Biometria vira fronteira para separar IA de humano

Identidade deixa de ser detalhe técnico e passa a sustentar a confiança online

A rápida evolução da inteligência artificial generativa mudou a dinâmica da confiança no ambiente digital. Textos, imagens, vídeos e até interações sociais já podem ser simulados com alto grau de realismo. Nesse cenário, provar que um usuário é humano deixou de ser um detalhe técnico e passou a ser um pilar estrutural da economia digital.

Por isso, a biometria ganhou protagonismo. Não apenas como ferramenta de segurança, mas como critério central para diferenciar pessoas reais de agentes automatizados. Ao longo de 2024 e início de 2025, plataformas de verificação de identidade e comportamento evitaram prejuízos estimados em R$ 3,2 bilhões, segundo dados do setor. O número evidencia a escala do problema e, ao mesmo tempo, o valor econômico da validação digital.

Da polêmica do Orb ao novo ativo da economia digital

O debate ganhou força no Brasil quando a World, protocolo da Tools for Humanity, fundada por Sam Altman, ofereceu tokens em troca da comprovação de humanidade por meio do escaneamento de íris com o dispositivo Orb. Após críticas e questionamentos regulatórios, a empresa manteve a operação no país, mas retirou a remuneração financeira.

O episódio expôs uma mudança mais profunda. Como destacou Ronaldo Lemos, especialista em tecnologia, a coleta de íris é apenas uma entre várias formas de biometria. Ainda assim, ela simboliza um movimento maior: a percepção de que identidade digital será o novo ativo crítico da sociedade conectada. Se tudo pode ser simulado, a pergunta deixa de ser “o que foi dito” e passa a ser “quem está do outro lado”.

Nesse contexto, a biometria deixa de ser acessória. Ela se torna a base da confiança em serviços financeiros, plataformas sociais e aplicações sensíveis.

Biometria como infraestrutura de confiança

Segundo Guilherme Ribenboim, CRO da Unico, validar identidade já não é apenas uma etapa operacional. Pelo contrário, tornou-se o alicerce da confiança no ambiente digital. Essa visão explica por que a biometria avança para além do login e chega ao cotidiano das transações.

No setor de pagamentos, por exemplo, a tecnologia migra para o varejo físico. Uma prova de conceito desenvolvida por Elo e Tecban permite pagamentos por leitura da palma da mão, dispensando cartões ou dispositivos. Para Eduardo Merighi, CTO da Elo, quando o pagamento acontece por um gesto humano simples, a tecnologia cumpre seu papel de forma intuitiva e segura.

Assim, a biometria se integra à experiência sem fricção, ao mesmo tempo em que reforça a segurança.

Liveness detection e o combate aos bots

O grande salto técnico da biometria recente está na chamada “detecção de vida” (liveness detection). Essa abordagem utiliza inteligência artificial para analisar micromovimentos, reflexos involuntários e padrões tridimensionais do rosto ou da íris. Com isso, torna-se possível diferenciar humanos reais de fotos, vídeos, máscaras ou deepfakes de alta resolução.

Esse avanço explica o crescimento acelerado do setor. O mercado global de reconhecimento de íris deve passar de US$ 5,14 bilhões em 2025 para US$ 12,92 bilhões até 2030, com taxa anual superior a 20%. A biometria, nesse modelo, passa a ser considerada o “padrão ouro” contra automação maliciosa.

Além disso, a biometria comportamental complementa o processo. O ritmo de digitação, a pressão na tela e o padrão de navegação criam assinaturas difíceis de imitar de forma consistente, mesmo por sistemas avançados de IA.

Plataformas sociais, idade e novos riscos

A separação entre humanos e máquinas também chega às redes sociais e aos ambientes virtuais. Plataformas de grande escala começaram a adotar verificação compulsória de idade por biometria facial, como forma de proteger menores e segmentar interações.

Segundo Stephen Balkam, CEO do Family Online Safety Institute, abordagens baseadas em risco, como a estimativa de idade, são essenciais para construir um ambiente digital mais seguro para crianças e adolescentes. Nesse cenário, a biometria deixa de ser opcional e passa a ser pré-requisito para participação social online.

Ainda assim, os riscos existem. Bots podem ter acesso elevado a dados sensíveis, e agentes mal configurados podem expor informações privadas. Especialistas alertam para a chamada “tríade fatal” dos agentes de IA: acesso a dados privados, capacidade de comunicação externa e exposição a conteúdos não confiáveis.

Confiança, regulação e o dilema da privacidade

Apesar da alta adesão — cerca de 90% dos brasileiros preferem biometria a senhas tradicionais — o receio com privacidade permanece. Dados do Cetic.br indicam que 60% dos usuários temem o fornecimento de dados biométricos.

Como resposta, ganha espaço a computação confidencial. Nela, os dados biométricos são processados em ambientes criptografados e isolados, garantindo que nem mesmo o provedor do serviço tenha acesso à imagem bruta da íris ou do rosto. Assim, a tecnologia tenta equilibrar segurança, eficiência e proteção de dados.

Um novo contrato digital

Em síntese, a biometria deixou de ser apenas uma camada de autenticação. Ela se transformou em um mecanismo estrutural para preservar a confiança em um mundo onde humanos e máquinas convivem de forma indistinguível. À medida que a IA avança, provar humanidade se torna tão valioso quanto provar identidade.

Nesse novo contrato digital, a pergunta não é mais se a biometria será adotada, mas como ela será implementada de forma ética, segura e transparente.