Bitcoin sob pressão do Federal Reserve e Tesouro dos EUA
A recente alta do Bitcoin coincidiu com uma mudança nas operações do Tesouro dos Estados Unidos. Em 19 de agosto, o departamento anunciou uma ampliação nas recompras de determinados títulos públicos. A partir de 9 de setembro, o teto de operações selecionadas para papéis entre 10 e 30 anos ao menos dobraria. Assim, o limite passaria de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação.
Na prática, o Tesouro passou a oferecer mais espaço para a compra de títulos antigos de longo prazo mantidos por dealers. O órgão detalhou a medida em um comunicado oficial. Contudo, a iniciativa não reduz diretamente o total da dívida pública em circulação. No mesmo dia, o Federal Reserve divulgou a ata de sua reunião de julho. Três integrantes defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual, enquanto muitos participantes admitiram outro aumento caso a inflação não recue.
Políticas do Fed e do Tesouro afetam o Bitcoin
O banco central manteve a faixa de juros entre 3,50% e 3,75%. Ainda assim, o debate passou da duração dos juros elevados para a possibilidade de novas altas. O Fed tenta encarecer o dinheiro em toda a economia. Enquanto isso, o Tesouro busca facilitar a negociação de títulos antigos sem alterar diretamente a política monetária.
O rendimento do título de 30 anos fechou em 5,28% em 18 de agosto. No dia do anúncio, recuou para 5,19%, mas retornou a 5,27% em 2 de setembro. Os dados diários do Tesouro registraram essas oscilações antes do início das recompras ampliadas. Portanto, outras forças também influenciaram os rendimentos durante o período.
Juros reais aumentam o custo de oportunidade
Os juros de curto prazo respondem mais diretamente às decisões do Federal Reserve. A nota operacional de julho fixou em 3,65% a remuneração sobre os saldos de reservas. Dessa forma, os bancos encontram pouco incentivo para emprestar recursos de um dia para o outro por taxas muito menores. Essa remuneração ajuda o Fed a transmitir sua política ao restante do sistema financeiro.
Já o rendimento de 30 anos depende de fatores mais amplos. Investidores estimam a média dos juros curtos nas próximas décadas e consideram riscos fiscais e inflacionários. Além disso, eles exigem uma compensação pela incerteza de manter recursos comprometidos por tanto tempo. Economistas chamam essa parcela adicional de prêmio de prazo.
A ata indicou que os rendimentos nominais avançaram entre 25 e 30 pontos-base durante a janela da reunião de julho. O movimento ocorreu principalmente por causa dos juros reais, enquanto as expectativas de inflação variaram menos. Nesse contexto, o mercado precificava uma alta de 0,25 ponto percentual até setembro. Outra elevação também aparecia nas projeções para o fim do primeiro trimestre de 2027.
Para o Bitcoin, juros reais elevados aumentam o retorno disponível em aplicações com baixo risco de crédito. Como o Bitcoin não oferece rendimento contratual, títulos públicos mais rentáveis ampliam seu custo de oportunidade. Ao mesmo tempo, essa dinâmica pressiona ações de tecnologia avaliadas com base em lucros esperados no longo prazo. Assim, uma política monetária mais restritiva costuma reduzir o apetite por investimentos voláteis.
Recompras do Tesouro não eliminam a dívida
As recompras podem sugerir que o governo retira dívida do mercado. Contudo, a operação troca uma obrigação por outra. O Tesouro vende novos papéis de referência e utiliza parte do caixa para recomprar emissões antigas. Logo, o governo continua responsável pela dívida que substitui os títulos retirados.
Os títulos mais recentes funcionam como referências correntes de preços e rendimentos. Em contrapartida, papéis antigos podem perder liquidez e ocupar espaço limitado nos balanços dos dealers. O mercado chama essas emissões antigas de off-the-run. As recompras ajudam os intermediários a movimentar inventários que encontram menos compradores.
