Bitcoin cai abaixo de US$ 73 mil com tensão EUA-Irã

O Bitcoin caiu abaixo de US$ 73 mil em poucas horas e apagou semanas de valorização. O movimento atingiu todo o mercado de criptomoedas. Ainda assim, o gatilho não veio de falha de protocolo nem de pressão regulatória. A queda ganhou força com a aversão global ao risco após a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã.

Relatos sobre reforço militar no Golfo Pérsico e o colapso de negociações diplomáticas pressionaram os mercados. Como resultado, ações recuaram, o petróleo passou de US$ 105 por barril e o Bitcoin voltou a se comportar como ativo de risco, não como reserva de valor.

Rompimento de suporte acelera a correção

Depois de passar boa parte do início de maio entre US$ 75 mil e US$ 78 mil, o BTC mostrava estabilidade. No entanto, esse quadro mudou rapidamente quando as manchetes geopolíticas chegaram ao mercado. Assim que a sessão asiática abriu, as vendas se intensificaram.

Em cerca de seis horas, o Bitcoin saiu da máxima intradiária de US$ 76.200 para a mínima de US$ 72.480. A queda representou uma oscilação negativa de 4,9%, a mais forte em uma sessão desde a correção de março de 2026 ligada à volatilidade do mercado de títulos do Japão.

O volume negociado em corretoras como Binance e Coinbase quase triplicou frente à média dos últimos 30 dias. Ao mesmo tempo, ordens de venda dominaram livros mais enxutos na sobreposição entre os pregões da Ásia e da Europa.

Nível técnico de US$ 73 mil perde força

A faixa de US$ 73 mil tinha peso técnico e psicológico. Afinal, além de funcionar como número redondo relevante, ela sustentava o preço desde abril, após três testes bem-sucedidos. A média móvel de 200 dias rondava US$ 73.400. O rompimento abaixo desse patamar acionou ordens de stop loss de algoritmos seguidores de tendência e de operadores manuais.

Dados on-chain da Glassnode indicaram que cerca de 1,2 milhão de BTC tinham preço médio de compra entre US$ 70 mil e US$ 74 mil. Dessa forma, uma parcela relevante dos investidores passou a operar no zero a zero ou no prejuízo.

Tensão entre EUA e Irã eleva aversão ao risco

A queda do mercado cripto integrou um movimento mais amplo de retirada global de risco. Em virtude do receio de conflito militar no Oriente Médio, especialmente em uma região central para o fluxo mundial de petróleo, a incerteza aumentou nos mercados tradicionais. No mesmo dia, o S&P 500 caiu 2,3%, o índice de volatilidade VIX avançou para 28 e os rendimentos dos Treasuries recuaram com a migração de capital para títulos do governo.

Ao mesmo tempo, o petróleo subiu acima de US$ 105 por barril e reacendeu temores inflacionários. Isso ocorreu em um momento no qual bancos centrais já sinalizavam a possibilidade de cortes de juros mais adiante em 2026. Mesmo assim, o Bitcoin não repetiu o comportamento do ouro. Enquanto o metal precioso avançou 1,8% e chegou a US$ 2.890 por onça, a maior criptomoeda acompanhou a fraqueza das ações.

Investidores tratam Bitcoin como ativo de risco

Esse padrão já apareceu em outros choques geopolíticos agudos desde 2022. Portanto, ele reforça a leitura de que investidores institucionais ainda tratam o Bitcoin como ativo de risco na atual estrutura de mercado. Fundos ligados a ETFs e hedge funds macro tendem a reduzir exposição a ativos voláteis em momentos de pânico.

Como o Bitcoin negocia 24 horas por dia e mantém liquidez elevada, ele costuma virar uma fonte imediata de caixa quando os mercados acionários estão fechados. Assim, a tese de ouro digital pode seguir válida no longo prazo. No entanto, em crises geopolíticas intensas, o comportamento se aproxima mais de uma versão alavancada da Nasdaq.

