Ibovespa despenca 18,12% na semana após reeleição de Lula
O Ibovespa encerrou a semana de 26 a 30 de outubro de 2026 com queda de 18,12%, aos 167.921,80 pontos. A forte desvalorização ocorreu após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e marcou a pior semana da Bolsa desde março de 2020. Segundo levantamento da Elos Ayta com dados da B3, esta foi a 5ª maior queda semanal do Ibovespa desde o Plano Real (empatando com a semana dos atentados de 11 de setembro de 2001). O dólar também disparou, enquanto os juros futuros avançaram diante da preocupação com a política fiscal do próximo mandato.
Abaixo está o gráfico com a trajetória diária do índice ao longo do período:

Fonte: Google
A reação começou na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno presidencial. O Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608,23 pontos, e chegou a recuar mais de 17% durante a sessão. A intensidade da queda levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de forte desvalorização. Desde então, o índice acumulou mais quatro sessões negativas.
Reprecificação eleitoral provoca forte correção na Bolsa
Antes da votação, investidores haviam ampliado posições em ações brasileiras diante da expectativa de uma possível mudança de governo. Parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que liderava levantamentos eleitorais, e projetava uma condução econômica com maior compromisso fiscal. Entretanto, a reeleição de Lula alterou essas expectativas e provocou uma revisão abrupta dos preços dos ativos.
O movimento não representou apenas uma reação pontual ao resultado das urnas. Na avaliação dos investidores, a falta de sinalizações claras sobre a equipe econômica e a trajetória das contas públicas aumentou a percepção de risco. Portanto, a pressão atingiu ações, câmbio e renda fixa ao mesmo tempo, em um processo de ajuste das posições construídas antes da eleição.
Na segunda-feira, o dólar comercial avançou 8,21%, para R$ 5,403, enquanto o Ibovespa perdeu quase 14%. A moeda chegou a R$ 5,6049 durante a manhã, mas reduziu parte dos ganhos até o fechamento. Ainda assim, a disparada evidenciou a intensidade da procura por proteção cambial e da redução da exposição ao risco brasileiro.
Ao longo da semana, a pressão persistiu. Na sexta-feira (30), o índice recuou mais 0,75%, aos 167.921,80 pontos, completando cinco pregões consecutivos de baixa. Dessa forma, a perda semanal chegou a 18,12%, equivalente à registrada na semana dos atentados de 11 de setembro de 2001, com duas casas decimais. O episódio, contudo, teve a maior queda semanal desde março de 2020, durante o início da pandemia de Covid-19.
Dólar registra maior alta semanal desde 2008
O mercado cambial refletiu a reprecificação do risco brasileiro. Na sexta-feira, o dólar à vista subiu 1,05%, fechando a R$ 5,4443. Com isso, acumulou valorização de 9,04% na semana, o maior avanço semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira internacional.
A alta ocorreu mesmo diante de um cenário externo que, em determinados momentos, ofereceu condições menos desfavoráveis à moeda brasileira. Esse comportamento reforçou a percepção de que fatores domésticos tiveram papel central na pressão sobre o real. Entre eles, destacaram-se a preocupação com o equilíbrio fiscal, a saída de recursos estrangeiros e o desmonte de posições cambiais.
Além disso, a incerteza sobre o futuro ministro da Fazenda e sobre o cumprimento das metas fiscais manteve os investidores atentos à curva de juros. Os contratos futuros avançaram de forma expressiva, com o DI para janeiro de 2031 ultrapassando 15,15%. A elevação dos vencimentos longos indica que o mercado passou a exigir remuneração maior para assumir riscos associados ao cenário econômico brasileiro.
Juros mais altos também alteram as perspectivas para empresas e consumidores. O custo de financiamento aumenta, o crédito tende a ficar mais caro e as companhias enfrentam condições menos favoráveis para investir. Consequentemente, a renda variável perde atratividade, sobretudo nos setores que dependem do consumo doméstico e de condições financeiras mais acessíveis.
Empresas domésticas sofrem e exportadoras resistem
A correção atingiu principalmente empresas que haviam se valorizado durante o período de apostas em uma possível alternância de poder. Varejo, construção civil, locação de veículos e outros segmentos ligados à economia doméstica enfrentaram forte pressão. Essas companhias costumam apresentar maior sensibilidade ao custo do crédito e às expectativas sobre a atividade econômica.
O setor financeiro também sofreu com a abertura da curva de juros. Taxas mais elevadas podem pressionar a inadimplência, aumentar provisões contra perdas de crédito e reduzir margens de instituições que apresentam descasamento entre captação e remuneração de suas carteiras. No caso de bancos estatais, investidores também consideraram o risco de interferência política nas decisões empresariais.
Na outra ponta, empresas com receitas em moeda estrangeira ou exposição a commodities encontraram algum suporte. Exportadoras como Gerdau, Embraer, WEG e Suzano tendem a receber benefícios cambiais quando o dólar sobe, embora o resultado dependa também dos custos e das condições de cada negócio. Petroleiras, por sua vez, contam com a referência internacional do petróleo para parte de suas receitas.
O contraste entre os setores evidencia que a queda não atingiu todas as companhias da mesma maneira. Empresas dependentes do mercado interno e de juros menores sofreram mais, enquanto negócios com receitas dolarizadas e algumas atividades defensivas demonstraram maior capacidade de resistência. Ainda assim, a aversão ao risco atingiu grande parte da carteira do Ibovespa.
Outubro termina com perda mensal e alerta fiscal
A queda da última semana também comprometeu o resultado de outubro. O Ibovespa encerrou o mês com desvalorização de 9,88%, a maior desde junho de 2022. Apesar do tombo, o índice ainda manteve valorização de aproximadamente 4,22% no acumulado de 2026, segundo os dados apresentados para o fechamento.
A correção também reacendeu o debate sobre o desempenho da Bolsa durante os quatro anos anteriores. Levantamento atribuído à Nord Investimentos aponta que o Ibovespa acumulou alta de 45,8% no período, abaixo do retorno de 63,6% do Tesouro Selic. Já o índice de Small Caps recuou 19%, refletindo as dificuldades enfrentadas por empresas menores e mais expostas à economia doméstica.
Para o mercado, portanto, a desvalorização recente não explica sozinha as dificuldades da renda variável brasileira. O ambiente de juros elevados e incerteza fiscal já pressionava parte das companhias antes da eleição. A mudança nas expectativas políticas, contudo, acelerou a revisão dos preços e ampliou a diferença entre empresas exportadoras e negócios dependentes do consumo interno.
Ao final da semana, a Bolsa ficou próxima do limite técnico de um bear market, definido como uma queda de 20% em relação ao pico mais recente. Desde a máxima intradiária de 209.713,45 pontos, registrada em 9 de outubro, o índice recuou cerca de 19,9%. Assim, a continuidade da recuperação dependerá, entre outros fatores, de sinais sobre a política fiscal, a equipe econômica e a trajetória dos juros.
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