África pode ser o novo crisol da cripto

Jack Dorsey, o CEO do Twitter e da Square, chama a África do futuro do Bitcoin

Conhecida pela sua pluralidade étnica e cultural, e, por meio de uma história milenar, capaz de contar a história de toda a humanidade, a África é o terceiro maior continente da Terra. Segundo mais populoso entre os demais, é também o que possuiu a população mais jovem do planeta: 60% do continente tem menos de 25 anos.

Apesar da enorme riqueza do continente, muitos países africanos apresentam baixos índices de desenvolvimento, com diversos problemas sociais, como a miséria, baixa qualidade de vida, subnutrição e o analfabetismo. No entanto, esta realidade está mudando.

Em entrevista à Decrypt, Jack Dorsey, CEO do Twitter e da Square, chama a África de futuro do Bitcoin. Os fundadores da startup local concordam. Mas, o continente está preparado para receber o “Crypto Valley”?

Assim como os exploradores de uma época passada, Jack Dorsey saiu extasiado quando visitou a África pela primeira vez no ano passado. Para ele, o continente é o futuro do Bitcoin. Atsu Davoh, fundador do aplicativo de transações transfronteiriças, com sede em Gana, Bitsika, foi um dos que Dorsey procurou durante sua recente estadia no continente. “Ele era humilde e muito curioso”, disse Davoh.

E Dorsey está voltando, com outros investidores em seu caminho, porque a África é convincente, especialmente, para as criptomoedas. Os desafios, muito específicos do continente e sua entusiasta força de trabalho, são os principais ingredientes que as criptomoedas, como o Bitcoin, precisam para ter sucesso.

A infraestrutura fragmentada significa que os africanos pagam os custos mais altos de remessas do mundo e são a segunda maior população sem banco, mas esses podem vir a ser oportunidades nas mãos certas.

O CEO do Paxful, mercado de Bitcoin ponto a ponto, Ray Youssef, credita o continente por ensiná-lo sobre os verdadeiros casos de uso do Bitcoin. “Os africanos têm sistemas financeiros ponto a ponto há milhares de anos”, justificou ele. Aproximadamente 45% dos três milhões de assinaturas de Paxful são da África. “Enviar dinheiro de maneira tradicional é tão oneroso para muitos que é mais fácil pegar um avião e entregá-lo você mesmo”, revelou Youssef.

De acordo com Philip Agyei Asare, CEO da plataforma de remessas BTCGhana, as criptomoedas são usadas como reserva de valor, para especulação e, cada vez mais, como meio para o comércio sem fronteiras entre países.

A cripto africana é como o oeste selvagem, não há obstáculos legais ou regulamentos. Os governos não sabem muito sobre cripto, para que deixem as pessoas fazerem o que quiserem , disse Davoh, de Bitsaka.

Ele afirmou conhecer alguém que processou 30 milhões de dólares em transações de balcão de Bitcoin em um ano. A Nigéria tem uma grande população e os melhores programadores, mas também, “é politicamente mais instável que o Gana”, acrescentou.

As principais economias do continente estão de olho na criptomoeda

Moedas digitais nacionais, stablecoins e escolas

As principais economias da África – África do Sul, Nigéria e Quênia – estão de olho na criptomoeda. Gana e África do Sul também estão entre os que exploram o potencial das moedas digitais nacionais.

Entre os estados criptos mais liberais do continente está o Senegal, onde o rapper Akon começou a construir a primeira “cidade cripto do mundo”.

No entanto, o projeto foi criticado. Muitos acreditam que melhorar a educação é uma necessidade mais premente.

“Os maiores recursos nacionais da África estão acima do solo, não abaixo dele”, frisou Youssef, de Paxful, que em 2017 iniciou um esforço para construir 100 escolas com Bitcoin. “São as pessoas tão motivadas, tão ambiciosas e apenas procurando uma maneira de fazer a diferença”.

“A África perdeu a primeira, a segunda e a terceira revoluções industriais, mas temos uma oportunidade real de fazer parte da Quarta Revolução Industrial”, disse Bitange Ndemo, chefe da Blockchain e da Força-Tarefa de Inteligência Artificial do Quênia.

A chamada teoria “Leapfrogging” sustenta que agora é irrelevante que a África não tenha desenvolvido a infraestrutura de TI da geração atual, porque os serviços da próxima geração – 5G, IA e Internet das Coisas – já podem ser construídos sem se preocupar com os custos de reforma da infraestrutura herdada.

No Quênia, berço do M-Pesa, a revolução digital está transformando a vida cotidiana, abrindo caminho para a aplicação de tecnologias emergentes como blockchain. O cenário de startups do Quênia está prosperando, e o governo está trabalhando em uma plataforma de identidade confiável e explorando a biometria para verificação de transações.

Grande parte da revolução digital da África se deve à explosão dos telefones celulares, hoje comuns até nos países mais pobres do continente. Quase 10% do PIB em transações são feitos com dinheiro móvel, a maior proporção do mundo.

África também está na vanguarda da inovação em cripto, levando muitos a acreditarem que 2020 poderá ser o ano do stablecoin no continente.

Atualmente, a Bitsika está desenvolvendo seu próprio ABCD stablecoin e a troca nigeriana de Bitcoin NairaEx também está trabalhando em um lastreado pela moeda nacional, a Naira.

Fonte: Decrypt

Foto de Elen Genuncio
Foto de Elen Genuncio O autor:

Jornalista com especialização em História do Brasil pela UFF, trabalhou em diversos veículos de comunicação como O Globo, Jornal do Commercio, revista PC Mundo e Rádio Tupi.