Bitcoin cai com resgate de US$ 528 mi no IBIT

O iShares Bitcoin Trust (IBIT), ETF spot de Bitcoin da BlackRock, registrou em 2 de janeiro de 2026 uma saída líquida de US$ 528 milhões em uma única sessão. Assim, o fundo teve um dos maiores resgates diários desde a estreia dos ETFs spot de Bitcoin, em janeiro de 2024. Ainda assim, o patrimônio do produto segue acima de US$ 50 bilhões.

O movimento ocorreu em um pregão de vendas amplas entre os principais ETFs de Bitcoin dos Estados Unidos. Além disso, a retirada interrompeu a sequência de entradas quase contínuas no IBIT, que liderava a captação no segmento. Em outras palavras, o fluxo negativo reacendeu o debate sobre o apetite institucional pelo ativo.

Historicamente, esta foi a segunda maior saída líquida diária do IBIT desde o lançamento. A única perda maior ocorreu no fim de 2025, quando cerca de US$ 580 milhões deixaram o fundo em meio a uma incerteza regulatória mais intensa. Agora, contudo, o contexto parece mais difuso e abre espaço para leituras ligadas ao cenário macroeconômico e ao reposicionamento de grandes investidores.

O contraste chama atenção porque o IBIT acumulou mais de US$ 35 bilhões em entradas líquidas nos primeiros 12 meses de negociação. Portanto, um único dia de saída não anula a trajetória do produto. Ainda assim, mostra que os fluxos institucionais para ETFs de Bitcoin também passam por ajustes relevantes.

Resgate no ETF da BlackRock superou concorrentes

No mesmo pregão, o FBTC, da Fidelity, registrou saída de cerca de US$ 120 milhões. Em seguida, o ARKB, da Ark Invest em parceria com a 21Shares, perdeu aproximadamente US$ 90 milhões. O BITB, da Bitwise, recuou US$ 18 milhões, enquanto o HODL, da VanEck, teve saída de US$ 8 milhões. Em contrapartida, o GBTC, da Grayscale, anotou entrada modesta de US$ 12 milhões.

Esse recorte indica que o resgate do IBIT foi desproporcional. Sozinho, o fundo da BlackRock respondeu por cerca de 73% das saídas líquidas do setor naquele dia, que superaram US$ 700 milhões no total. Dessa forma, o mercado passou a considerar que o episódio refletiu uma decisão concentrada entre grandes cotistas, e não apenas uma reação uniforme de todo o segmento.

De fato, investidores institucionais não costumam movimentar somas dessa ordem por impulso. Assim, a cifra de US$ 528 milhões sugere rebalanceamentos coordenados de portfólio. Alternativamente, também pode indicar uma redução deliberada de risco em um intervalo curto. Apesar do resgate, o IBIT permanece entre os principais veículos institucionais de exposição ao Bitcoin nos Estados Unidos.

Início de ano favorece rebalanceamentos

Quando a análise se amplia para todo o mercado de ETFs spot de Bitcoin, o quadro aponta uma sessão de forte ajuste. As saídas acima de US$ 700 milhões ocorreram enquanto o Bitcoin orbitava a faixa de US$ 94.000, após um dezembro marcado por volatilidade. Nesse sentido, a concentração das retiradas no primeiro pregão de 2026 reforça a leitura de rebalanceamentos típicos de início de ano.

Fundos de pensão, endowments, hedge funds e tesourarias corporativas estiveram entre os principais compradores desses produtos desde o lançamento. Contudo, esses participantes operam com blocos maiores e seguem regras mais rígidas de alocação. Por isso, se a valorização do Bitcoin em 2025 elevou a participação da classe de ativo além dos limites desejados, vender no início do novo ano seria uma resposta clássica de gestão disciplinada.

