Stablecoins: JPMorgan Chase e Santander avançam em projetos

As stablecoins estão deixando as margens do setor financeiro e chegando aos sistemas convencionais de pagamentos. Com isso, bancos tradicionais reconsideram uma tecnologia que antes tratavam principalmente como ameaça.

Algumas grandes instituições agora avaliam criar suas próprias stablecoins. Outras desenvolvem depósitos tokenizados para incorporar a blockchain aos serviços bancários tradicionais. Antes, muitos bancos resistiam a esses modelos por temer a perda do controle sobre depósitos e pagamentos.

Stablecoins pressionam os depósitos bancários

As stablecoins buscam manter um valor estável e operam em redes blockchain. Em geral, elas permitem transferências digitais sem depender da infraestrutura convencional de uma conta bancária.

Quando os clientes mantêm dinheiro em contas, os bancos usam esses depósitos para financiar empréstimos e outras operações. Nesse cenário, a migração de recursos para stablecoins pode reduzir uma fonte direta de financiamento das instituições.

Isso não significa necessariamente que todos os recursos desapareçam do sistema financeiro. Contudo, o banco que perde o depósito deixa de controlar diretamente esse relacionamento e parte da atividade de pagamentos.

Ao mesmo tempo, as stablecoins ganharam utilidade além da negociação de criptomoedas. Visa, BlackRock, Google e DoorDash já participam desse movimento em pagamentos corporativos, transferências internacionais e comércio eletrônico.

Depósitos tokenizados mantêm recursos nas instituições

Para reagir, os bancos recorrem aos depósitos tokenizados. Nesse modelo, uma representação digital do depósito circula em uma blockchain, enquanto o dinheiro permanece sob responsabilidade da instituição.

Assim, os recursos continuam no balanço do banco. Eles também seguem as regras aplicáveis de regulação, contabilidade e risco de crédito dos depósitos convencionais.

O JPMorgan Chase já utiliza o JPM Coin em sua infraestrutura blockchain. Além disso, outros bancos desenvolvem sistemas próprios para oferecer depósitos tokenizados e liquidação digital.

Stablecoins circulam por diferentes blockchains

Por outro lado, as stablecoins apresentam uma vantagem relevante sobre muitos depósitos tokenizados: a circulação entre diferentes ecossistemas. Emissores podem disponibilizar versões de uma mesma stablecoin em redes como Ethereum e Solana.

Na prática, os usuários conseguem movimentar dólares digitais sem permanecer vinculados ao sistema de um único banco. Essas redes também funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana.

As stablecoins ainda interagem com programas automatizados em blockchain. Desenvolvedores chamam esses programas de contratos inteligentes. Por isso, elas atendem pagamentos online, transações globais e aplicações de finanças descentralizadas, ou DeFi.

Já os depósitos tokenizados costumam operar em redes bancárias privadas. Consequentemente, uma representação emitida por um banco pode não funcionar na infraestrutura de outra instituição.

Seguro de depósitos mantém diferença relevante

Os depósitos bancários ainda oferecem uma vantagem importante: a proteção institucional. Nos Estados Unidos, depósitos elegíveis contam com o seguro da Federal Deposit Insurance Corporation, sujeito a limites e condições específicas.

As stablecoins não oferecem esse mesmo seguro de depósitos. Ainda assim, seus defensores não pretendem apenas reproduzir uma conta corrente em uma blockchain.

Nesse sentido, a proposta busca criar dólares digitais que circulem globalmente e funcionem com aplicações baseadas em blockchain. Portanto, esses instrumentos atendem necessidades diferentes daquelas cobertas pelos serviços bancários convencionais.

Bancos se preparam para a coexistência dos modelos

Agora, os bancos deixaram de tratar o futuro como uma escolha entre stablecoins e depósitos tradicionais. Em vez disso, eles se preparam para operar com os dois formatos.

Bank of America, Wells Fargo e Santander trabalham em um projeto de stablecoin voltado ao uso empresarial. Enquanto isso, a BankChain Alliance pretende desenvolver sistemas blockchain para depósitos tokenizados e stablecoins.

A aliança reúne dezenas de grupos bancários estaduais, que representam milhares de bancos. Dessa maneira, o movimento indica uma preparação para um cenário no qual os dois tipos de dinheiro digital coexistam.

A disputa envolve mais do que o mercado de criptomoedas. Cada vez mais, ela se concentra em quem controlará a infraestrutura usada para movimentar dinheiro.

Ao mesmo tempo, os bancos querem aproveitar a blockchain sem retirar depósitos, empréstimos e pagamentos do sistema tradicional. Em contrapartida, empresas de stablecoins constroem redes de dólares digitais em blockchains públicas e fora das estruturas bancárias convencionais.

Nesse possível arranjo híbrido, cada formato atenderia necessidades específicas:

  • Depósitos tokenizados apoiariam atividades bancárias tradicionais e reguladas.
  • Stablecoins atenderiam operações que exigem movimentação rápida entre blockchains.

Assim, as stablecoins deixaram de representar apenas um produto ligado às criptomoedas. Elas se tornaram concorrentes relevantes na disputa pela infraestrutura dos pagamentos. Os bancos, por sua vez, buscam participar dessa transformação sem abrir mão dos depósitos dos clientes.