Ethereum propõe migração para assinaturas pós-quânticas
O Ethereum começou a preparar defesas contra uma ameaça que ainda não se concretizou, mas já preocupa o setor. Desenvolvedores propuseram um contrato de depósito preparado para uma futura transição à criptografia pós-quântica.
O contrato aceitaria chaves públicas de tamanho variável e metadados criptográficos. Com isso, a rede poderia incorporar sistemas de assinatura resistentes a computadores quânticos sem comprometer a infraestrutura atual.
A Wu Blockchain divulgou a proposta, que chegou ao repositório oficial do Ethereum em 24 de agosto. O plano também prevê um mecanismo incomum para uma rede descentralizada: um interruptor de migração irreversível.
Primeiro, o mecanismo permitiria ativar a nova estrutura. Depois, os desenvolvedores poderiam desabilitar permanentemente os depósitos baseados no atual sistema de assinaturas BLS, conforme a transição avançasse.
Por que a rede precisa alterar suas assinaturas
O problema está na criptografia usada atualmente pela rede. As assinaturas BLS dos validadores e os mecanismos que protegem contas dependem de estruturas matemáticas vulneráveis ao algoritmo de Shor.
Entretanto, esse ataque exigiria um computador quântico suficientemente poderoso e estável. Nenhuma máquina existente se aproxima dessa capacidade até o momento.
A discussão ganhou urgência em março, quando o Google Quantum AI publicou uma pesquisa sobre os recursos necessários para comprometer esse tipo de criptografia. O estudo estimou que um ataque poderia exigir cerca de 1.200 qubits lógicos, número inferior ao de projeções anteriores.
Mesmo assim, a ameaça permanece fora do alcance da tecnologia atual. As previsões mais agressivas situam um risco concreto perto do fim desta década, enquanto o próprio Google apontou 2029 como prazo para migrar seus sistemas.
Uma mudança coordenada no Ethereum, porém, não ocorreria rapidamente. A rede protege centenas de bilhões de dólares e depende da atuação conjunta de desenvolvedores, validadores, carteiras e outros participantes.
Por esse motivo, os responsáveis pela proposta querem deixar a arquitetura preparada com anos de antecedência. Essa abordagem reduziria os riscos operacionais caso a computação quântica avance mais rápido que o esperado.
Contrato não torna o Ethereum pós-quântico
O alcance da proposta exige uma distinção importante. Embora prepare o contrato para novos algoritmos, a iniciativa não torna o Ethereum resistente a computadores quânticos por conta própria.
O plano substituiria o antigo mecanismo de árvore de Merkle do contrato de depósito por um sistema de solicitações na camada de execução. Também criaria uma estrutura capaz de reconhecer diferentes algoritmos por meio de identificadores de esquema.
Nesse modelo, o plano reserva o “Esquema 0” aos depósitos atuais. Outros identificadores poderiam representar sistemas criptográficos adicionados durante a migração.
A rede ainda precisaria de uma mudança separada na camada de consenso. Essa atualização definiria como os validadores verificariam e processariam as assinaturas associadas a cada esquema.
Fundação Ethereum prepara transição gradual
A iniciativa integra um esforço mais amplo organizado pela Fundação Ethereum desde o início do ano. Nesse período, a entidade criou uma equipe dedicada à segurança pós-quântica.
Vitalik Buterin também publicou um roteiro com quatro frentes criptográficas que exigem proteção. Dessa maneira, o contrato de depósito representa apenas uma parte de uma transição técnica mais extensa.
A estratégia prioriza uma migração gradual e preserva a liberdade de escolha. Assim, usuários e carteiras interessados em proteção antecipada poderiam adotá-la voluntariamente enquanto a mudança completa avançasse.
Ethereum e Bitcoin adotam ritmos diferentes
O movimento contrasta com o ritmo do Bitcoin, cuja cultura conservadora faz com que atualizações relevantes passem por debates prolongados. Essa característica voltou ao centro das discussões após a retomada de uma antiga resposta de Satoshi Nakamoto sobre a ameaça quântica.
Em contrapartida, o Ethereum costuma avançar com mais rapidez na preparação de mudanças técnicas. Ainda assim, nenhuma das duas redes consegue garantir que suas defesas estarão prontas antes que a ameaça deixe de ser hipotética.