O programa também difere do afrouxamento quantitativo. Quando amplia seu balanço, o Federal Reserve cria saldos de reservas e compra títulos como parte da política monetária. Já o Tesouro utiliza recursos de sua própria conta, que repõe por impostos ou endividamento. Por isso, as recompras melhoram a infraestrutura de negociação, mas não representam uma injeção monetária equivalente.
Escala das operações permanece limitada
O plano de refinanciamento de 5 de agosto previa até US$ 38 bilhões em recompras de títulos off-the-run no trimestre. Além disso, o Tesouro reservou até US$ 25 bilhões para compras de papéis curtos voltadas à gestão de caixa. Duas semanas depois, o departamento elevou o teto de determinadas operações de longo prazo. No entanto, o órgão ainda não havia publicado um total trimestral revisado.
O Tesouro também projetou US$ 739 bilhões em captação líquida no mercado privado entre julho e setembro. Em seguida, a previsão apontou mais US$ 628 bilhões entre outubro e dezembro. O planejamento de captação mostra a dimensão da necessidade de financiamento federal. Desse modo, a nova emissão de dívida supera amplamente o alcance das recompras individuais.
O mesmo plano incluiu um pacote de US$ 125 bilhões em títulos de 3, 10 e 30 anos. Uma recompra de US$ 4 bilhões pode aliviar os balanços dos dealers. Entretanto, ela não neutraliza centenas de bilhões de dólares em novas captações. A oferta ampla de dívida continua determinante para a formação dos rendimentos.
Déficits e liquidez definem o cenário
Os juros longos refletem várias pressões simultâneas. Déficits federais disputam uma reserva limitada de poupança, enquanto investimentos em inteligência artificial exigem capital para infraestrutura e energia. Além disso, investidores precisam avaliar décadas de inflação, crescimento econômico e risco político. Nem o Fed nem o Tesouro controlam isoladamente o rendimento de 30 anos.
O Bitcoin costuma sentir primeiro os efeitos das decisões do banco central. Uma trajetória de juros mais alta torna o caixa atraente, fortalece o dólar e encarece posições alavancadas. Por outro lado, o Tesouro afeta o mercado por meio da liquidez e da credibilidade fiscal. Emissões pesadas podem direcionar recursos para leilões públicos e reduzir o espaço disponível para investimentos de maior risco.
No longo prazo, déficits persistentes podem fortalecer a tese de escassez associada ao Bitcoin. Apesar disso, essa dinâmica avança mais lentamente que uma reprecificação dos títulos públicos. O Bitcoin pode acompanhar outros investimentos de risco durante uma alta dos juros reais. Posteriormente, preocupações fiscais podem renovar a demanda por alternativas fora do balanço soberano.
Cenários possíveis para o mercado
No cenário-base, juros reais elevados e estáveis mantêm o Bitcoin entre o custo de oportunidade e a demanda por proteção fiscal. Caso as expectativas de novas altas diminuam, o apetite por risco pode melhorar. Ao mesmo tempo, recompras maiores podem oferecer apoio marginal à liquidez dos Treasuries. Essa combinação criaria um ambiente mais favorável ao Bitcoin.
Em um cenário pessimista, juros reais ainda mais altos pressionariam a avaliação do Bitcoin e de outros investimentos de longa duração. Já uma disparada desordenada dos rendimentos poderia prejudicar toda a infraestrutura de mercado. Nesse caso, o Bitcoin poderia cair primeiro com os investimentos de risco. Depois, a preocupação com a dívida soberana poderia recuperar parte de sua atratividade.
O rendimento de dois anos incorpora grande parte da trajetória esperada para os juros do Fed. Em contrapartida, os títulos de 10 e 30 anos também refletem oferta de dívida e prêmio de prazo. As reservas bancárias revelam o espaço de financiamento do sistema, enquanto a Conta Geral do Tesouro acompanha os fluxos do governo. Nesse ambiente, o desempenho do Bitcoin depende do equilíbrio entre juros reais, oferta de dívida e condições de liquidez.