Brasil pode mobilizar R$ 30 trilhões com novas garantias e tecnologia, afirma superintendente da Susep

Em painel no Blockchain.RIO, representantes da CVM, Susep e Fenasbac discutiram como inovação tecnológica e regulação podem ampliar o acesso ao crédito 

A consolidação da duplicata escritural, o uso de recursos da previdência como garantia e a incorporação de imóveis a novos mecanismos de crédito podem mobilizar cerca de R$ 30 trilhões na economia brasileira. A projeção foi apresentada por Alessandro Octaviano, superintendente da Susep, durante painel realizado na última semana no Blockchain.RIO 2026.

Segundo Octaviano, a expansão desses instrumentos depende da combinação entre avanços tecnológicos e mudanças institucionais.

Vejam o tamanho da oportunidade que temos. O próprio Banco Central estima que, com a duplicata escritural plenamente organizada do ponto de vista tecnológico e institucional, poderemos passar de R$ 2 trilhões para R$ 13 trilhões mobilizados ao longo dessa jornada. Na outra ponta, o Marco Legal das Garantias e a Resolução Conjunta nº 12, que operacionaliza a utilização de recursos da previdência como garantia, representam outros R$ 2 trilhões”, afirmou.

O superintendente acrescentou que a utilização de imóveis como garantia poderia mobilizar aproximadamente R$ 16 trilhões em um cenário mais otimista.

Somando essas frentes, estamos falando de um potencial de cerca de R$ 30 trilhões a serem mobilizados na economia brasileira por meio de soluções que combinam avanços tecnológicos e institucionais”, disse.

A discussão ocorreu durante a sessão “A Convergência: como o Brasil construiu o ecossistema financeiro mais avançado do mundo”, realizada no Gov Stage. O painel também reuniu Marina Copola, diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e Rodrigo Henriques, diretor de Inovação da Fenasbac e moderador da conversa.

 

Inovação com estabilidade

Durante o painel, Marina Copola afirmou que a estrutura atual do sistema financeiro brasileiro é resultado de um processo histórico de fortalecimento institucional e regulatório. A diretora citou, entre outros marcos, a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro, no início dos anos 2000, e a capacidade demonstrada pelo país durante a crise financeira de 2008.

Eu não sei se diria que temos o sistema financeiro mais avançado do mundo, mas temos bases bastante resilientes. Essa construção não começou ontem. É muito comum que, diante de processos de inovação, tenhamos o ímpeto de questionar tudo o que já existe. Mas, para olhar para o futuro, também é importante compreender o passado”, afirmou.

Para a diretora da CVM, o momento atual apresenta desafios semelhantes aos observados durante as ondas de inovação financeira das décadas de 1970 e 1980.

Hoje, em 2026, estamos vivendo uma onda de inovação semelhante. O ponto agora é entender como manter a estabilidade financeira sem interferir na inovação, tratando a tecnologia de maneira mais agnóstica, mas preservando as salvaguardas quando elas forem úteis”, explicou.

Marina também defendeu que a atuação dos reguladores deve considerar as funções desempenhadas dentro do sistema financeiro, e não apenas os participantes responsáveis por elas.

O exercício que os reguladores precisam fazer está mais relacionado à discussão das funções do que dos participantes. Precisamos olhar para os serviços de depósito, custódia e escrituração, entender por que eles existem e avaliar até que ponto a tecnologia consegue desempenhar essas funções de maneira igual ou melhor”, afirmou.

Segundo ela, a separação entre determinados agentes também funciona como mecanismo de prevenção a conflitos de interesse.

Quem movimenta o ativo não deve ser necessariamente a mesma pessoa que atesta a existência daquele ativo”, exemplificou.

Recursos e capacidade regulatória

Ao abordar os obstáculos à modernização do sistema financeiro, Marina ressaltou que os desafios não são apenas conceituais ou tecnológicos. A capacidade operacional dos órgãos reguladores também será determinante para acompanhar a velocidade das transformações.

Os desafios teóricos já estão colocados para os reguladores. O que falta são recursos, pessoas e tempo. Falar sobre regulação sem incluir essa discussão acaba tornando o debate mais teórico do que prático”, concluiu.

O painel integrou a programação do Blockchain.RIO 2026, realizado de 11 a 13 de agosto. O evento reuniu representantes do setor público, órgãos reguladores, instituições financeiras, empresas de tecnologia e especialistas para discutir blockchain, tokenização, stablecoins, ativos digitais e a modernização da infraestrutura financeira.

 

SOBRE O BLOCKCHAIN.RIO

O Blockchain.RIO é uma das principais plataformas institucionais da América Latina dedicadas ao debate sobre blockchain, tokenização, stablecoins, ativos digitais, regulação e infraestrutura financeira digital.

A edição de 2026 será realizada de 12 a 14 de agosto, no Rio de Janeiro, com uma agenda estratégica formada pelo Financial Infrastructure Forum – LATAM, Blockchain Leaders e o Blockchain.RIO Main Event, além de experiências institucionais e eventos paralelos.

*Comunicado de imprensa