recebam lógica criada pela comunidade, enquanto ferramentas externas podem interagir com o ecossistema. Portanto, a IA aparece em duas frentes: pode ampliar a capacidade de criação e, no futuro, também participar de ações dentro do próprio mundo.

No fim, as quatro movimentações apontam para uma mudança maior. Os games Web3 começaram falando muito sobre quem possuía um item. Agora, alguns projetos parecem avançar para outra pergunta: quem pode criar, modificar e agir dentro desses mundos?

Jogadores podem preservar ativos históricos. Comunidades podem tentar construir novos projetos a partir de universos encerrados. Criadores sem experiência tradicional podem usar IA para desenvolver jogos. E, mais adiante, agentes inteligentes poderão receber espaço dentro de ecossistemas que também precisam estabelecer limites para sua atuação.

A discussão começa a ir além da posse de NFTs. Agora, o foco também está em quem pode criar, modificar e participar desses mundos — uma transformação que também aparece na evolução do código aberto nos games Web3.

Talvez essa seja a próxima fronteira dos games Web3: não um mundo sem regras ou sem operadores, mas universos onde mais participantes ganham ferramentas para ajudar a construir o que acontece dentro deles.