Bitcoin ainda falha como hedge em crises globais

O Bitcoin mostrou desempenho distante do papel de proteção que muitos investidores esperavam durante a recente escalada de tensões internacionais. Enquanto o ouro renovou máximas e reforçou sua função histórica como porto seguro, o Bitcoin permaneceu volátil e sensível ao humor macroeconômico.

Nas últimas semanas, o ouro avançou acima de US$ 5.300 a onça após ataques envolvendo EUA, Israel e Irã. Nesse mesmo período, o Bitcoin recuou ou se manteve estável, evidenciando uma desconexão clara em relação aos ativos tradicionais de proteção.

Divergência entre ouro e Bitcoin em períodos de tensão

No início de março, o ouro atingiu mais de US$ 5.376 a onça, impulsionado pela demanda crescente em meio ao aumento do risco geopolítico. Além disso, instituições como JP Morgan e Goldman Sachs reforçaram expectativas de continuidade desse movimento. Metais como prata e paládio também registraram avanço sólido.

No entanto, o Bitcoin sofreu quedas acentuadas em 1º de março, após a ofensiva militar conjunta de EUA e Israel. A criptomoeda desvalorizou mais de 6% em 24 horas, intensificando um movimento de aversão ao risco dentro do mercado de criptoativos. Mesmo recuperando parte das perdas e chegando brevemente acima de US$ 68 mil, voltou rapidamente à faixa dos US$ 65 mil.

Assim, analistas afirmam que essa volatilidade indica ausência de fluxo de proteção. Investidores priorizaram o ouro como refúgio, reforçando a diferença estrutural entre os dois ativos.

Identidade do Bitcoin em debate

Pesquisa da Kaiko aponta que o Bitcoin enfrenta um impasse conceitual. Em cenários de incerteza comercial, o ativo costuma reagir de forma negativa, enquanto o ouro se valoriza. Comentários de mercado destacam que o Bitcoin não passou no chamado “teste de guerra”, ao contrário do ouro e do petróleo.

A diferença também aparece nos dados quantitativos. O ouro mantém beta negativo em relação às ações, subindo quando os mercados acionários caem. O Bitcoin apresenta beta positivo, agindo mais como ativo de tecnologia com alto potencial de crescimento do que como proteção.

Além disso, a volatilidade acentuada do Bitcoin limita seu uso como porto seguro. Já o ouro mantém estabilidade histórica e longa tradição como defesa contra inflação.

Impacto de inflação, juros e estrutura de mercado

A oferta limitada do Bitcoin já sustentou argumentos de que ele poderia atuar como hedge inflacionário. Contudo, na prática, o ativo mostra respostas inconsistentes em períodos de inflação acelerada e aperto monetário. Quando os bancos centrais elevam juros, a liquidez diminui e pressiona ativos considerados de risco.

O ouro, por outro lado, preserva poder de compra ao longo de décadas. Além disso, compras expressivas de bancos centrais mantêm sua demanda estável, reforçando sua força em períodos turbulentos.

A entrada de ETFs de Bitcoin aumentou a integração do ativo ao mercado tradicional. Portanto, sua correlação com ações e outros ativos de risco cresceu, reduzindo a percepção de proteção. Analistas da ARK Investment observaram que o desempenho do Bitcoin em 2025 divergiu acentuadamente do do ouro, com o ouro apresentando ganhos anuais de dois dígitos, enquanto o Bitcoin ficou para trás ou caiu.

Efeitos de tensões tarifárias e volatilidade

Conflitos comerciais e tarifas elevadas costumam fortalecer o dólar e aumentar a busca por segurança. Assim, investidores migram para ouro e títulos públicos. No entanto, o Bitcoin apresenta comportamento irregular, às vezes acompanhando ações em momentos de forte aversão ao risco.

A volatilidade muito maior em comparação ao ouro prejudica ainda mais sua função como hedge. Em períodos de pânico global, o mercado prioriza previsibilidade e estabilidade.

Dessa forma, os eventos recentes reforçam que o ouro segue como principal destino de proteção em crises, enquanto o Bitcoin permanece mais exposto à liquidez global e ao sentimento macroeconômico.