Bancos e cooperativas brasileiros apostam na blockchain
BB e Caixa unem forças para tokenizar crédito imobiliário
O Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e quatro grupos cooperativos firmaram um Acordo de Cooperação Técnica com o Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONS). A parceria prevê a criação de uma infraestrutura digital baseada em blockchain para modernizar processos ligados ao crédito imobiliário.
Além dos dois bancos públicos, participam da iniciativa Ailos, Sicoob, Sicredi e Unicred. O objetivo é desenvolver uma estrutura capaz de integrar os diferentes participantes do mercado e agilizar a troca de informações durante as operações imobiliárias.
Os primeiros testes estão previstos para março de 2027. Até lá, as instituições deverão definir as jornadas de negócio, os modelos de integração e as soluções tecnológicas necessárias para colocar a proposta em funcionamento.
Na prática, a iniciativa busca atacar um dos principais gargalos do financiamento imobiliário: a quantidade de documentos, validações e etapas necessárias para concluir uma operação.
Como a tokenização pode mudar o processo
A tokenização consiste em representar digitalmente contratos, registros ou outros ativos por meio de tokens. Nesse projeto, a tecnologia poderá ser utilizada para transformar informações relacionadas ao crédito imobiliário em registros digitais verificáveis em uma rede blockchain.
Isso pode facilitar a comunicação entre bancos, cooperativas, cartórios e demais participantes envolvidos no financiamento. Em vez de depender de processos fragmentados, a proposta busca criar uma infraestrutura capaz de compartilhar informações de maneira padronizada.
Além disso, a blockchain permite registrar operações de forma rastreável. Com isso, os participantes podem acompanhar alterações e validações realizadas durante o processo.
A expectativa é reduzir retrabalho e burocracia, além de aumentar a eficiência e a segurança na circulação dos dados. No entanto, os detalhes sobre o funcionamento da infraestrutura ainda estão em fase de definição.
Por isso, a tokenização não significa que os financiamentos imobiliários passarão imediatamente a funcionar em uma blockchain. Primeiro, os participantes precisam definir como os sistemas conversarão entre si e quais processos serão efetivamente digitalizados.
O papel do ONS na integração
A participação do Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis é um dos pontos centrais do acordo. Isso porque o financiamento imobiliário não depende apenas dos sistemas internos das instituições financeiras.
Os registros relacionados aos imóveis também fazem parte do processo. Portanto, uma infraestrutura digital precisa considerar a conexão entre o setor financeiro e o sistema eletrônico de registro imobiliário.
Nesse contexto, a interoperabilidade ganha importância. O conceito significa permitir que diferentes sistemas e instituições consigam trocar informações de maneira compatível, mesmo quando utilizam estruturas tecnológicas próprias.
O acordo prevê justamente a discussão desses modelos de integração entre os participantes do ecossistema. A intenção é construir uma solução compartilhada, em vez de criar uma tecnologia isolada dentro de uma única instituição.
Segundo Julierme de Souza, gerente geral de tecnologia do Banco do Brasil, a tokenização pode integrar processos e gerar ganhos de eficiência, segurança e rastreabilidade para o mercado.
BB, Caixa e cooperativas ampliam o alcance
A composição do projeto também chama atenção pela diversidade das instituições envolvidas. BB e Caixa concentram operações relevantes do mercado imobiliário, enquanto Sicoob, Sicredi, Ailos e Unicred ampliam a participação das cooperativas de crédito na iniciativa.
Essa combinação pode ajudar a testar a infraestrutura em diferentes modelos de atendimento e estruturas operacionais. Além disso, a participação de instituições com atuação em diversas regiões amplia o potencial de aplicação da tecnologia.
Para o mercado, a iniciativa representa um movimento de aproximação entre instituições financeiras tradicionais, cooperativas e a infraestrutura eletrônica de registros imobiliários.
Ao mesmo tempo, o projeto ainda está em uma etapa de construção. As instituições precisam definir os padrões de dados, os mecanismos de segurança e os modelos de governança antes de avaliar os resultados dos testes.
Tokenização avança no mercado financeiro
A iniciativa ocorre em um momento de expansão dos projetos de tokenização no sistema financeiro brasileiro. O Banco Central também testa aplicações de blockchain e ativos tokenizados no contexto do Drex, o projeto de moeda digital do país.
Nesse cenário, o crédito imobiliário surge como mais uma frente para avaliar o uso da tecnologia em processos financeiros tradicionais.
O potencial, porém, não está apenas na digitalização de documentos. Uma infraestrutura integrada pode facilitar a comunicação entre diferentes participantes e reduzir etapas manuais que ainda fazem parte de operações imobiliárias.
Por enquanto, o acordo entre BB, Caixa, cooperativas e ONS representa o início desse processo. Os testes deverão mostrar se a infraestrutura consegue funcionar de forma integrada e quais ajustes serão necessários.
Assim, mais do que transformar documentos em ativos digitais, o projeto pretende testar uma nova forma de organizar e compartilhar informações no crédito imobiliário. Se os testes avançarem, a experiência poderá contribuir para tornar um dos processos mais burocráticos do mercado financeiro brasileiro mais digital, integrado e rastreável.