ESMA propõe restringir custódia de stablecoins na UE
A Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) propôs ampliar as restrições da União Europeia a stablecoins fora das exigências do MiCA. A medida alcançaria negociação, custódia e transferências oferecidas por empresas licenciadas. Assim, investidores poderiam perder a opção de manter esses saldos com um custodiante regulado.
Na resposta de 30 de setembro de 2026 à revisão do MiCA, a ESMA pediu uma proibição abrangente. O órgão quer impedir serviços licenciáveis relacionados a stablecoins que não cumpram os requisitos aplicáveis. Por isso, a proposta afetaria compradores e detentores que já deixaram de negociar esses instrumentos.
Stablecoins podem perder serviços regulados
A iniciativa avança além da posição adotada pela ESMA em janeiro de 2025. Naquele momento, a autoridade aceitava a continuidade da custódia e das transferências após restrições à negociação. Contudo, a nova proposta não estabelece conversão obrigatória, prazo de saída ou mudança global na demanda.
Em uma declaração de 17 de janeiro de 2025, a ESMA separou a negociação da simples guarda ou transferência. As plataformas deveriam suspender a negociação de instrumentos não conformes. Além disso, outros serviços precisariam terminar quando configurassem uma oferta pública.
A transição anterior previa restrições à aquisição até o fim de janeiro de 2025. Enquanto isso, serviços temporários de venda poderiam continuar até o encerramento daquele trimestre. Para o investidor, essa distinção permitia proteger ou retirar um saldo existente após a deslistagem.
Proposta elimina distinção entre serviços
Em março de 2025, a Binance anunciou a retirada de pares de nove stablecoins para usuários do Espaço Econômico Europeu. A empresa planejava concluir a medida até 31 de março. No entanto, depósitos, saques, conversões e custódia continuariam disponíveis.
A proposta de setembro substituiria essa análise individual por um teste mais amplo de conformidade. Segundo a ESMA, a ausência de uma proibição clara diferencia emissores conformes e não conformes. Dessa forma, o modelo atual também poderia facilitar a arbitragem regulatória.
As definições do Artigo 3 do MiCA abrangem a proteção ou o controle dos criptoativos de clientes. A regra também inclui os meios de acesso, como chaves privadas. Já o Artigo 82 estabelece exigências contratuais para transferências entre endereços ou contas.
Por sua vez, as permissões do prestador não definem a conformidade de cada stablecoin. O Artigo 59 exige autorização para a prestação de serviços com criptoativos. Portanto, a licença de uma empresa não garante atendimento irrestrito a qualquer stablecoin.
Propriedade individual não seria proibida
Se o texto virar lei sem exceções, deixar de negociar não afastaria a restrição. Nesse cenário, a manutenção do saldo por um custodiante também ficaria abrangida. Ainda assim, a proposta não proíbe a propriedade individual, não determina congelamentos e não exige conversão compulsória.

Fonte: resposta da ESMA à consulta da Comissão Europeia.
A resposta da ESMA representa uma contribuição regulatória, e não uma mudança já aprovada. A consulta da Comissão Europeia terminou em 30 de setembro. Conforme a página oficial, o relatório de revisão poderá receber uma proposta legislativa, caso seja necessário.
Regras de saída continuam indefinidas
A seção 3.2 do documento não apresenta data de implementação, exceção para retiradas ou mecanismo de encerramento. Essa lacuna importa porque o fim da custódia exige a devolução dos saldos controlados pelo prestador. Ao mesmo tempo, a proibição sugerida também alcançaria os serviços de transferência.
As regras atuais oferecem um ponto de partida para solucionar a questão. O Artigo 75 exige procedimentos para devolver rapidamente os criptoativos ou seus meios de acesso. Além disso, o prestador deve manter os recursos dos clientes separados de seus próprios bens.
Uma resposta da Comissão Europeia publicada pela ESMA, de 18 de fevereiro de 2026, trata dos saques. O prestador deve devolver o mesmo tipo de instrumento mantido pelo cliente. Porém, pode oferecer conversão para moeda fiduciária ou outro criptoativo quando o cliente solicitar.
Nesse caso, a empresa também precisa de autorização para prestar o serviço adicional. Apesar disso, a interpretação não esclarece como uma futura proibição geral trataria as saídas. Com isso, os legisladores precisariam conciliar a vedação com a obrigação de devolver os saldos.
Volume negociado não revela saldos em custódia
As deslistagens anteriores mostram que a negociação europeia pode mudar sem impacto equivalente no mercado global. Em um estudo de julho de 2026, Nicola Borri e Kirill Shakhnov analisaram USDT e USDC. A pesquisa reuniu 14 corretoras selecionadas entre as 30 maiores da CoinMarketCap.
Os dados diários de volume por par vieram da CryptoCompare. A amostra cobriu o período entre 1º de janeiro de 2024 e 7 de dezembro de 2025. Em seguida, os autores separaram as plataformas reguladas das consideradas globais.
Bitstamp, Coinbase, Gemini e Kraken formaram o grupo voltado a mercados regulados. As quatro registravam participação de público da União Europeia e dos Estados Unidos acima de 10%, conforme o Similarweb. Em contrapartida, outras dez plataformas integraram o grupo global, incluindo a Binance.
USDC ganhou espaço com retração do USDT
Em torno de 1º de abril de 2025, o estudo estimou alta de seis pontos percentuais na participação do USDC. O cálculo considerou o volume combinado de USDT e USDC nas plataformas reguladas em relação às globais. Entretanto, a estimativa cobriu uma janela de apenas 30 dias.
Os pesquisadores também estimaram queda próxima de 20% no volume de USDT nas plataformas reguladas. A comparação usou as corretoras globais como referência. Já a estimativa para o volume de USDC não apresentou significância estatística.
Logo, o USDC ganhou participação principalmente pela contração do USDT, e não por uma expansão comprovada de suas negociações. As razões agregadas entre os volumes das duas stablecoins permaneceram quase estáveis. Sobretudo, os dados medem o giro nas corretoras analisadas, não os saldos mantidos em custódia.
Os documentos também não calculam os valores que uma futura restrição poderia atingir. Se aprovada, a medida preservaria serviços regulados para stablecoins conformes. Por outro lado, o texto final, a data de aplicação e o tratamento dos saldos definirão como ocorrerá a saída dos clientes.
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