BCE: previsão de inflação sobe após guerra EUA-Irã
A guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, alterou a forma como empresas europeias avaliam preços, custos e o cenário econômico de curto prazo. Uma nova pesquisa do Banco Central Europeu mostrou revisão relevante nas expectativas de inflação e de custos para os próximos 12 meses, sobretudo nos setores intensivos em energia.
Empresas da zona do euro elevam projeções de preços
Os dados vieram da Survey on the Access to Finance of Enterprises, conhecida como SAFE, pesquisa trimestral do Banco Central Europeu com empresas da zona do euro. A rodada do primeiro trimestre de 2026 ocorreu entre 19 de fevereiro e 1º de abril. Assim, o intervalo captou o período anterior e posterior ao início do conflito.
Antes de 28 de fevereiro, as empresas consultadas esperavam elevar seus preços de venda em 2,9% nos 12 meses seguintes. Depois do começo da guerra, essa projeção subiu para 3,5%. Além disso, as expectativas de inflação para um ano também avançaram. A mediana apurada entre as empresas passou de 2,5% antes da guerra para 3,0% após o início do conflito.
Por outro lado, as expectativas de inflação para três e cinco anos permaneceram estáveis. Em outras palavras, as empresas ainda tratam o episódio como um choque de curto prazo, não como uma mudança estrutural no regime inflacionário. Ainda assim, o levantamento mostrou leve recuo nas expectativas de custos salariais, que ficaram em 2,8%.
Ao mesmo tempo, surgiram perspectivas mais negativas para faturamento, investimento e disponibilidade de crédito bancário. Nesse sentido, os segmentos com maior consumo de energia registraram as leituras mais pessimistas em praticamente todas as categorias observadas. Esse quadro reforça a sensibilidade da atividade industrial europeia ao choque nos preços de energia.
Setores intensivos em energia sentem maior impacto
Entre os primeiros afetados estão setores como químicos, metais, vidro e indústria pesada. Contudo, os resultados da SAFE indicam que a expectativa de custos maiores já não se limita a esses segmentos. Agora, ela começa a atingir uma parcela mais ampla das empresas da zona do euro. Dessa forma, o impacto inflacionário pode se espalhar pelas cadeias produtivas com mais velocidade.
Banco Central Europeu revisa inflação e crescimento
O Banco Central Europeu agora projeta inflação cheia de 2,6% em 2026, com pico de 3,1% no segundo trimestre. A meta oficial da instituição segue em 2,0%. Além disso, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto da zona do euro caiu para 0,9% no ano.
O pano de fundo dessa revisão está na pressão causada pela guerra no Oriente Médio sobre a oferta de petróleo e os preços de energia. Com efeito, custos mais altos de energia costumam avançar pelas cadeias produtivas. Isso eleva despesas de insumos para fabricantes, empresas de logística e, posteriormente, negócios voltados ao consumidor final.
Esse cenário ganha relevância porque combina inflação acima da meta com crescimento mais fraco. Portanto, o Banco Central Europeu pode enfrentar um ambiente mais difícil para calibrar sua política monetária nos próximos meses. Afinal, uma inflação persistente exige cautela, enquanto a atividade enfraquecida reduz a margem para medidas mais duras.
Juros na Europa entram no radar do mercado
A perspectiva de inflação em 3,1% no segundo trimestre pode reacender o debate sobre juros na Europa. Se o Banco Central Europeu concluir que precisa manter taxas elevadas por mais tempo, ou até endurecer a política monetária, o efeito usual será um aperto das condições financeiras. Como resultado, ativos de maior risco tendem a perder apelo.
Esse ponto importa para o mercado de criptomoedas porque o setor reage à liquidez global e ao custo do dinheiro. Em um ambiente de política monetária mais restritiva, ativos especulativos tendem a enfrentar maior pressão. Por isso, investidores também monitoram sinais sobre crédito, atividade e renda disponível na região.
Outro elemento relevante é a estabilidade das expectativas de inflação no longo prazo. Caso as projeções para três e cinco anos comecem a subir nas próximas pesquisas, isso poderá indicar que as empresas passaram a ver o impacto inflacionário como persistente, não apenas temporário. Nesse caso, o mercado cripto poderá sentir um efeito adicional de aversão a risco, inclusive sobre ativos como Bitcoin.
Além disso, a previsão de crescimento de apenas 0,9% para a zona do euro também levanta dúvidas sobre a participação do investidor de varejo europeu no mercado de criptomoedas. Essa capacidade tende a diminuir se os orçamentos das famílias sofrerem pressão de preços mais altos e renda estagnada.
Em suma, a pesquisa do Banco Central Europeu mostrou que as empresas passaram a projetar aumento de 3,5% nos preços de venda e inflação de 3,0% em um ano após o início da guerra entre Estados Unidos e Irã. Enquanto isso, as expectativas de longo prazo ficaram estáveis, a inflação oficial para 2026 foi estimada em 2,6% e o crescimento da zona do euro caiu para 0,9%.