Treasuries pressionam Bitcoin com juros desde 2002
Treasuries dos Estados Unidos voltaram ao centro do debate macro nesta terça-feira, 6 de outubro de 2026, após a taxa do título de 10 anos tocar recentemente 5,34%, nível associado ao maior patamar desde 2002. O movimento reacendeu comparações com 1999, mas a UBS rejeita uma leitura mecânica entre a bolha pontocom e o atual ciclo de investimentos em inteligência artificial.
A publicação do perfil de mercado DeItaone, no X, resumiu a avaliação atribuída a Ulrike Hoffmann-Burchardi, CIO para as Américas da UBS Wealth Management. Segundo a análise citada pelo Investing.com, o paralelo com 1999 ajuda a enquadrar o debate, mas não explica sozinho o mercado atual.
Naquele período, o rendimento de 10 anos se aproximou de 5,8% antes do estouro da bolha da internet. Agora, a UBS vê diferenças relevantes em inflação, crescimento e, principalmente, no quadro fiscal dos Estados Unidos.
Juros longos elevam o custo do risco
O ponto mais sensível para Bitcoin e criptoativos está na alta dos juros longos. De acordo com a publicação H.15 do Federal Reserve, o rendimento do Treasury de 10 anos marcou 5,29% em 30 de setembro e 5,28% em 2 de outubro. Além disso, o rendimento de 30 anos chegou a 5,63% em 2 de outubro.
Esse ambiente aumenta a taxa usada por investidores para descontar fluxos futuros. Por isso, ativos de crescimento, ações de tecnologia e criptomoedas tendem a enfrentar mais pressão quando títulos públicos oferecem retorno maior com menor risco percebido.
Ainda assim, o impacto sobre o mercado cripto não ocorre de forma automática. Bitcoin também reage a fluxos em ETFs, liquidez global, força do dólar e expectativas sobre o Federal Reserve.
No momento da redação, o Bitcoin era negociado perto de US$ 86.355, com leve alta intradiária. O Ethereum oscilava em torno de US$ 2.715. Assim, o mercado cripto mantinha resiliência no curto prazo, embora operasse sob um custo de oportunidade mais alto.
Para acompanhar outras leituras macro que afetam criptoativos, o leitor pode consultar a busca por bitcoin juros no Webitcoin.
Por que a UBS evita a comparação com 1999
A UBS reconhece semelhanças entre os dois ciclos. Em 1999, empresas de telecomunicações lideravam um forte investimento em redes e infraestrutura digital. Hoje, companhias de tecnologia e provedores de nuvem ampliam gastos com data centers, chips e energia para sustentar a expansão da inteligência artificial.
No entanto, a diferença fiscal muda a leitura. O Congressional Budget Office projetou déficit federal de US$ 1,9 trilhão no ano fiscal de 2026, equivalente a 5,8% do PIB. O órgão também estima que a dívida federal em poder do público suba de 101% do PIB em 2026 para 120% em 2036.
Esse pano de fundo explica a frase atribuída à UBS: em 1999, duração era escassa; hoje, duração é abundante. Em termos práticos, o mercado precisa absorver mais dívida de longo prazo. Consequentemente, investidores podem exigir prêmio maior para comprar esses papéis.
Tesouro reforça recompra de títulos longos
O Tesouro americano já havia anunciado aumento nas operações de recompra voltadas a títulos nominais de longo prazo. Segundo comunicado do U.S. Department of the Treasury, o limite por operação nos setores de 10 a 20 anos e 20 a 30 anos passaria de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro de 2026.
Mesmo assim, a medida busca apoiar liquidez e não elimina a necessidade de financiamento do governo. Portanto, a pressão sobre os Treasuries continua relevante para investidores em renda variável, crédito, dólar e criptoativos.
O que muda para Bitcoin
Para o Bitcoin, a mensagem principal é que a narrativa de liquidez segue condicionada pelos juros dos Estados Unidos. Quando os Treasuries longos sobem, parte do capital global tende a buscar instrumentos considerados mais seguros.
Ao mesmo tempo, a tensão fiscal alimenta uma tese usada por parte do mercado cripto: a busca por ativos escassos fora do sistema de dívida soberana. Essa leitura, porém, representa uma interpretação de investidores e não substitui o efeito imediato dos juros altos sobre a alocação de portfólio.
Assim, a análise da UBS não trata a alta dos rendimentos como uma repetição de 1999. O ponto central é outro: o mercado atual combina inteligência artificial, déficits elevados e oferta abundante de dívida longa. Para Bitcoin e demais criptoativos, essa combinação aumenta a importância dos próximos dados de inflação, das comunicações do Federal Reserve e da demanda por Treasuries nas próximas emissões.
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