Bitcoin Asia 2026 revela paradoxo regulatório de Hong Kong

O Bitcoin Asia 2026, principal encontro de Bitcoin em Hong Kong, expôs as limitações locais diante da demanda institucional por produtos financeiros digitais. Ao lado do palco principal, um torneio de cartas Pokémon disputava a atenção do público. Enquanto isso, palestrantes discutiam a adoção institucional de stablecoins.

A cena resumiu o clima do evento. Na prática, executivos do setor consideraram esta edição menor e menos movimentada que a anterior. Ainda assim, as discussões mostraram mudanças relevantes no perfil dos investidores.

Torneio de cartas Pokémon durante o Bitcoin Asia 2026

Inteligência artificial ganha espaço diante do Bitcoin

Na abertura, Brandon Green, executivo da BTC Inc., organizadora do evento, reconheceu a mudança no setor. De acordo com Green, a ascensão da inteligência artificial afetou a indústria, que agora parece menor. Para ele, o segmento atravessa um dos bear markets mais duros da história recente.

Além da queda do Bitcoin, Green apontou uma mudança no comportamento dos participantes. Nesse ambiente, o capital e os profissionais passaram a demonstrar maior interesse pela inteligência artificial. Com isso, o movimento também afetou a confiança dos bitcoiners.

A transformação apareceu ainda na lista de palestrantes. Desta vez, os principais discursos ficaram com Changpeng Zhao, conhecido como CZ, da Binance, e Justin Sun, fundador da Tron. No ano anterior, nomes americanos como Eric Trump e Anthony Scaramucci ocuparam maior espaço. Naquela edição, o debate também envolveu a World Liberty Financial.

Bitcoin recupera perdas, mas permanece abaixo do recorde

Além disso, o encontro ocorreu após um período de fraqueza para o Bitcoin. Depois de entrar em uma fase difícil em outubro de 2025, o ativo acumulou queda de 30% no ano. Em determinado momento, a pressão vendedora reduziu fortemente o interesse pelo mercado.

Contudo, o Bitcoin avançou quase 20% nos três dias anteriores ao evento. Segundo os participantes, preocupações com dívida e inflação nos Estados Unidos ajudaram na recuperação. Também ocorreu um short squeeze, movimento que força investidores vendidos a recomprar suas posições.

Mesmo assim, a cotação próxima de US$ 79 mil permanecia distante do recorde de aproximadamente US$ 126 mil. O pico ocorreu no começo de outubro de 2025. Deng Chao, CEO da HashKey Capital, comparou a presença no evento aos ciclos observados nos mercados tradicionais.

“Se o Bitcoin subir para US$ 100 mil, isto fica cheio; se voltar para US$ 60 mil, haverá menos gente.”

Investidores ampliam exposição às finanças tradicionais

Apesar do ambiente mais contido, o encontro revelou uma convergência entre o mercado cripto e as finanças tradicionais. Nesse processo, investidores passaram a buscar diferentes formas de diversificação. A AMINA Bank, instituição suíça licenciada em Hong Kong, observou essa mudança em sua operação.

Há alguns anos, 95% dos negócios do banco envolviam operações à vista com 15 ou 20 criptomoedas. Nos 12 meses anteriores ao evento, porém, a mesa de valores mobiliários tradicionais cresceu de forma expressiva. Agora, os clientes demonstram maior interesse por instrumentos convencionais.

Segundo Mike Foy, diretor financeiro do banco, clientes nativos do mercado cripto começaram a diversificar parte do patrimônio em valores mobiliários. Pela primeira vez, um deles vendeu Bitcoin e passou a priorizar a preservação de riqueza. Depois dessa mudança, o cliente aumentou a exposição a investimentos tradicionais.

“Os nativos cripto estão se profissionalizando e as instituições tradicionais estão despertando.”

Essa convergência ganhou um instrumento concreto nos contratos perpétuos, também chamados de perps. Por meio desses derivativos, investidores apostam na valorização de empresas de tecnologia. Inclusive, os contratos oferecem exposição a ofertas públicas iniciais chinesas de difícil acesso.

Na operação da AMINA, o volume dos perps vinculados a ações superou o volume daqueles ligados a criptomoedas neste ano. Assim, o movimento reforçou a aproximação entre investidores digitais e mercados tradicionais. A mudança também evidenciou uma demanda crescente por produtos mais sofisticados.

Regras de Hong Kong restringem produtos procurados

Por outro lado, essa demanda enfrenta uma contradição regulatória em Hong Kong. A cidade criou um regime de licenças para se consolidar como polo asiático do mercado cripto. Porém, as regras restringem justamente alguns dos produtos que despertam maior interesse institucional.

Atualmente, as exchanges licenciadas não podem vender derivativos. Da mesma forma, os investidores podem negociar apenas alguns pares entre as principais criptomoedas. Já os fundos precisam de aprovações adicionais quando a exposição a ativos virtuais ultrapassa 10%.

O gargalo também alcança as stablecoins, utilizadas na liquidação da maioria dos derivativos do setor. Inicialmente, o mercado esperava que as licenças avançassem mais cedo. Entretanto, autorizações para entidades ligadas ao Standard Chartered e ao HSBC chegaram apenas em abril.

Neste mês, o acesso beta à HKDAP abriu somente para instituições e investidores profissionais. A stablecoin em dólar de Hong Kong conta com respaldo do Standard Chartered. Plataformas como HashKey e OSL disponibilizaram o acesso ao produto.

Dessa maneira, Hong Kong estimula o interesse institucional, mas ainda não consegue atendê-lo integralmente. Kristi Schwartz, sócia da DLA Piper, destacou a procura de gestores e family offices por maior capacidade de uso das stablecoins. Para esses participantes, as limitações reduzem as oportunidades de retorno.

“Se alguém busca retornos e quer atrair os family offices locais, não tenho certeza de que já chegamos lá.”

Em síntese, o Bitcoin Asia 2026 não retratou uma indústria em retirada. Em vez disso, o evento mostrou investidores mais profissionalizados e interessados em derivativos, ações e ativos tokenizados. Ao mesmo tempo, Hong Kong continua limitando parte das operações que o mercado deseja realizar.