Tokenização amplia negociações fora de Wall Street
Contratos futuros perpétuos ligados aos mercados tradicionais responderam por 37% do volume de perpétuos da Binance em agosto. Em uma amostra recente de 24 horas, esses produtos ocuparam dez dos 15 contratos mais negociados na plataforma. Nesse período, o contrato SNDK superou o BTC-USDT em volume. Os números constam em dados que a Binance Research publicou no X.
Assim, a exposição a empresas listadas nos Estados Unidos já representa uma parcela relevante das negociações em uma corretora de criptomoedas. Ainda assim, essa atividade não saiu necessariamente do pregão de uma bolsa tradicional. A discussão central envolve saber se a tokenização amplia o mercado disponível ou apenas desloca liquidez entre plataformas.

Liquidez desafia a expansão das negociações
O argumento de soma zero para ações on-chain possui fundamentos. Afinal, a liquidez concorre entre plataformas, enquanto a fragmentação aumenta custos e dificulta a execução. Por isso, operadores estabelecidos afirmam que novos ambientes podem dividir um mercado existente, em vez de ampliá-lo. A expansão dos horários de negociação reforça esse debate.
O presidente da Nasdaq, Tal Cohen, alertou para menor liquidez, maior volatilidade e custos de transação. Contudo, as plataformas favoráveis aos horários estendidos reconhecem esse risco. Para elas, o desafio estrutural consiste em criar liquidez duradoura fora do pregão regular.
"Estender o horário de mercado é a parte operacional; criar liquidez duradoura durante essas horas é o desafio estrutural", afirmou Shunyet Jan, chefe de Exchange & Trading da Binance. "Participantes globais, especialmente aqueles ativos quando Nova York fecha, são uma fonte natural dessa liquidez."
De acordo com Jan, quase metade do volume de ações tokenizadas da plataforma ocorre fora do horário de negociação dos Estados Unidos. Dessa forma, regiões e fusos horários pouco atendidos pelas sessões tradicionais podem ampliar o acesso a instrumentos ligados ao mercado americano. Jan também afirmou que regras claras aumentam a confiança das instituições para participar e desenvolver novos produtos.
Horário e localização ajudam a distinguir novos participantes de investidores que apenas mudaram de plataforma. Nos Estados Unidos, 80,7% da semana ocorre fora do pregão regular de ações. Portanto, a maior parte do calendário não coincide com as sessões tradicionais de negociação.
Mercado noturno ainda movimenta pouco volume
Essa ampla janela concentrou somente 10,8% do volume de ações dos Estados Unidos em julho de 2026. Por outro lado, a sessão regular reteve 89,2% das negociações. A atividade noturna em sistemas alternativos de negociação registrou uma participação ainda menor.
Uma pesquisa da NYSE indicou que esses sistemas responderam por menos de 0,11% do volume total de ações americanas. Em um dia de junho, eles negociaram, em média, 1.403 símbolos. Esse total corresponde a cerca de 12% dos títulos listados. Logo, havia pouco fluxo noturno disponível para outras plataformas capturarem.

O mercado noturno também não funciona como uma versão reduzida do pregão diurno. Produtos negociados em bolsa representam 61% do volume noturno, ante 21% durante o horário principal. Enquanto isso, ações abaixo de US$ 1 correspondem a 2,7% do volume noturno. Nas horas centrais, essa participação chega a 13,5%.
Em outras palavras, o livro noturno apresenta menos liquidez e uma composição diferente. Investidores que compram grandes empresas americanas durante a madrugada não disputam necessariamente um fluxo que já existia nesse horário. Com apenas 0,11% do volume total, o mercado oferecia pouca atividade para deslocamento.
Crescimento indica expansão do mercado tokenizado
A diferença entre expansão e rotação também aparece nos dados dos emissores. Em julho, a bStocks registrou cerca de US$ 7,4 bilhões em volume em DEX. O montante representou 85% das negociações de ações tokenizadas em exchanges descentralizadas. Os dados constam em uma análise da Binance Research.
No mesmo mês, o volume setorial em DEX avançou de aproximadamente US$ 2,9 bilhões para US$ 8,8 bilhões. Entretanto, o volume do líder anterior permaneceu praticamente estável. Esse comportamento sugere uma expansão do mercado disponível, em vez de uma simples redistribuição entre plataformas.

Os dados sobre usuários apontam na mesma direção. A Binance informou que 41,5% dos usuários da bStocks iniciaram sua jornada de investimento em finanças tradicionais pelo próprio produto. Desse modo, esses participantes parecem ingressar no mercado, em vez de apenas trocar uma plataforma por outra.
O volume mensal de fim de semana em perpétuos atrelados a instrumentos tradicionais também avançou. O montante subiu de cerca de US$ 4,5 bilhões para US$ 28 bilhões em meados de agosto de 2026. O levantamento considera as negociações realizadas em exchanges de criptomoedas. Como as bolsas tradicionais fecham nesses dias, a atividade ocorreu em um período sem pregão convencional.
Escala ainda limita a comparação entre mercados
Apesar dos sinais de expansão, o segmento ainda possui escala reduzida. O volume combinado da bStocks equivale a 0,3% das negociações das ações e dos ETFs subjacentes. Seis semanas antes, essa participação alcançava apenas 0,01%. Para chegar a 10%, o volume atual precisaria crescer outras 33,4 vezes.
A composição dos participantes também pode alterar essa dinâmica. Dados da Wintermute divulgados pela Bloomberg mostram que instituições responderam por 72% do volume à vista de uma grande mesa de balcão. O levantamento considera o primeiro semestre de 2026. Um ano antes, essa parcela correspondia a 59%.
Ao longo de dois anos, contrapartes profissionais ampliaram em 24% a variedade de instrumentos negociados. Já o varejo expandiu esse conjunto em 76%. Porém, instituições costumam priorizar a qualidade de execução. Esse comportamento pode aproximar os mercados e ampliar a disputa pelo mesmo fluxo.
Por enquanto, a participação de 0,3% mostra que essa sobreposição continua limitada. As evidências disponíveis apontam novos horários, regiões e participantes antes ausentes do mercado. Nesse estágio, a tokenização parece ampliar o universo negociado, enquanto os dois segmentos mantêm pouca sobreposição.