Bitcoin pressiona mineradores, diz relatório da Wintermute
Os mineradores de Bitcoin enfrentam um dos períodos mais desafiadores dos últimos ciclos da rede. Um relatório da empresa de trading cripto Wintermute indica que apenas aguardar um novo ciclo de forte valorização pode não ser suficiente para sustentar muitas operações.
Segundo a análise, parte das companhias do setor pode precisar reformular seus modelos de negócio para atravessar os próximos anos até o próximo halving. Nesse contexto, a diversificação de receita começa a ganhar importância para manter a rentabilidade.
O analista Jasper De Maere afirma que o ciclo atual apresenta características diferentes das fases observadas em 2018 e 2022. Embora o protocolo do Bitcoin continue reduzindo a recompensa por bloco aproximadamente a cada quatro anos, o preço do ativo não teria acompanhado essa queda com uma valorização proporcional.
Na prática, isso pressiona a receita real da mineração. Em uma janela móvel de quatro anos, o retorno do ativo teria ficado próximo de 1,15 vez, enquanto ciclos anteriores registraram ganhos muito mais elevados, que chegaram a múltiplos entre 10 e 20 vezes.
Em ciclos passados, grandes valorizações do mercado compensavam falhas operacionais. Assim, mesmo após cada halving, os mineradores conseguiam recuperar margens rapidamente quando o mercado entrava em forte alta.
Agora, porém, o ambiente parece diferente. A entrada de investidores institucionais, ETFs e tesourarias corporativas tende a alterar o comportamento do ativo. Como resultado, analistas observam que o Bitcoin passou a reagir de forma mais próxima a outros ativos macro.
Consequentemente, movimentos explosivos de valorização podem se tornar menos frequentes. Dessa forma, o setor passa a ter menos margem para erros operacionais.
Margens da mineração enfrentam nova pressão
O modelo de custos da mineração permanece relativamente simples. Em geral, ele depende principalmente de dois fatores: energia elétrica e capacidade computacional.
No entanto, essa estrutura limita as alternativas quando a receita diminui. Dados citados no relatório da Wintermute, indicam que as margens brutas neste ciclo teriam atingido picos próximos de 30%.
Em ciclos anteriores, níveis semelhantes costumavam aparecer apenas em períodos de estresse do mercado. Ainda assim, no cenário atual, esse patamar já representa momentos considerados relativamente positivos.
No passado, algumas operações chegaram a operar durante longos períodos com margens entre 70% e 80%. Hoje, mesmo fases mais favoráveis se aproximam dos níveis mínimos observados em ciclos anteriores.
Além disso, as taxas de transação da rede ainda não compensam totalmente essa pressão financeira. Episódios de congestionamento da mempool podem elevar temporariamente as taxas. Contudo, esses picos tendem a ser curtos e representam uma parcela limitada da receita total.
Assim, mesmo considerando essa fonte adicional, as diferenças entre ciclos continuam relativamente modestas. Dessa forma, as taxas ainda não funcionam como um mecanismo consistente de proteção para o setor.
Diversificação e inteligência artificial entram no radar
Diante desse cenário, alguns mineradores buscam novas fontes de receita. Uma das estratégias envolve adaptar parte da infraestrutura para computação de alto desempenho e serviços ligados à inteligência artificial.
Grandes empresas de tecnologia e startups de IA procuram energia e espaço em data centers. No entanto, novos projetos frequentemente enfrentam atrasos para obter conexão elétrica ou concluir a construção das instalações.
Nesse contexto, mineradores podem ter uma vantagem inicial. Muitas dessas empresas já controlam grandes volumes de energia e operam estruturas preparadas para cargas computacionais intensas.
Segundo a Wintermute, instalações antes avaliadas entre US$ 1 e US$ 7 por watt para mineração passaram a alcançar valores próximos de US$ 18 por watt quando adaptadas para cargas de trabalho de IA.
Além disso, parcerias com empresas de tecnologia têm impulsionado esse movimento. Investidores também tendem a favorecer companhias que apresentam estratégias claras de diversificação.
Empresas com projetos estruturados para infraestrutura de IA podem alcançar avaliações mais altas no mercado. Como consequência, conseguem acesso a capital potencialmente mais barato por meio da emissão de ações ou dívida conversível.
Reservas de Bitcoin ganham papel estratégico
Outra frente envolve a gestão das reservas de Bitcoin mantidas pelos mineradores. Estimativas citadas no relatório indicam que essas empresas controlam cerca de 1% do BTC em circulação.
Essa posição foi construída ao longo de anos de acumulação em ciclos anteriores. No entanto, margens menores levaram várias companhias listadas em bolsa a vender parte desses ativos recentemente.
Algumas chegaram a liquidar quase todo o estoque. Ainda assim, o relatório sugere que existem alternativas além da simples venda das reservas.
Derivativos e crédito ampliam alternativas
A Wintermute sugere tratar o Bitcoin como um ativo produtivo dentro do balanço corporativo. Nesse modelo, os mineradores poderiam buscar rendimento adicional por meio de estratégias financeiras.
Entre as possibilidades estão derivativos como covered calls e cash-secured puts. Essas operações permitem gerar receita extra sobre as reservas, embora envolvam exposição a risco de mercado.
Além disso, plataformas de empréstimo on-chain também oferecem alternativas. Nelas, empresas podem disponibilizar BTC e receber juros ao longo do tempo.
Para a Wintermute, o protocolo do Bitcoin continua funcionando conforme planejado. Ainda assim, o relatório indica que a fase mais fácil da mineração pode ter ficado para trás. A combinação de crescimento mais moderado do preço, custos elevados de energia e taxas limitadas mantém pressão sobre o setor.
Diante desse cenário, a adaptação tende a se tornar essencial. Empresas que diversificarem receita e gerirem melhor seus ativos podem ter mais chances de atravessar os próximos ciclos do mercado.