Bitcoin: Coldcard e IBIT ampliam debate sobre segurança
A semana do Bitcoin reúne discussões sobre segurança digital, liquidez institucional e privacidade. De um lado, o roubo associado a carteiras Coldcard reforçou a importância da entropia na criação de chaves. Ao mesmo tempo, o ETF IBIT, da BlackRock, voltou a atrair capital, enquanto uma proposta de Donald Trump reacendeu o debate fiscal.
Esse panorama também retoma conceitos anteriores ao surgimento do Bitcoin. Nesse contexto, as pesquisas de David Chaum sobre dinheiro digital privado seguem relevantes em uma era de pagamentos rastreáveis. Além disso, a recuperação de 61 BTC por um investidor britânico expõe desafios duradouros relacionados ao acesso e à proteção dos fundos.
Segurança, liquidez e privacidade entram no radar
Falha de aleatoriedade afetou chaves ligadas à Coldcard
O recente roubo de mais de 2.000 BTC vinculados à Coldcard não teria resultado de uma falha na rede Bitcoin. Segundo os relatos, o problema envolveu o firmware usado para gerar determinadas chaves. Nesse caso, um erro introduzido anos antes teria reduzido significativamente a entropia disponível.
Como consequência, um invasor conseguiu reconstruir algumas sementes vulneráveis sem obter acesso físico aos aparelhos. Assim, o episódio diferencia a segurança do protocolo daquela oferecida pelas ferramentas usadas para guardar os fundos. Embora a autocustódia elimine riscos de plataformas centralizadas, ela exige confiança no hardware, no software e nos processos de proteção.
O caso também mostra que a reputação de um fabricante não elimina a possibilidade de vulnerabilidades. Da mesma forma, o código aberto não garante, por si só, a ausência de falhas. Portanto, a geração adequada de aleatoriedade continua essencial para proteger os recursos armazenados.
Proposta de Donald Trump remete ao ciclo de 2020
Donald Trump prometeu um “dividendo” de US$ 5.000 para cada adulto dos Estados Unidos. A promessa seria aplicada caso os republicanos mantivessem o controle do Congresso. Se alcançasse uma parcela ampla da população, a medida exigiria um desembolso fiscal elevado.
Entretanto, a iniciativa ainda representa uma proposta política, cuja implementação dependeria de vários fatores. Mesmo assim, o mercado avalia seus possíveis efeitos sobre investimentos de risco, incluindo o Bitcoin. A discussão remete ao ciclo de alta que acompanhou a expansão da liquidez em 2020 e 2021.
Contudo, as condições atuais diferem de forma substancial daquele período. Na ocasião mencionada pela notícia, o Bitcoin era negociado perto de US$ 78.000 durante uma fase corretiva, enquanto os juros permaneciam elevados. Por outro lado, um estímulo fiscal de grande escala poderia aumentar novamente as pressões inflacionárias.
Dessa maneira, a proposta reabre o debate sobre dominância fiscal. Também reforça a discussão sobre o apelo de recursos com oferta limitada diante do avanço da dívida pública. Apesar disso, não há garantia de que a proposta será implementada ou produzirá efeitos semelhantes aos do ciclo anterior.
IBIT atrai US$ 3,7 bilhões no terceiro trimestre
O iShares Bitcoin Trust, conhecido pela sigla IBIT, voltou a demonstrar forte capacidade de captação. O ETF de Bitcoin à vista da BlackRock recebeu aproximadamente US$ 3,7 bilhões no terceiro trimestre. Com isso, seu patrimônio sob gestão se aproximou de máximas anteriores.
Desde o lançamento, em 2024, o produto acumulou dezenas de bilhões de dólares em entradas líquidas. Desse modo, o IBIT permanece como o principal veículo institucional entre os ETFs de Bitcoin à vista dos Estados Unidos. Parte do avanço no valor do fundo desde julho, porém, reflete a valorização do próprio Bitcoin.
Logo, o crescimento não resulta exclusivamente de novos aportes. Em paralelo, as expectativas sobre a política monetária do Federal Reserve continuam influenciando os fluxos. Ainda assim, a atividade irregular de setembro dificulta identificar uma nova fase estrutural de adoção.
David Chaum antecipou o debate sobre dinheiro digital
Na década de 1980, David Chaum alertou para a possível perda do anonimato característico do dinheiro em espécie. Em 1982, o criptógrafo apresentou o conceito de assinaturas cegas. A tecnologia permitia validar determinadas transações sem revelar todas as informações sobre a identidade do usuário.
Com esse trabalho, Chaum defendeu que a privacidade financeira digital não deveria depender apenas da confiança nas instituições. Em vez disso, mecanismos criptográficos precisariam integrar a arquitetura do sistema. Suas pesquisas formaram parte das bases conceituais do dinheiro eletrônico.
Décadas depois, essa linhagem criptográfica influenciou o desenvolvimento do Bitcoin, apesar das diferenças fundamentais entre os sistemas. Ambos buscavam reproduzir digitalmente algumas propriedades do dinheiro físico. Atualmente, as ideias de Chaum permanecem no debate entre transparência regulatória, vigilância financeira e privacidade.
Investidor britânico recupera 61 BTC após 12 anos
Um investidor britânico identificado pelo pseudônimo Chris recuperou 61 BTC após passar 12 anos sem acesso aos fundos. Ele havia investido cerca de 1.500 libras em Bitcoin desde 2011, por meio da exchange Intersango. Hoje, os recursos valem perto de US$ 5 milhões.
A recuperação não ocorreu por meio da descoberta de uma senha antiga. Em vez disso, Chris comprovou a propriedade durante um processo legal, usando documentos judiciais, registros bancários e ferramentas de rastreamento. Agora, ele pretende guardar parte dos BTC e vender o restante.
O investidor planeja usar os recursos para mudar para uma casa maior e ajudar o filho com compromissos hipotecários. Apesar da recuperação, Chris afirma que ainda teme ataques e golpes. Por esse motivo, ele consulta repetidamente o aplicativo para verificar a segurança dos fundos.
“Em cripto, na verdade, nada é totalmente regulado”, afirmou Chris. O caso resume os riscos relacionados à proteção e à recuperação do acesso ao Bitcoin no longo prazo. Enquanto isso, a expansão institucional e o debate sobre privacidade mantêm o Bitcoin ligado a questões técnicas, econômicas e sociais.
Joel McLeod, citado no relato, também destacou a permanência desse mercado. “A criptomoeda está absolutamente aqui para ficar. Se você não consegue ver isso agora, é hora de aprender mais sobre o assunto”, afirmou. Assim, segurança, liquidez e privacidade continuam entre os principais temas que cercam o Bitcoin.