ASTS: Cramer vê compra especulativa; insiders vendem
As ações da AST SpaceMobile (ASTS) abriram a sexta-feira cotadas a US$ 85,13. O nível ficou praticamente alinhado ao preço-alvo médio de analistas, de US$ 85,09. Ainda assim, o mercado segue dividido sobre o potencial de alta da companhia. Afinal, a empresa combina avanços operacionais relevantes com perdas elevadas, múltiplos exigentes e vendas expressivas feitas por insiders.
Além disso, o papel teve desempenho misto em diferentes janelas. Nos últimos sete dias, ASTS subiu 19,15%. Em contrapartida, em 30 dias, a ação acumula queda de 20,65%. No recorte de 12 meses, porém, a valorização chega a 86,69%. Esse movimento mostra força na tendência de longo prazo, apesar da volatilidade recente.
BlueBird e Japão sustentam a tese de crescimento
A AST SpaceMobile atravessa uma fase decisiva. Os satélites mais recentes da linha BlueBird já estão totalmente operacionais. Assim, a empresa avança em uma etapa central do seu plano de escala comercial. Ao mesmo tempo, a companhia estruturou uma joint venture no Japão apoiada pela Rakuten e respaldada por subsídios do governo.
Esse movimento reforça a estratégia internacional da companhia. Ademais, amplia a leitura de que ASTS pode transformar acordos com operadoras em receitas recorrentes. Para investidores do setor de telecomunicações via satélite, esse ponto ajuda a sustentar a narrativa de crescimento. Também alimenta a comparação com empresas tradicionais do segmento.
Uma das teses mais otimistas aponta valor justo de US$ 170 por ação. Em outras palavras, esse cálculo sugere quase o dobro do preço atual. A estimativa considera o avanço da constelação BlueBird, a monetização das parcerias e a possibilidade de operação em escala. Nesse cálculo, a taxa de desconto utilizada é de 7,108%.
De fato, a posição de caixa fortalece esse cenário. Em 31 de março de 2026, a AST SpaceMobile tinha cerca de US$ 3,5 bilhões em caixa. Além disso, a empresa afirmou que não pretende emitir dívida conversível adicional neste ano. Para uma companhia ainda em expansão de infraestrutura, esse colchão financeiro reduz parte do risco operacional.
Por outro lado, a avaliação segue pressionada. O múltiplo preço sobre valor patrimonial, ou P/B, está em 12,2 vezes. Esse nível supera com folga a média de 1,6 vez observada no setor mais amplo de telecomunicações nos Estados Unidos. Mesmo na comparação com pares próximos, que operam em 12,6 vezes, a diferença é pequena. Portanto, a ação já carrega um prêmio elevado para uma empresa ainda deficitária.
Consenso de mercado continua cauteloso
As casas de análise mantêm visões bastante diferentes sobre ASTS. A Roth MKM segue com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 108. O Barclays adota postura underweight, com alvo de US$ 65. O Deutsche Bank rebaixou a ação de compra para manutenção e cortou o preço-alvo para US$ 106. Já o UBS trabalha com classificação neutra e alvo de US$ 80. No consolidado do MarketBeat, o consenso atual é de “Reduce”.
Com isso, ASTS permanece presa entre execução operacional e dúvida sobre valuation. A empresa avança em tecnologia e expansão internacional. No entanto, ainda precisa provar consistência comercial em escala para sustentar avaliações mais ambiciosas.
Resultado fraco e vendas de insiders elevam pressão
Os números do primeiro trimestre ampliaram a divisão entre os analistas. A empresa reportou prejuízo de US$ 0,66 por ação. Esse resultado ficou bem pior que a estimativa de mercado, que previa perda de US$ 0,23. Além disso, a receita somou US$ 14,73 milhões, abaixo da expectativa de US$ 39,01 milhões.
Embora a receita tenha crescido 1.952% em relação ao mesmo período do ano anterior, o mercado reagiu negativamente. Isso ocorreu porque a frustração com as projeções pesou mais do que o avanço anual. Dessa forma, o trimestre reforçou a percepção de que a empresa ainda depende de entregas futuras para justificar a valorização de longo prazo.
Outro ponto de atenção envolve a movimentação de insiders. Nos últimos três meses, executivos e pessoas ligadas à empresa venderam mais de 3,1 milhões de ações. O total aproximado chegou a US$ 280,6 milhões. Entre essas operações, o diretor financeiro Andrew Martin Johnson vendeu 45.809 ações em 11 de junho. O preço foi de US$ 93,81 por papel. Com isso, sua participação foi reduzida em 8,34%.
Em contrapartida, investidores institucionais ampliaram exposição. A Pictet Asset Management elevou sua posição em 146,8% no primeiro trimestre. A gestora encerrou o período com 79.666 ações, avaliadas em US$ 6,6 milhões. No total, a participação institucional na companhia está em 60,95%.
Jim Cramer afirmou nesta semana que ASTS segue como uma aposta especulativa de alto potencial.
“ASTS é uma grande compra especulativa. Acredito que a empresa pode se tornar lucrativa em até dois anos.”
A fala de Cramer reforça a leitura de que a ação continua como uma aposta de alto risco e alto potencial. No entanto, essa visão não elimina os riscos imediatos. A ação opera dentro de uma faixa de 52 semanas entre US$ 36,08 e US$ 133,86. A média móvel de 50 dias está em US$ 87,38, enquanto a de 200 dias está em US$ 89,44. Para o ano cheio, analistas projetam prejuízo de US$ 1,47 por ação.
ASTS combina gatilhos positivos e risco elevado
No balanço final, ASTS reúne fatores positivos e negativos ao mesmo tempo. De um lado, a empresa conta com satélites BlueBird plenamente operacionais, joint venture no Japão com apoio da Rakuten e subsídios públicos, além de US$ 3,5 bilhões em caixa. De outro, enfrenta consenso de “Reduce”, prejuízo trimestral acima do esperado, receita abaixo das estimativas e mais de US$ 280 milhões em vendas de ações por insiders.
Assim sendo, o papel continua no radar de investidores que toleram volatilidade elevada. A tese de longo prazo permanece viva, mas depende de execução. A conversão de parcerias em receita será decisiva para definir se ASTS conseguirá sustentar avaliações mais agressivas nos próximos trimestres.