BIP-361 propõe defesa pós-quântica para Bitcoin

Desenvolvedores do Bitcoin apresentaram a proposta BIP-361 para reforçar a segurança da rede contra riscos futuros da computação quântica. A iniciativa busca reduzir a vulnerabilidade de carteiras com chaves públicas já expostas na blockchain. Assim, ela pode proteger uma parcela relevante da oferta total do ativo.

Proposta mira carteiras com chaves públicas expostas

A BIP-361, formalmente intitulada “Post Quantum Migration and Legacy Signature Sunset”, teve elaboração de Jameson Lopp e cinco colaboradores. Além disso, a proposta recebeu designação formal em 11 de fevereiro de 2026, em meio ao avanço do debate técnico sobre a segurança de longo prazo da rede.

O foco recai sobre carteiras cuja chave pública já apareceu na blockchain. Nesse cenário, esses endereços ficariam mais expostos caso computadores quânticos consigam, no futuro, reverter chaves públicas em chaves privadas.

Embora ainda não existam máquinas com capacidade prática para explorar essa falha em escala, pesquisadores e desenvolvedores tratam o risco com cautela. Afinal, agentes maliciosos podem coletar essas chaves agora para tentar quebrá-las depois. Essa estratégia ficou conhecida como “coletar agora, decifrar depois”.

Em 1 de março de 2026, mais de 34% de toda a oferta de Bitcoin já tinha chaves públicas abertamente expostas. Portanto, essa parcela passou a representar um ponto sensível caso a capacidade quântica avance de forma relevante nos próximos anos.

A base criptográfica do Bitcoin usa técnicas de curva elíptica. Hoje, elas impedem computadores clássicos de derivar uma chave privada a partir de uma chave pública. No entanto, se a computação quântica avançar significativamente, o algoritmo de Shor, apresentado em 1994 por Peter Shor, poderia em tese permitir essa inversão.

Algoritmo de Shor: método de computação quântica formulado por Peter Shor, capaz de fatorar rapidamente grandes números e comprometer sistemas criptográficos baseados em fatoração inteira ou curvas elípticas, como os usados no Bitcoin.

Adoção em fases define prazos e restrições

A proposta descreve uma estratégia gradual, dividida em múltiplas etapas. Em primeiro lugar, a Fase A bloquearia novas transações para endereços considerados vulneráveis à computação quântica após um período de carência de 160.000 blocos. Na prática, isso representa cerca de três anos depois da ativação.

Dessa forma, os usuários ganhariam tempo para migrar seus fundos antes de qualquer restrição efetiva. Além disso, o cronograma busca reduzir rupturas bruscas no funcionamento da rede e nas rotinas de custódia.

Em seguida, a Fase B invalidaria permanentemente assinaturas criptográficas legadas cinco anos após o ponto inicial de ativação. Assim, mecanismos antigos de proteção deixariam de servir como base de autenticação para esses fundos.

Já a Fase C ainda segue em discussão. Mesmo assim, ela pode introduzir um mecanismo de recuperação baseado em prova de conhecimento zero, vinculado a padrões modernos de frase-semente.

Durante a análise da proposta, Jameson Lopp reconheceu os méritos da BIP-361 como uma opção mais prática do que alternativas já consideradas. Contudo, ele destacou que pesquisas adicionais ainda são necessárias antes de qualquer avanço definitivo.

Project Eleven testa recuperação por prova criptográfica

Paralelamente à BIP-361, o grupo de pesquisa em criptomoedas Project Eleven desenvolveu um sistema de prova de conhecimento zero para cenários de recuperação de carteiras. A solução permite que o titular demonstre controle criptográfico sobre chaves de nível superior dentro da hierarquia de derivação, sem revelar informações privadas.

A descrição técnica informa que o sistema opera em apenas 243 milissegundos em hardware comum de consumo. Por consequência, a abordagem surge como possível complemento para um processo de migração mais amplo, caso o ecossistema avance para padrões pós-quânticos.

Na prática, esse modelo pode abrir caminho para que usuários que ainda mantêm frases-semente no padrão BIP-39 recuperem fundos que poderiam se tornar inacessíveis por obsolescência ou vulnerabilidade técnica.

Project Eleven: iniciativa de pesquisa em criptomoedas focada no desenvolvimento de provas criptográficas e soluções de segurança para blockchain e recuperação de carteiras além dos métodos tradicionais.

Apesar disso, a solução não alcança os cerca de 1,1 milhão de Bitcoin atribuídos a Satoshi Nakamoto. Isso ocorre porque essas moedas foram mineradas antes da introdução do padrão BIP-32 para carteiras hierárquicas, em 2012. Por esse motivo, elas permanecem fora do alcance da abordagem atual do Project Eleven.

FaseAçãoPrazo
Fase ABloquear novas transferências para endereços vulneráveisCerca de 3 anos após a ativação
Fase BInvalidar assinaturas criptográficas legadasCerca de 5 anos após a ativação
Fase CPossível recuperação por prova de conhecimento zeroAinda em discussão

Mercado acompanha proposta em ambiente de cautela

No momento em que a proposta circulava, o Bitcoin negociava perto de US$ 64.492. Ao mesmo tempo, o Índice de Medo e Ganância marcava 28, sinalizando cautela entre investidores do mercado de criptomoedas.

Em suma, a BIP-361 transforma um risco teórico de longo prazo em um roteiro técnico com prazos definidos. A proposta combina a janela de 160.000 blocos, a invalidação de assinaturas legadas após cinco anos e o dado de que mais de 34% da oferta de Bitcoin tinha chaves públicas expostas em 1 de março de 2026. Enquanto isso, soluções complementares como a do Project Eleven continuam sob avaliação técnica.