Liquidações passam de US$ 1 bilhão em 24 horas

O maior impacto apareceu nos derivativos. Dados da Coinglass mostram que o mercado liquidou mais de US$ 1,07 bilhão em posições de criptomoedas nas 24 horas seguintes ao início da queda. Desse total, cerca de 78% estavam em posições compradas. O dado mostra que a maior parte do mercado ainda apostava na continuação da alta.

A maior liquidação individual atingiu uma posição comprada em Bitcoin de US$ 14,2 milhões na Bybit. Além disso, milhares de operações menores, entre US$ 50 mil e US$ 500 mil, alimentaram a cascata de vendas. O open interest dos contratos futuros perpétuos de Bitcoin caiu aproximadamente 18% em um único dia, de US$ 22,4 bilhões para US$ 18,3 bilhões.

As taxas de financiamento dos swaps perpétuos, positivas havia semanas, passaram para território negativo. Em outras palavras, o sentimento virou da ganância para o medo. Nos futuros de Bitcoin da CME, o prêmio sobre o mercado à vista caiu de 8,2% ao ano para apenas 2,1%. O movimento sugere desmontagem acelerada de operações institucionais de carry trade.

Altcoins registram perdas mais fortes

A fraqueza do Bitcoin contaminou o restante do mercado de criptomoedas, mas de forma desigual. O Ethereum caiu 6,8%, para cerca de US$ 3.420, e teve desempenho inferior ao do BTC. Por consequência, a relação ETH/BTC recuou para 0,047, o menor nível desde fevereiro de 2026.

Tokens de camada 2, como Arbitrum (ARB) e Optimism (OP), recuaram entre 9% e 12%. Da mesma forma, entre os principais nomes de DeFi, Aave e Uniswap caíram de 8% a 15%. Já o segmento mais atingido reuniu memecoins e small caps especulativas, com perdas entre 20% e 30% em vários ativos.

Os tokens ligados a ativos do mundo real mostraram resistência relativa. Ondo Finance (ONDO) caiu 4,2%, possivelmente porque sua proposta de valor se associa a rendimentos de Treasuries, que ganharam demanda no movimento defensivo. Em contrapartida, tokens de DePIN, como Helium (HNT), caíram em linha com o restante das altcoins, em torno de 10%.

ETFs e novas faixas entram no radar

No agregado, o valor total do mercado de criptomoedas encolheu de US$ 3,1 trilhões para US$ 2,87 trilhões. Isso equivale a uma perda aproximada de US$ 230 bilhões em 24 horas. Nos ETFs spot de Bitcoin, os fluxos mostraram sinais mistos. O iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, registrou saída líquida de US$ 142 milhões, a maior em um único dia desde janeiro de 2026. Por outro lado, o FBTC, da Fidelity, recebeu US$ 38 milhões em entradas líquidas.

Essa divergência sugere comportamentos distintos dentro do capital institucional. Enquanto parte dos investidores aproveitou a correção para montar posição, outros reduziram exposição em resposta ao pânico. Historicamente, em vendas motivadas por choques geopolíticos, os resgates em ETFs costumam se estabilizar entre três e cinco pregões, desde que a crise não avance.

Faixas observadas pelo mercado

Com o rompimento da média móvel de 200 dias, analistas técnicos passaram a monitorar a região entre US$ 70 mil e US$ 71 mil como próxima zona importante de demanda. Essa faixa coincide com o preço realizado dos detentores de curto prazo e com um nó de alto volume no perfil de negociação. Abaixo dela, US$ 67.500 aparece como referência crítica, pois marcou a máxima do ciclo de 2025 e pode funcionar como suporte em um reteste mais profundo.

Para uma recuperação consistente, o Bitcoin precisaria retomar US$ 73.500 no fechamento diário. Além disso, um retorno acima de US$ 76 mil reforçaria a leitura de choque geopolítico temporário, e não de mudança estrutural de tendência. Agora, o mercado monitora a combinação entre petróleo acima de US$ 105, S&P 500 em baixa, liquidações acima de US$ 1,07 bilhão e queda do open interest de US$ 22,4 bilhões para US$ 18,3 bilhões.

O autor:

Contabilidade de Criptomoedas