Bitcoin concentra volatilidade no horário de Wall Street

O Bitcoin opera sem interrupções, mas sua volatilidade se concentra cada vez mais no horário de Wall Street. Entre 2022 e 2025, o período das 13h às 21h59 UTC respondeu por 50,6% da variância realizada diária. Entre 2016 e 2018, essa participação correspondia a 38,4%. Portanto, a formação de preços ficou mais concentrada, embora o mercado permaneça aberto 24 horas por dia.

Um estudo acadêmico analisou 87.672 observações horárias do par XBT/USD na Kraken entre 2016 e 2025. Segundo os pesquisadores, a mudança vai além da atividade registrada durante o horário comercial dos Estados Unidos. Atualmente, o pico de volatilidade acompanha a mudança de horário de Nova York e perde força após o fechamento da Bolsa de Nova York.

Volatilidade acompanha o relógio de Nova York

Os pesquisadores usaram a transição para o horário de verão dos Estados Unidos para isolar a influência de Wall Street. A bolsa americana abre às 9h30 em Nova York, mas esse momento muda uma hora em UTC após o ajuste dos relógios. Enquanto isso, operações asiáticas e estratégias automatizadas baseadas em UTC não passam pela mesma alteração. Dessa forma, o teste separa a influência americana de atividades que apenas coincidem com horários semelhantes.

Entre 2022 e 2025, a hora mais volátil do Bitcoin passou das 14h UTC, no horário de verão, para as 15h UTC no horário padrão. Assim, o pico acompanhou diretamente a mudança da sessão de negociação nos Estados Unidos. O centro da janela americana, ponderado pela variância, também avançou 0,33 hora. A pesquisa classificou essa alteração como estatisticamente significativa.

Em contraste, o padrão não apareceu entre 2016 e 2018. Naquele período, o perfil intradiário de volatilidade do Bitcoin não reagiu claramente às mudanças de horário dos Estados Unidos. Os feriados da Bolsa de Nova York ofereceram um segundo teste. Em feriados americanos durante dias úteis recentes, a participação das horas dos Estados Unidos na variância caiu 13,9 pontos percentuais.

Feriados reduzem a influência da sessão americana

Nesses feriados, a participação recuou de 55,7% para cerca de 41,9%. Com isso, a distribuição se aproximou dos 37,5% esperados caso a volatilidade ocupasse uniformemente as 24 horas do dia. A diferença também deixou de apresentar significância estatística. Logo, estratégias asiáticas ou europeias isoladas não explicam facilmente o fenômeno.

O centro de volatilidade também avançou para dentro da sessão americana. Entre 2016 e 2018, a medida estava em 14,1 UTC, perto da sobreposição entre Londres e a abertura de Nova York. Já entre 2022 e 2025, ela chegou a 17,1 UTC. Ao mesmo tempo, o índice de concentração calculado pelo estudo cresceu mais de 40%.

ETFs de Bitcoin não iniciaram a mudança

O momento da transformação enfraquece a hipótese de que os ETFs de Bitcoin à vista causaram a mudança após janeiro de 2024. Uma análise de pontos de ruptura identificou novembro de 2021 como a principal quebra da volatilidade no horário americano. Contudo, o lançamento dos futuros de Bitcoin da CME, em dezembro de 2017, não produziu uma ruptura local semelhante. A aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista também não apresentou uma quebra comparável.

Uma comparação ampla dos períodos anterior e posterior aos ETFs indicou um aumento aparente de 9,6 pontos percentuais na participação americana. Entretanto, uma janela simétrica de 12 meses ao redor do evento reduziu a mudança para apenas 0,1 ponto percentual. O resultado não apresentou significância estatística. Por sua vez, os futuros da CME seguiram o mesmo padrão, com o ganho aparente caindo de 7,1 para 0,3 ponto percentual.

Tendência ampla pode distorcer eventos específicos

Para testar essa possível distorção, os pesquisadores escolheram mil datas aleatórias e trataram cada uma como um evento relevante. O método amplo encontrou significância de 0,1% em todos os mil eventos fictícios. Em contrapartida, a abordagem simétrica produziu o mesmo resultado em apenas 4,7% dos casos. Nesse sentido, a institucionalização surge como explicação ampla, sem atribuir a transformação a um único produto.

Fluxos de ETFs, derivativos e operações de hedge de formadores de mercado continuam como possíveis vetores. Ainda assim, o estudo identifica a sessão à vista dos Estados Unidos como a principal referência temporal do mercado. A pesquisa não determina qual canal exerce maior influência. Para essa distinção, os pesquisadores precisariam de dados de livros de ofertas e negociações.

Mercado de criptomoedas adota horários comerciais

A mudança também alcançou o calendário semanal. A relação entre a volatilidade dos fins de semana e dos dias úteis caiu de 0,96 em 2016 para 0,60 em 2024. Em 2025, o indicador ficou em 0,64. Da mesma forma, a relação entre volumes negociados recuou de 0,78 para 0,43 em 2024, antes de avançar para 0,46 no último ano.

Outros ativos negociados há mais tempo na Kraken apresentaram comportamento semelhante. Ethereum, XRP, Solana, Cardano, Dogecoin e Chainlink registraram maior participação das horas americanas na variância. O XRP avançou de 37,2%, em seu primeiro período de dois anos, para 46,2% no período mais recente. Já o Ethereum passou de 41,8% para 48,2%, enquanto o Litecoin não exibiu tendência estatisticamente significativa.

Concentração afeta modelos de risco e liquidez

Para empresas de trading, o efeito vai além do simbolismo de um mercado contínuo que segue horários comerciais. Modelos que distribuem a volatilidade uniformemente podem subestimar a exposição durante a sessão americana. Por outro lado, essas ferramentas podem superestimar o risco durante a madrugada. Além disso, fins de semana menos líquidos ampliam a diferença entre o mercado à vista e derivativos ligados aos calendários tradicionais.

O estudo utiliza principalmente dados de uma única exchange e termina no fim de 2025. Por isso, a confirmação em várias plataformas representa o próximo teste para a hipótese. Os resultados poderão afetar exigências de margem, provisão de liquidez e cronogramas de hedge. O Bitcoin continua disponível em todas as horas, mas uma parcela maior do risco agora parece ocupar uma janela menor.