Bitchat resiste a ameaça de bloqueio em Uganda

O aplicativo descentralizado Bitchat voltou ao centro do debate em Uganda após autoridades declararem que podem bloquear seu funcionamento. A afirmação criou tensão entre usuários e desenvolvedores, especialmente porque o país vive um período de pré-eleição marcado por riscos de censura e possíveis cortes de internet.

O interesse no app cresceu rapidamente nas últimas semanas. Além disso, a proximidade das eleições intensificou o receio de um novo apagão digital semelhante aos ocorridos em ciclos eleitorais anteriores. Assim, milhares de ugandeses buscaram alternativas capazes de manter a comunicação ativa mesmo sem acesso à rede tradicional.

Temor de novo apagão digital impulsiona uso do app

Nyombi Thembo, diretor executivo da Uganda Communications Commission, afirmou que o órgão possui meios para desativar o aplicativo, caso julgue necessário. No entanto, a declaração veio logo após um aumento expressivo nos downloads entre usuários que desejam se preparar para possíveis bloqueios semelhantes aos registrados em 2016 e 2021, quando o país enfrentou interrupções nacionais de conectividade.

O cenário ganhou ainda mais força depois que o líder da oposição, Bobi Wine, recomendou publicamente o uso do aplicativo. Segundo ele, a experiência passada com cortes de acesso justifica a adoção de ferramentas descentralizadas e resistentes a falhas na infraestrutura de telecomunicações. Portanto, o Bitchat passou a ser encarado como um recurso estratégico para comunicação em situações de instabilidade política.

A declaração de Thembo foi contestada por Calle, um dos desenvolvedores do app. Em publicação na plataforma X, ele reforçou que mais de 400 mil ugandeses já baixaram o Bitchat e afirmou que o modelo descentralizado impede bloqueios totais por parte de governos.

Vocês não podem parar o Bitchat. Vocês não podem nos parar. Convido todos os desenvolvedores ugandenses a se juntarem ao movimento global de código aberto e contribuírem. Não precisamos da permissão de ninguém para escrever código. Livre e de código aberto. Imparável. Do povo, para o povo.

Os comentários repercutiram amplamente. Além disso, reforçaram a percepção de que a tentativa de controle estatal da comunicação digital enfrenta limites técnicos quando aplicada a sistemas baseados em redes distribuídas.

Rede mesh Bluetooth mantém comunicação offline

Lançado em versão beta em julho, o Bitchat opera sem servidores centrais, números de telefone ou contas de usuário. O app utiliza uma rede mesh via Bluetooth para criar uma malha de comunicação entre dispositivos próximos. Portanto, mesmo em períodos de apagão total de internet, as mensagens continuam circulando enquanto houver aparelhos capazes de retransmiti-las.

Esse modelo transforma cada aparelho conectado em um ponto de retransmissão, mantendo a comunicação ativa em cenários de censura ou falhas de conectividade. Além disso, a criptografia das mensagens reforça a segurança entre os usuários, ampliando o interesse em regiões sujeitas a instabilidade política ou ambiental.

O uso do Bitchat não se limita a Uganda. Em setembro, manifestantes no Nepal adotaram o aplicativo durante uma restrição temporária a redes sociais. Em Madagascar, um aumento semelhante ocorreu semanas depois. Já na Jamaica, o app ficou entre os mais baixados durante o furacão Melissa, quando a instabilidade da rede levou usuários a buscar alternativas offline.

O avanço global do Bitchat destaca a crescente busca por ferramentas descentralizadas e resistentes a tentativas de controle. Além disso, as reações à fala de Nyombi Thembo e o posicionamento de Calle mostram como o aplicativo ganhou relevância em meio ao histórico de bloqueios digitais em Uganda. Assim, o uso do app tende a aumentar conforme o país se aproxima de um momento eleitoral considerado sensível.