Macro, lucro e preço do Bitcoin entram na equação

O ambiente macroeconômico também ajudou a pressionar o mercado. Após cortar juros três vezes no fim de 2025, o Federal Reserve passou a sinalizar uma postura mais cautelosa para 2026. Como resultado, o mercado começou a precificar apenas um ou dois cortes adicionais. Com rendimentos dos Treasuries acima de 4%, ativos de risco perderam parte da atratividade relativa.

Além disso, disputas comerciais entre Estados Unidos e China e perturbações no mercado de energia na Europa reforçaram uma postura defensiva entre investidores. Como a correlação do Bitcoin com ações cresceu ao longo de 2025, o ativo passou a sentir com mais frequência os mesmos movimentos de aversão a risco que afetam índices como o Nasdaq.

Outro fator importante foi a realização de lucro. O Bitcoin praticamente dobrou de preço em 2025, ao sair de cerca de US$ 44.000 em janeiro para quase US$ 98.000 no pico de dezembro. Depois, encerrou o ano próximo de US$ 94.000. Assim, investidores institucionais que entraram no IBIT nos primeiros meses de 2024 chegaram ao fim de 2025 com ganhos não realizados entre 80% e 100%.

Diante desse desempenho, cristalizar parte do lucro no fechamento do ano ou no início de janeiro parece uma decisão racional. Portanto, a saída do ETF da BlackRock pode refletir mais captura de ganhos do que perda de confiança no Bitcoin como classe de ativo.

Liquidez de curto prazo entrou no radar

Saídas dessa magnitude em ETFs spot costumam gerar pressão de venda no mercado à vista. Para honrar resgates, o veículo pode precisar reduzir a posição em Bitcoin mantida sob custódia. No caso do IBIT, a estrutura envolve principalmente a Coinbase Custody. Desse modo, o fluxo pode alcançar os livros de ofertas e produzir distorções de preço no curto prazo, sobretudo em um período de liquidez mais fina por causa da virada de ano.

Em 2 de janeiro, o Bitcoin caiu cerca de 3,2%, de US$ 94.200 para US$ 91.100, antes de uma leve recuperação. A venda associada aos ETFs provavelmente contribuiu para esse movimento. Ao mesmo tempo, liquidações no mercado futuro e atividade em corretoras à vista também participaram da pressão.

Tese institucional continua apesar da correção

Apesar do impacto do número, a tese estrutural de adoção institucional de ativos digitais não parece ter mudado. BlackRock, Fidelity e outras grandes gestoras seguem ampliando sua atuação em produtos ligados ao mercado cripto. Além disso, o CEO da BlackRock, Larry Fink, descreveu o Bitcoin de forma recorrente como uma classe de ativo legítima.

Da mesma forma, produtos adjacentes reforçam um quadro mais amplo. Os ETFs spot de Ethereum, lançados em meados de 2024, continuaram atraindo capital. Ademais, a tokenização de ativos do mundo real em plataformas como o fundo BUIDL, da BlackRock, avançou com mais de US$ 2 bilhões em produtos tokenizados de títulos do Tesouro em blockchain.

O histórico recente também favorece uma leitura menos alarmista. Em 2025, o IBIT atravessou sequências de vários dias de saídas, incluindo um período de cinco pregões em setembro que somou mais de US$ 900 milhões em resgates. Ainda assim, as entradas voltaram dentro de uma ou duas semanas, e o fundo depois alcançou novos picos de ativos sob gestão.

Agora, o mercado observará os dados das próximas duas semanas para avaliar se o evento de 2 de janeiro foi apenas um rebalanceamento de início de ano ou o começo de uma retirada institucional mais ampla. Por enquanto, os números centrais seguem claros: o IBIT perdeu US$ 528 milhões em um dia, o setor de ETFs spot de Bitcoin superou US$ 700 milhões em saídas líquidas, o GBTC teve entrada de US$ 12 milhões e o Bitcoin caiu de US$ 94.200 para US$ 91.100 no período.

O autor:

Contabilidade de Criptomoedas